Gilberto Gil fechou com chave de ouro o mês inteiro das Festas de Lisboa

Gilberto Gil fechou com chave de ouro o mês inteiro das Festas de Lisboa

2018-07-07, Jardins da Torre de Belém, Lisboa
Dewis Caldas
Dewis Caldas
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A tournée Refavela 40 anos, que celebra um período importante da carreira de Gil, juntou milhares de pessoas no Jardim da Torre de Belém num concerto familiar e emotivo.

O último dia das tradicionais festas populares de Lisboa foi também o último dia da seleção portuguesa no Mundial de Futebol. A Torre de Belém era o campo de jogo e o público começou a chegar assim que o juiz assoprou o apito final, uma hora antes do espetáculo. Neste exato momento em que escrevo, Gil está no backstage fazendo seu aquecimento para entrar em palco: se alongou, preparou as chuteiras e observou atentamente o início do concerto, onde no palco toda a banda já preparava a festa para a sua chegada, capitaneados pela Mayra Andrade, o sanfoneiro Mestrinho e um dos idealizadores do projeto, o guitarrista Bem Gil. O golo que ficou entalado no jogo de Portugal saiu forte e em coro quando Gil entrou, todo de branco, ao som de agogôs e com os braços aberto sob o Tejo. A multidão se espreitava e sacudia.  

Poucas horas antes daquele momento apoteótico, durante o jogo de Portugal x Uruguai, Gil acompanhava tudo bem perto da televisão, comentava os lances, batia palmas e ficou pensativo e calado nos dez minutos finais do jogo a espera do golo português. Após o apito final, não teve outra escolha, Gil levantou-se, sacudiu a poeira e bola para a frente. «Viva a seleção portuguesa, viva os meninos de Portugal», disse já no palco, enquanto a festa acontecia. E que festa diferente, com uma banda formada por familiares e por amigos de infância dos filhos. Quando Bem, filho de Gil, apresentava os integrantes, o que se ouvia naturalmente era, «esse é o meu amigo de infância, esta outra é minha irmã, ali do outro lado minha sobrinha…», e o patriarca Gil completou, em tom emocionado. «É bom ver as crianças crescerem, novos rostos surgirem, filhos nossos, de amigos, realmente a velhice compensa», o público gritava.

Essa questão familiar é o DNA deste projeto. Nasceu com a ideia de celebrar esta importante fase do Gil nos anos 70. Todo o disco foi tocado na íntegra, com a adição de músicas gravadas na época, como continuou Bem, ao explicar os porquês e os contextos das músicas do pai. «Este concerto tem, além de todo o Refavela (1977), muitas canções importantes deste período, e estamos aqui hoje para celebrar junto com vocês», dizia de forma calma. E como um bom pai, Gil completava sempre. «Sim, quando os meninos vieram com essa ideia eu achei que era o momento de conectar o hoje, o momento que estamos vivendo, com o que se vivia e sentia nessa época passada. E estamos aqui recriando o disco e esta fase, dando novos sentidos aos temas musicais, e puxando um pouco desses 40 anos depois do disco», Gil falava e o público delirava.

Durante o concerto percorri até o final o público inteiro. Vi pessoas chorando, outras caladas atentas aos detalhes e muita gente em grupo, vendo o concerto em família. Cheguei perto de uma senhora, de nome Lúcia, que estava com sua filha e neta. Ela ainda estava emocionada com a frase de Gil, sobre a velhice ter sua recompensa. «Vi dois concertos do Gil na vida, isso foi há mais de trinta anos, e hoje, com minha filha e neta, me sinto honrada por estar aqui e agora, poder ouvir uma das músicas que mais me acompanhou na vida, Sandra, hoje mostrei para minha neta», falava ofegante, em tom de choro. Além de “Sandra”, outros grandes temas do imaginário musical brasileiro surgiam, ”Aqui e Agora”, ”No Norte da Saudade”, ”Three Little Birds” do Bob Marley… Até acabar, em grande estilo, com ”Sítio do Pica Pau Amarelo” em grande festa no palco e na plateia. Viva o Brasil, Viva Gil. Viva o ontem e Viva o hoje!

A banda era composta pelo Bem Gil (voz e guitarra), a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade, a italiana Chiara Civello (vocalista e pianista), o vocalista e sanfoneiro Maestrinho, o baterista Domenico Lancellotti, o baixista Bruno Di Lullo, o trompetista Mateus Aleluia Filho, as cantoras Nara Gil e Ana Lomelino e a pequena Flor Gil nos coros, para além de Thomas Harres. Sem contar com as participações luxuosas da cantora Cynthia Zamorano e do tecladista que acompanhou Gil por vinte anos, Claudio Andrade.

O contexto Refavela

Gil gravou, em 1975, o primeiro disco da Trilogia Rê, chamado, “Refazenda”, e dois anos depois, após uma visita a Nigéria, deu-se de frente com muitos aspectos simbólicos da diáspora africana no contexto brasileiro. Nesta mesma época a ideia de world music estava a construír-se e toda a síncope africana estava a ganhar um novo espaço no mundo. O próprio Gil, em entrevistas sobre este período, já disse que «o Refavela se inseria num território específico que é o da música negra, num momento em que ela se tornava planetária, com as influências do jazz, da música cubana, dos sambas e dos batuques brasileiros e da música africana que chegava ao mundo, como uma tendência muito nítida, com a perspectiva da irreversibilidade».