Blasph e Beware Jack vieram para recolher

Blasph e Beware Jack vieram para recolher

2016-03-25, Santiago Alquimista
Tiago da Bernarda
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“OPROCESSO” juntou os dois MCs tanto em estúdio como em palco, no Santiago Alquimista, em Lisboa.

O Santiago Alquimista tem servido um bom sortido de hip hop português ultimamente. Independentemente da sua escola ou estilo, a sala de espectáculos lisboeta tem apresentado uma programação mais inclusiva de um género que tem tão pouca representação cá dentro.

Mas não foi neste espírito de lamúrias que se fez a noite. Era o concerto de lançamento do álbum colaborativo de Blasph (MS represent) e Beware Jack, “OPROCESSO”, editado pela Mano A Mano. E para celebrar a ocasião devidamente, trouxeram os amigos à festa.

Para uma plateia meio cheia, Holly, produtor benjamim que tem explodido online, entrou em palco com o compincha João Tamura no microfone. Prestes a lançar um EP, os dois, que já partilharam palcos noutras ocasiões, revelaram a sua identidade conjunta. Tamura, com uma entrega mais subtil, recitava versos mais contemplativos, inseguros e amenos. Holly, exímio experimentalista nos campos do hip hop e electrónica, soube acompanhá-lo com beats mais delicados que não roubaram protagonismo. No final, chamaram ainda Harold, dos GROGNation, para uma troca de palavras mais acesa, que resultou em “Marfim”, single que junta estas três forças da nova geração.

Dir-se-ia que já estava habituado a incendiar palcos, apesar de ainda ser tão novo dentro do jogo.

De seguida entrou um cuspidor mais assertivo, TOM, uma das mais recentes contratações da Mano a Mano. Em estúdio, recita a solo. Mas neste seu concerto de apresentação ao EP, “Guarda Factos”, não veio sozinho. O rapper de Almada apresentou-se em formato MC/MC/DJ, verso troca verso, algures num espectro entre RUN D.M.C e Flatbush Zombies. Convidou também TNT, big boss da editora, que deu um breve cunho numa das suas novas faixas. Pela sua firmeza e agressividade ao vivo, dir-se-ia que já estava habituado a incendiar palcos, apesar de ainda ser tão novo dentro do jogo. Largaram consecutivamente umas batidas boom bap contagiantes que serviriam de introdução ao prato principal.

Blasph e Beware Jack entraram não muito depois. Encarregue das tracks, em vez de Kilú, que assinou a produção integral do álbum colaborativo dos dois MCs, entrou DJ Nel’Assassin, que também participa no disco. Não ficaram nada mal servidos.

Estavam mais que prontos para deitar tudo cá para fora.

Juntos, conseguem encontrar um equilíbrio entre o já referido boom bap, o G-rap tuga, rimas com um gosto a novo e um passou-bem ao hip hop dos anos 90. Influências que souberam manipular bem para construir a sua própria identidade. E a confiança que mostram em palco e com o seu público revela exactamente isso. Estavam mais que prontos para deitar tudo cá para fora. É natural. Esperaram tanto tempo para conseguir editar este álbum.

«Esperámos três anos e agora chegou a altura de recolher», disse Beware Jack assertivamente.

Mas não são rancorosos. Em vez, deram uma actuação memorável com os respectivos convidados do disco. Nerve surgiu para debitar os seus versos alcoólicos na faixa “Jorge Palma”; Sanryse, MC de escolas anteriores, deu o seu contributo em “Cidade Vigara”; e Maura Magarinhos emprestou a sua voz mais soul e R&B, propícia a hooks mais old school.

Fora do alinhamento de “OPROCESSO”, “Nuvens Cinzentas” e “Rap d1 Gajo”, pequenos hinos dentro do nicho, fortaleceram o repertório daquela noite triunfante.

Saíram do palco, sem encore, dando sinal a Sam The Kid, que ficou responsável pelos sons até ao final da noite.