ENTREVISTA | Ben Monteiro: O Novo Sangue Oculto dos GNR
Músico, produtor, compositor e professor com uma vasta lista de créditos, Ben Monteiro é reconhecido como um dos artistas mais criativos no panorama musical português. Após várias décadas a trilhar o seu percurso, Ben atravessa agora uma das fases mais proliferas da sua carreira.
Com passagem por bandas como Triplet, Os Lacraus e D’Alva e com créditos de composição e produção com nomes como Virgul, Mickael Carreira e Ana Cláudia, Ben Monteiro apresenta-se como um dos artistas mais respeitados no panorama musical português. Sem grande alarido, Ben tem vindo a percorrer o seu caminho com muita determinação, talento e, sobretudo, inovação e tem cimentado o seu nome na indústria através de uma ética de trabalho genuína e profundamente criativa.
Depois de várias décadas a palmilhar os meandros da música em Portugal, Ben recebeu em 2024 um convite para abraçar o projeto mais desafiante da sua carreira, o de entrar para a histórica banda de rock português, os GNR, como guitarrista e teclista ao vivo.
Com o intuito de saber mais sobre esta nova conquista e sobre os novos projetos que tem em mãos, a AS sentou-se à conversa com o artista nos Great Dane Studios, em Paço de Arcos, um dos seus vários espaços de trabalho.
2024 foi um ano particularmente produtivo para ti. Entraste nos GNR como touring member, produziste o EP “Postal em Branco” da Marta Lima e lançaste-te como criador de conteúdos digitais no Instagram com uma série de pequenos vídeos onde promoves um pouco de literacia musical. Sentes que este foi um dos teus melhores anos em termos de trabalho e novos projetos?
Sim. GNR não estava nos meus planos. O meu plano para o ano passado era muito diferente. D’Alva fez uma pausa, mas, entretanto já voltámos a trabalhar. Era suposto ser uma pausa grande, pois queria dedicar-me a outras coisas. O EP da Marta acabou por surgir e, apesar de serem só quatro músicas, resultou numa espécie de mentoria. Em vez de limitar-me ao trabalho de produtor e despachar as músicas, quis antes dar-lhe ferramentas para que no futuro ela também conseguisse fazer esse trabalho sozinha. Mas, a ideia para 2024 era mesmo não produzir praticamente nada. Eu só produzi o EP da Marta, porque a Joana Espadinha deu-me o toque. Queria tirar parte do ano para dedicar-me ao projeto que ainda não quero divulgar, e que tem que ver com música, mas não é bem música e anda perto destes conteúdos que ando a fazer.
Falemos agora dos GNR. Como é que surgiu o convite para te juntares à banda como guitarrista e teclista ao vivo?
Estava com a Marta em estúdio quando me ligaram. Entretanto, a minha vida deu uma volta. Não digo que tenha sido uma volta de 180º, mas posso dizer que andei com a cabeça às voltas várias vezes até voltar ao eixo. Falei com a minha banda, com o meu management e com a minha parceira, porque é uma grande mudança. Até porque eu nem estava a contar tocar nesse ano. A parte mais difícil foram os primeiros dois/três meses porque há as conversações. Depois tive entre um mês e meio a dois meses fechado no meu escritório, cancelei tudo ou adiei tudo o que tinha agendado, completamente a respirar e a comer GNR. É o tipo de oportunidade que, quando aparece, não queres desperdiçar. Então acordava e isolava-me a aprender, ensaiar e a montar as coisas. Acabei por trazer uma forma de trabalhar um bocadinho diferente. Trabalho muito com o digital. Eles são uma banda de outra era e a pessoa que eu vim substituir trabalhava de outra forma e tive quase a considerar emular o que estava a acontecer, mas, ao mesmo tempo, tive que reconhecer o quão confortável me sinto a trabalhar assim. Perguntei-lhes se estavam abertos a experimentar algo diferente e eles apenas disseram-me: «Desde que soe igual…». Não só acho que soa igual, como acho que soa melhor. Quando finalmente coloquei tudo em dedos fui ter com a banda ao Porto. Foram dois dias de ensaio. Dois e meio. Eram para ser três, mas percebemos logo que já estava lá tudo.
E como é que é ser o novo elemento de uma banda histórica?
Acho que em qualquer contexto tens que ter noção do teu lugar e de qual é o teu papel. O meu objetivo principal era levantar poucas ondas para que eles pudessem rapidamente confiar no meu trabalho, porque sempre que há um novo elemento a tendência é para haver uma certa cautela. Então decidi levar isso como ponto de partida. Nos três primeiros concertos nem me mexia. Super concentrado, chegava ao final do concerto com dores de cabeça devido à tensão acumulada. Aliás, nos primeiros seis/sete concertos ainda não estava a ser eu, mas estava a tocar tudo certinho. Depois fui ganhando memória muscular, a coisa foi toda ao sítio e comecei a soltar-me.
