AS10: AMÁMOS O BONS SONS

AS10: AMÁMOS O BONS SONS

Nero

No balanço final do Bons Sons, a organização dá contas de terem passado por Cem Soldos 35 mil visitantes. Entre tanta gente sensata, a Arte Sonora esteve no festival pela primeira vez.

Considerando que esta foi a 6ª edição do Bons Sons, apetece ser lamechas e citar as “Confissões”: «Tarde te amei». Falta-nos, em demasia, a eloquência do venerado hedonista númida. Será, portanto, com o entusiasmo de ter “vivido a aldeia”, que nos propomos ao balanço final AS.

1 | Antes dos vários motivos que tornam tão especial este festival, há um meio romântico que determina todos os outros. O Manel Cruz foi sintomático a enunciá-lo: «Que bom que este festival ainda não se tornou o NOS Sons ou o Vodafone Cem Soldos. Que assim permaneça». Há um espírito de contra-cultura. Amámos o Bons Sons porque é tão DIY! Pressente-se isso na conversa que tivemos com Luís Ferreira, na publicada e no off-record, e sente-se isso, da melhor forma possível, em cada contacto com a organização, com os voluntários do festival e com os locais.

2 | Claro que sem grandes concertos não existem bons festivais. E Amámos o Bons Sons porque teve grandes concertos! Podem, facilmente, encontrar as várias galerias fotográficas que a AS trouxe dos palcos de Cem Soldos, bem como as actuações que nos pareceram as mais impactantes: Júlio Resende, Riding Pânico, Sequin, Criatura, D’Alva e Bruno Pernadas. Mas manda a justiça referir tantos outros. [Ver galeria em baixo]

3 | Uma condição determinante para haver bons concertos é haver bom som. Amámos o Bons Sons porque a qualidade de som foi extraordinária e transversal a cada um dos palcos e na quase totalidade dos concertos. Nada de PA’s a “clippar”, nada de falta de volume ou de potência, nada de torres de delay que servem apenas para enganar a DECO. O espaço temporal entre actuações (que foi ainda o amor por outros motivos), em cada um dos palcos, permitiu aos técnicos um trabalho exemplar, pelo menos a “ouvido nu”. A definição dos sistemas Electro-Voice e as instalações, em cada palco, com margens generosas de potência para a relação espaço/quantidade de público. Como exemplo: os 6 tremendos subwoofers do Palco Giacometti, quando qualquer vil forreta se limitaria a usar uns suficientes 4! E o tamanhão do som do Palco Eira? Um imponência acústica capaz de rivalizar com a arquitectura do vizinho Convento de Cristo. [Ver galeria em baixo]

4 | Por mais que se procure não generalizar e por mais paciente que se seja, adoramos música e há um limite a quantos selfie sticks, grupinhos de “BFF” a socializar durante concertos, num tumulto de excessividade compensatória, caça-brindes, loopers humanos do riff de “Seven Nation Army”, etc, que se pode aguentar. Amámos o Bons Sons porque o público está ali pela música. Novos, velhos, muito entendidos, pouco entendidos. Regra geral, as pessoas estão a ver os artistas, a descobri-los, a aplaudi-los. Toda a gente descontraída. O silêncio feito durante o concerto de Timespine ou de Júlio Resende, os pedidos de encore genuínos a tantos concertos. É como se o Bons Sons tivesse publicado algum manual do género “Festivals For Dummies”. [Ver galeria em baixo]

5 | Se há algo revelador de massificação, de consumismo e desconsideração por músicos e pelo público que paga um bilhete porque, pasme-se, quer mesmo ver concertos, é a sobreposição de bandas. Amámos o Bons Sons porque respeita a música. As actuações espaçadas em cada palco, além do intervalo para circular entre palcos, permitem não ter que mandar moeda ao ar para escolher entre artistas. Não andar a correr de um lado para o outro. E, acima de tudo, o equilíbrio no número de bandas por dia e o horário do festival permitiu uma média à volta dos 60 minutos de concerto, que crescia à medida que se escalava o cartaz.

6 | Amámos o Bons Sons porque é pet friendly! [Ver galeria em baixo]

7 | Amámos o Bons Sons porque há tantas crianças e tantas brincadeiras! [Ver galeria em baixo]

8 | Sem concursos, sem agentes, sem cunhas. Literalmente, quaquer banda pode tocar no festival. Amámos o Bons Sons porque tem o Palco Garagem. Chamar palco ao espaço é um lirismo? É. Houve concertos memoráveis? Não. Mas o que falta ali (ainda) em qualidade, ideias, linguagem e maturidade, sobra em atitude. Um dia ou umas horas antes, preencher a ficha de inscrição e depois ir tocar… É cru, puro. É punk! [Ver galeria em baixo]

9 | Amámos o Bons Sons porque cabe lá o dia-a-dia! O trabalho, as refeições, as conversas, o ver a bola. É a aldeia a viver e nós a viver a aldeia. [Ver galeria em baixo]

10 | É verdade que a cerveja podia ser mais baratucha. Contudo, a “inflação” tem um propósito. O Bons Sons não existe para se servir de Cem Soldos, mas para desenvolver a aldeia. Para lhe dar vida. Um dos projectos actuais visa canalizar as receitas do festival para a construção de um Centro de Dia. Amámos o Bons Sons porque apanhar uma piela é ser bom cidadão!

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