Pussy Riot condenadas a 2 anos de prisão

Timóteo Azevedo

Maria Alyokhina, Yekaterina Samutsevich e Nadezhda Tolokonnikova, 3 dos membros da banda punk Pussy Riot, foram esta tarde [17 de Agosto] condenadas a 2 anos de encarceramento numa prisão de segurança média. A condenação surge depois do veredicto de culpadas por actos de hooliganismo motivados por ódio religioso. Uma acusação da qual as três mulheres sempre declaram estar inocentes.

O caso começou a 21 de Fevereiro, quando 3 membros da banda se dirigiram à catedral de Cristo o Salvador em Moscovo, a principal templo da Igreja Ortodoxa russa. Uma vez dentro do edifício, as mulheres mascaradas benzeram-se e ajoelharam-se repetidas vezes enquanto cantavam uma música que pedia “Virgem Maria, livrai-nos de Putin!” A performance fazia parte de um protesto conta a reeleição de Vladimir Putin como presidente. A música também acusava o Patriarca da Igreja Ortodoxa russa, Kirill I de Moscovo, de ser alguém que acreditava mais no político Putin do que em Deus. As mulheres foram rapidamente afastadas do local, mas o acontecimento foi filmado e viria a ser integrado num vídeo para o tema.

Sobre o sucedido, o Patriarca Kirill I descreveu o episódio como “blasfémia” durante uma cerimónia religiosa, declarando “O Diabo riu-se de todos nós”.

http://www.youtube.com/watch?v=ALS92big4TY

O processo

Maria Alyokhina e Nadezhda Tolokonnikova foram detidas a 3 de Março, sob a acusação de pertencerem às Pussy Riot e de terem participado no acontecimento. Ambas as mulheres negaram serem membros do grupo, e iniciaram uma greve de fome contra o seu aprisionamento que as afastava dos seus filhos pequenos até ao início do julgamento em Abril. Yekaterina Samutsevich, que inicialmente tinha sido indicada como testemunha no caso, também foi detida no dia 16 de Março.

As mulheres tiveram acesso à acusação formal no dia 4 de Junho, com um total de 2800 páginas. Um mês mais tarde, foram subitamente informadas que teriam de acabar de preparar a sua defesa até ao dia 9 de Julho. O aviso deixou-as com apenas mais dois dias úteis para preparar a sua defesa, e as três mulheres anunciaram uma greve de fome como protesto pela inadequação do tempo permitido para preparação. No dia 21 de Julho, a prisão preventiva das 3 mulheres foi estendida por mais 6 meses.

As reacções

No intervalo entre a detenção das mulheres e a sua condenação, o caso dividiu a sociedade russa e internacional. De um lado os que defendem a punição das mulheres por ofensa aos crentes. Do outro, levantaram-se inúmeras vozes contra o que muito consideraram um julgamento meramente político. As Pussy Riot receberam vários apoios, com a organização de defesa dos direitos humanos Grupo Moscovo-Helsínquia a declará-las como vítimas de perseguição política. As mulheres foram reconhecidas como prisioneiras políticas pela União de Solidariedade para com os Prisioneiros Políticos, e nomeadas como “prisioneiras de consciência” pela Amnistia Internacional.

As Pussy Riot também reuniram vários apelos à sua libertação por parte de muitos nomes importantes no mundo da música, entre os quais se encontram  Kate NashRed Hot Chili Peppers, StingPeter Gabriel, Cornershop, Faith No More, Alex Kapranos de Franz Ferdinand, Neil Tennant dos Pet Shop BoysPatti SmithThe Beastie BoysRefusedZola JesusDie AntwoordJarvis Cocker, Pete TownshendThe Joy FormidablePeachesMadonna, GenesisTegan and SaraJohnny Marr, Courtney Love, Iiro Rantala, Propagandhi, Anti-FlagRise Against, Corinne Bailey RaePeter HammillKathleen HannaBjörk, Paul McCartney, e Yoko Ono. A estes juntaram-se inúmeros anónimos, que organizaram acções de protesto um pouco por todo o globo usando máscaras e roupas semelhantes aos elementos da banda.

A juíza Marina Syrova, responsável pelo julgamento, declarou “Devido às suas acções, Samutsevich, Tolokonnikova e Alyokhina perturbaram seriamente a ordem pública e o funcionamento quotidiano da Catedral. Mostraram um evidente desrespeito pelos paroquianos e trabalhadores, e ao fazê-lo ofenderam gravemente as suas sensibilidades religiosas.>As três mulheres pediram repetidas vezes o afastamento de Syrova do caso, por a considerarem tendenciosa e por estar a ceder a pressões políticas.

Sobre o caso, Nadezhda Tolokonnikova das Pussy Riot afirmou que não se arrependia das suas acções. “Não, claro que não. Estamos felizes por nos termos tornado inesperadamente no epicentro de um acontecimento político tão grande com tantas forças em jogo”, declarou em entrevista à revista informativa Novaya Gazeta.

Tolokonnikova ainda acrescentou “Não acredito na decisão do tribunal de forma nenhuma… Não existe tribunal, é uma ilusão.”

“O mundo inteiro diz que não somos culpadas.Falam disso em concertos, na Internet, na comunicação social e nos parlamentos. O mundo inteiro está a dizer ‘Elas não são culpadas!'”, afirmouYekaterina Samutsevich durante os testemunhos finais.

O julgamento “representou uma farsa de justiça” baseada num “acto absurdo que agigantou-se numa enorme catástrofe”, declarou Maria Alyokhina nos testemunhos finais. “[…] quando nos referimos a Putin, o que temos em mente não é Vladimir Vladimirovich Putin mas Putin o sistema que ele próprio criou – o poder vertical, em que todo o controlo é efectivamente executado por uma só pessoa.”

A acusação pede que a pena seja elevada para três anos, enquanto a defesa continua a pedir a absolvição. O tempo de encarceramento entre a detenção e a condenação será contado como parte da pena, tendo as mulheres de cumprir apenas o restante.

EGITANA