Acid Mothers Temple: O Templo do Som

Acid Mothers Temple: O Templo do Som

Carlos Garcia
Inês Barrau
7
  • 10
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Os Acid Mothers Temple & The Melting Paradise U.F.O. são a última encarnação do colectivo japonês de rock psicadélico Acid Mothers Temple a materializar-se no actual plano de existência espacio temporal.

E fizeram-no, com presença e decibéis, num Musicbox apinhado para embarcar na viagem sonora que o colectivo proporciona. Herdeiro de toda uma tradição de rock progressivo e Krautrock, o guitarrista Kawabata Makoto engendrou uma máquina de criação sonora onde podemos encontrar ecos de Pink Floyd, surf rock, jazz experimental, e toda uma cornucópia sonora que pode ser mais planante ou dançável ou dissonante mas sempre disposta a penetrar nos recantos mais fundos dos canais auditivos do ouvinte. Makoto considera-se aliás um simples captador dos sons que coexistem constantemente existem ao nosso redor, um canal que converte as frequências inaudíveis em algo que nossos pouco refinados ouvidos consigam conceber: uma tarefa digna de ter sido consignada a alguém que acredita ser a reencarnação de Father Yod, guru e estrela psicadélica da era de Aquário que se estatelou numa praia havaiana no seu primeiro e único voo de asa delta.

A prestação do AMT decorre praticamente sem pausas, cada tema flui harmonicamente para o próximo mesmo quando estes são entre si de naturezas bastante distintas. A noção de que um concerto deve ser sobretudo uma viagem sonora, com picos e vales, e não uma sucessão de canções aleatórias, é um apanágio desta tradição musical, e os AMT não desapontam: estão frescos, a arrancar uma nova digressão europeia, e descarregaram a proporção correcta de energia e ambiente, melodia e ruído, seriedade e gozo de quem ao fim destes anos todos ainda gosta de brincar com a música.

No lado direito e vestido de preto (inspirado enquanto criança pela imagética de Ritchie Blackmore dos Deep Purple) Makoto ora parece desaparecer e fundir-se com as sombras do canto do palco, ora ressurge na altura certa, sacando riffs quase punk, dedilhados cromáticos ou solos épicos do genérico de um qualquer anime imaginado. Falando em animes, do lado oposto, e criando o contraste a todos os níveis, temos o novo vocalista e guitarra ritmo da banda, Jyonson Tsu. Com o seu cabelo laranja à pajem e capa de super-herói renascentista, está aqui representado o colorido idiossincrático pop do Japão contemporâneo. Se Makoto é a revisitação de Blackmore, Tsu parece ter-se teleportado directamente do cosplay de Harajuku para o Cais do Sodré. A toada pop, que de certa forma harmoniza e humaniza o lado mais cerebral das composições, vem quase sempre do seu lado do palco, seja através das suas indecifráveis vocalizações (se ele está cantar em inglês, japonês ou numa língua inventada fica ao gosto do ouvinte) ou do seu Bouzouki que quase cria a ilusão de estar uma guitarra portuguesa em palco (quiçá tenham adquirido alguma nesta estadia e esta apareça em futuros álbuns). Ao centro, na manipulação do sintetizador, está a figura impressionante de HIgashi Hiroshi, que imediatamente convoca todo e qualquer mestre de artes marciais de incontáveis filmes e séries de kung fu mal dobradas. Hiroshi ao longo do concerto parece estar a existir num universo paralelo transportando alguns dos estranhos sons que por lá se ouvem de volta à nossa dimensão. O trio da frente convoca assim toda a magia do éter para a cave do MusicBox.

O trio da frente convoca assim toda a magia do éter para a cave do MusicBox.

Mas quem aterra e ancora tanta cosmicidade é a magnifica secção rítmica lá atrás: Wolf no baixo e, principalmente, Satoshima Nani na bateria, que imprime uma toada poderosa ao longo de toda a prestação, e passa sem esforço de um registo quase metal para um beat de dança com o mesmo grau de intensidade. A vítima da execução acabou mesmo por ser o snare que foi à vida após um ataque particularmente violento. Que o acidente nem sequer leve a uma paragem é a prova que os AMT estão bem oleados, prontos para conduzir a sua maquinaria cósmica pelo continente europeu adentro.

Os AMT deram em terras lusas uma grande prestação, correspondida pela recepção do público, tendo havido até espaço para o crowdsurfing, quiçá inspirado por um certo ondular de guitarra à la Dick Dale e uma batida marcial digna do Wipe Out. É porventura a capacidade destes japoneses em ancorarem os potenciais vícios do prog rock (solos chatos e intermináveis, delírios electrónicos que poderiam estar a ser gerados aleatoriamente) com uma sólida estrutura musical e o timing de perceber o ponto certo em que a direcção do concerto deve ser inflectida, que torna os AMT uma banda relevante e vital de assistir ao vivo. O templo está aberto e ele é sincrético, não exclusivo e muito recomendado. Lá dentro captam-se os sons do universo e retransmitem-nos ao mundo.