Em 2024 deste muitos concertos com os GNR. Qual é que foi o mais marcante?
Um dos mais marcantes para mim foi o de Vilar de Mouros, porque foi assim o primeiro concerto gigante com eles. Outro concerto que me marcou foi o primeiro que fiz com eles, que foi na passagem do dia 24 para 25 de Abril, nas comemorações dos 50 anos.
Ao vivo utilizas duas stratocasters. Uma AZ, uma guitarra de boutique construída à mão na Bélgica, e uma Fender. Fala-nos sobre a escolha destes dois modelos.
Não estava a pensar usar uma strat em GNR. Pensei em usar uma tele, mas o Toli (César Machado) já usa teles, então procurei trazer uma coisa diferente. Como estou muito habituado a tocar com a AZ decidi usá-la como guitarra principal. A Fender surgiu depois como um backup. Comprei a um amigo meu. Entretanto, já levei-a ao meu luthier, o Filipe Sousa, para fazer algumas alterações para que soe igual à AZ, pois quero que a Fender se torne na minha guitarra principal em GNR.
E o que é que usas em termos de amplificadores?
Não estou a usar amplificadores, estou a usar uma Helix. Sempre fui adepto de amplificadores e de pedaleiras gigantes até terem começado a dar problemas. Um dia houve um road manager que me disse para comprar uma Helix. Um membro da nossa banda tinha uma e pedi-lhe emprestada. Num dia em que fui tocar num concerto do Miguel Ângelo levei a Helix dele, usei o preset de um amplificador que eu tenho que é o Roland Jazz Chorus e passei-me, não só com o som, mas também com a rapidez do setup do material. No máximo em 10 minutos está tudo montado. No final do concerto, o técnico de som deles virou-se para mim e disse-me que o meu som estava incrível.
Sempre fui adepto de amplificadores e de pedaleiras gigantes até terem começado a dar problemas. Um dia houve um road manager que me disse para comprar uma Helix.
No que diz respeito aos teclados recorres a um sintetizador ou a um teclado MIDI com uma sessão a correr numa DAW?
Estou a usar o Ableton e controladores MIDI. É tudo virtual.
Além de músico, és também produtor, tendo já trabalhado com nomes como Diogo Piçarra, Joana Espadinha e Isaura. Que tipo de produtor és tu? És aquele que participa no processo criativo e de composição, como descreve o músico/investigador Virgil Moorefield na sua obra “The Producer as Composer” ou és um produtor mais ao estilo do Steve Albini, que se dedica mais à concretização de um produto sonoro com alta-fidelidade, mas sem qualquer influência no processo de composição?
Eu tornei-me produtor por necessidade. E o que é engraçado é que eu sou mais conhecido como produtor, mas tenho muito mais trabalho como compositor. Gosto muito de produzir, mas é muito aborrecido em comparação com o processo de composição.
E como é que vês o caso de sucesso do Rick Rubin, um produtor que defende que não sabe tocar qualquer instrumento e que diz não perceber nada de música?
Ainda não li o livro dele (“The Creative Act: A Way of Being”), mas em conversa com um amigo meu chegámos à conclusão de que ele é um potenciador de criatividade. Uma das coisas com as quais é mais difícil de lidar neste trabalho é com a insegurança das pessoas. Toda a gente é insegura, mas os criativos têm o dobro ou o triplo de insegurança. Os criativos têm que estar sempre a desafiar-se e a colocar-se em situações de elevada ansiedade perante um estado permanente de dúvida para com o seu trabalho. O meu papel principal, que acho que é um bocado o que o Rick Rubin também faz, é reconhecer qualidade e passar esse reconhecimento para o músico.
Neste momento estamos a assistir a várias transformações na forma como consumimos música. Desde álbuns a serem editados como NFT, como aconteceu com “When You See Yourself” (2021) dos Kings of Leon, músicas a serem criadas ou acabadas com recurso a IA como é o caso de “Now and Then” dos The Beatles, concertos com artistas em formato holograma como é o caso do espetáculo ABBA Voyage ou ainda salas imersivas como a The Sphere onde a componente visual é tão, senão até mais, importante que a música. Como é que vês todas estas transformações?
Na verdade, nós temos estado sempre a inovar. O que não pode faltar é a componente criativa e a sensação de que faz sentido criar algo de novo. Naturalmente que há gostos para tudo. Eu acho que há modas e os NFTs foram um bocadinho isso com os artistas a tentar comunicar a sua música de forma um pouco diferente. Em relação à The Sphere acho incrível, mas é óbvio que nem toda a gente vai conseguir dar um concerto nessa sala. Já sei que vão existir várias The Sphere em todo o mundo e há aquela questão de quem é que vai ser o primeiro artista a fazer uma tour só em salas The Sphere, provavelmente vão ser outra vez os U2.
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Ben Monteiro vai estar em concerto com os GNR na Culturgest em Lisboa, no dia 28 de Fevereiro. O concerto já se encontra esgotado.