Caía a noite em Lisboa anunciando o frio trazido pelo vento, mas no interior da Aula Magna começava-se a sentir o calor humano a preencher rapidamente os lugares, anunciando noite cheia para ver um artista bastante acarinhado pelo público português, agora numa nova fase da sua carreira.
Ben Harper toma como sua a raiz do Blues na sua forma primitiva, bruta, escura e rude, influenciada musicalmente pela presença de Charlie Musselwhite, velho ícone de Chicago, também este contemporâneo do Dark Blues como Johnny Cash, Howlin’ Wolf ou Muddy Waters.
Eis que se começa a ouvir as primeiras notas de “When I Go”, tema que também abre o recente “No Mercy in this Land”, seguido do uptempo da malha “Bad Habits”, a lançar o mote para a noite de Blues que se estava a formar na Aula Magna, recebida por forte aplauso no breve cumprimento. Ben Harper estava ali para tocar, avançando para um clássico de Charlie Musselwhite, “The Blues Overtook Me”, com o próprio a mostrar a voz e a fazer soar forte a sua harmónica, através do green bullet, mostrando toda a alma do “Memphis Charlie”, nome pelo qual ficou conhecido no final dos anos 60. Esta música lança também o primeiro improviso do segundo guitarrista, que acompanha a banda nesta tour – um blues rocker de mão cheia, com muito feeling, como mostrou durante a noite.
Segue-se “Love And Trust”, com o público a mostrar o seu charme, agarrando as palmas logo no 3º acorde – Ben Harper interrompe para elogiar, por sermos dos poucos que agarram as palmas dentro do tempo e deixa o público ainda mais rendido; apesar de se perceber que eram temas novos para a maioria, a música falou mais alto e a magia e alma do grupo agarrou por completo a Aula Magna.
Entram os temas de “Get Up!”, álbum vencedor de um Grammy. Primeiro, o tema “I Ride at Dawn”, um puro Dark Blues, em que as correntes negras se juntam ao deserto num country blues remontando ao western, que arrebata a primeira ovação de pé da noite (a que se seguiram bastantes e merecidas). Segue-se o groovie bass do tema homónimo, “Get Up!”, e “I Don´t Believe A Word you Say” completa o primeiro avanço do primeiro disco da dupla, com os temas a serem intercalados por uma série de jamms que elevaram as músicas e intensificaram a actuação.
É de assinalar a forma como um músico do calibre de Charlie Musselwhite se integra em toda a dinâmica musical deste projecto.
Seguem-se “Movin’On”, “I’m in I’m Out and I’m gone”, em pura interação com o público, para acalmar com “Nothing At All”, que vem sublinhar a soul na voz e piano do estilo bem vincado de Ben Harper. É de assinalar a forma como um músico do calibre de Charlie Musselwhite se integra em toda a dinâmica musical deste projecto. Encontramos um bom exemplo nesta música, que pauta pela suavidade de downtempo ao lado do piano e da voz, em que a forma como toca a harmónica é tão suave que chega a roçar a sonoridade de um oboé.
Segue-se um momento mais acústico e de dueto entre Ben e Charlie em “Trust You To Dig My Grave”, em perfeita comunhão com o público e em modo jam, com um Ben Harper nostálgico a relembrar a sala onde tocou pela primeira vez a solo em Portugal e – momento de interacção que aproveita para apresentar os músicos da banda: Jason Mozersky na guitarra, Jesse Ingalls no baixo e Jimmy Paxson na bateria.
Segue-se o festivo e groovie “Found The One”, a entrar numa fusão mais pop, seguido de mais um Blues ao modo de Charlie Musslewhite, “I’m Going Home”, mantendo o mood festivo do Rock’n’Roll 60’s Style.
De volta ao “Whiskey Blues” com a malha “Blood Side Out”, para suavizar quase em sussurro na “When Love is not Enough”, mostrando a ligação de Ben Harper com a audiência num quase silêncio total, respeitador da dinâmica da banda – podemos sentir na intro do guitarrista um toque tão suave, tão suave, que sentíamos o ar do som entre o Fender e o Vox a vir dos próprios amps. Um apontamento ao som, que foi gerido de forma muito natural, tirando partido do som do próprio backline da banda, como ponto de partida, dando espaço a toda a dinâmica da interpretação dos músicos.
De Telecaster em punho, Ben Harper agarra o tema que dá nome ao novo disco ao ritmo das palmas do público, “No Mercy In This Land”, viajando até aos campos na margem do Mississippi e de novo o Blues a reinar, confirmado na “The Bottle Wins Again”, culminando no “Long Legged Woman” com o andamento do “Hear me Talking” e do “Crossroads” na voz de Charlie Musslewhite.
E o concerto termina em grande num encore de 3 malhas: “Yer Blues” dos The Beatles, tirada do “White Album”, o triunfante “When The Levee Brakes” pela versão dos Led Zeppelin, e “All That Matters Now”, de “Get Up!”. Este tema da dupla brindou-nos com um final surpreendente: a música começa com um piano suave, pelas mãos do baixista, e arrebata a audiência quando Ben Harper, sem micro, se desloca à frente do palco e encarna o espírito gospel, num momento que só funciona graças ao suporte de uma banda de músicos extremos, que seguem a dinâmica até quase roçar o silêncio, algo que só muita experiência de estrada permite. Um final triunfante de um grande concerto deste projecto de uma dupla que junta duas gerações do Rock e Blues, que alia a simplicidade e voracidade da origem do Blues do ícone Charlie Musslewhite à Soul Groove eloquente de Ben Harper.
Houve Blues em Lisboa!