O Primeiro Dia do Super Bock em Stock 2019

O Primeiro Dia do Super Bock em Stock 2019

2019-11-22, Avenida da Liberdade, Lisboa
António Maurício
Inês Barrau
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Em destaque, os concertos de João Tamura, Luís Severo e Convidados, Marinho, Michael Kiwanuka e Jordan Mackampa. Um concerto soul poderoso, muito indie e uma homenagem a José Mário Branco foram os grande momentos da primeira noite do Super Bock em Stock 2019.

O festival Super Bock em Stock acontece novamente na capital de Lisboa. Um dos festivais portugueses mais dinâmicos, onde precisamos de fazer escolhas e caminhar entre as 10 salas disponíveis. São imensos concertos e é necessário delinear um plano de ataque para conseguirmos ver tudo o que queremos entre os espaços da Avenida da Liberdade. Se forem aventureiros, podem ir à descoberta e entrar em todos os locais à espera de uma boa surpresa.

As ruas movimentadas de Lisboa (obrigado turismo!) estavam ainda mais preenchidas, com filas no Coliseu de Lisboa e Teatro Tivoli e no São Jorge (alguma confusão gerada no concerto de Nilüfer Yanya, com dezenas a ficarem à porta). Os festivaleiros, geralmente de copo na mão, discutiam para onde caminhavam, quem queriam ver ou quem acabaram de ver. Lisboa estava mais bonita.

JOÃO TAMURA

O primeiro dia do festival contou com portugueses na linha da frente. Espreitámos o concerto João Tamura, no Bloco Moche (Capitólio). O rapper, poeta e fotógrafo fez-se acompanhar por um guitarrista, baixista e DJ para apresentar faixas de hip-hop que se focam nas letras. A lírica de João é densa, séria e faz-nos reflectir. Baralha palavras e conta histórias da vida. Histórias pessoais. Mas apesar do estarmos atentos ao que tem para contar, o trabalho instrumental por trás também nos capta a atenção. As cordas tocadas aos vivo por Vasco Completo e Miguel Ropio são ponderadas e focadas no sentimento, complementando a sonoridade do rapper. Não vamos ver dança, saltos ou grandes animações num concerto de João Tamura, mas também não estamos lá para isso. Escutamos com atenção as palavras e reflectimos sobre o seu significado. Tentamos perceber o esquema de rima ou os jogos de palavras.

LUÍS SEVERO & CONVIDADOS

Já no Teatro Tivoli, prosseguimos o caminho da música portuguesa com Luís Severo. O músico trabalha a solo, mas este concerto seria diferente porque foram anunciados convidados especiais para o acompanhar em palco. Antes disso, tocou três músicas no seu registo habitual, sozinho e com uma guitarra, evocando sonoridades simples. Abriu com “Planície (Tudo igual)”, talvez a sua faixa mais conhecida, como quem diz «quem queria ouvir esta já se pode ir embora». Mas o concerto certamente convenceu um Tivoli, que ficava cada vez mais apinhado com o passar do tempo. Ao vivo, as canções tem o calor das versões acústicas, com mais emoção e mudanças na voz em comparação com as versões de álbum. A segunda faixa apresentada, “Joãozinho”, revelou uma guitarra mais extrovertida, mas nunca abandonou o estilo de cantiga serena. Um estilo que não dá espaço nenhum para erros, porque se forem dados vamos, certamente, reparar e apontar o dedo. Afinal, só há uma pessoa em palco e é fácil estar atento a todos os pormenores. Depois de “Amor e Verdade”, chegou o momento dos convidados especiais: um contrabaixo, um violoncelo e uma harpa.

Apesar da entrada destes três instrumentos, a primeira faixa com esta nova configuração foi ainda mais minimalista. “Rapaz” foi apresentada sobre notas com uma largo intervalo de tempo por parte do contrabaixo. Quase como uma declamação livre. Só então surgiram plenamente os referidos três instrumentos. “Acácia”, “Maio” ou “Meu Amor” foram tocados com uma maior força instrumental onde a harpa criava notas que potenciavam a melodia, o violoncelo adicionava caráter e o contrabaixo marcas o ritmo com sons graves. Funcionou bem e foi uma boa mudança de paradigma na presença normalmente solitária de Luís. Antes de terminar, tocou mais três canções sem apoio, a última com enorme importância. Uma homenagem à vida de José Mário Branco. Severo expressou a sua admiração pelo músico, como o influenciou e como gostava da forma como fazia composições e decidiu apresentar a sua própria versão de “As Canseiras desta Vida”.

 

MARINHO

Agora seguimos em direcção ao Máxime, para ver Marinho, mais música portuguesa. A sala é mais pequena, mais íntima, mais quente. Marinho, com o seu álbum de estreia recém-lançado, entra a meio de uma onda de sintetizadores que seguram notas durante longos segundos antes de se transformarem, mas após esta apresentação mais tensa, dispara a sua guitarra acústica e uma sonoridade mais mexida, mais surf rock em “I Give Up and It’s OK”. O ambiente calmo do indie rock/pop é a grande base da música de Marinho, não se restringe a este campo, mas caminha-o enquanto para suavemente chegar a outros género. Em “Ghost Notes” mantém a tranquilidade, sempre acompanhada pelo guitarrista, baixista e bateria que nunca ficam esquecidos no background e em “Freckles” deu-nos uma visão enternecedora da velhice. Tivemos direito a uma versão pessoal de “In Spite of All The Damage”, cover de The Be Good Tanyas. Foi bem executada, transportando a intimidade e mensagem romântica da música para a sala em Lisboa. Também não fugiu da linha do concerto, já que o estilo é semelhante ao de Marinho. As interacções com o público foram divertidas, orgânicas e variadas, criando um clima de amizade e descontracção que nem sempre é fácil – talvez a intimidade da sala tenha ajudado, mas preferimos dar o crédito a Marinho.

MICHAEL KIWANUKA

Entramos pela primeira vez (no festival!) dentro do Coliseu de Lisboa, para ver Michael Kiwanuka. Não vale a pena estar com muitos rodeios, foi o grande concerto da noite. Kiwanuka e a sua banda apresentaram um poder tremendo em palco, preenchendo todos os requisitos necessários para uma excelente performance em festival. Diversidade nas músicas apresentadas, instrumentais longos que evoluíam epicamente (“Rule The World” foi fantástica!), vozes únicas que se destacavam em momentos chave e refrões cativantes. A entrada com “One More Night” e “You Ain’t The Problem” rapidamente captou a atenção de todos os presentes que certamente esperavam um bom concerto, mas não esperavam esta enorme presença em palco que misturava soul e jazz com elementos mais modernos, como a distorção e sintetização (o teclista estava rodeado por quatro teclados). Muitas variações sonoras e improvisações.

O som do Coliseu também ajudou imenso, com o equilíbrio da mistura assinalável e parâmetros aos quais estamos (felizmente) habituados nesta sala.Além do som, as letras são inteligentes, conscientes, calorosas e sociais. Em “Tell Me A Tale”, Michael chegou-se à frente com uma música sem grandes modernices, seguindo um caminho mais clássico, mas igualmente impressionante. A sua voz é realmente única e consegue equilibrá-la entre a potência sonora da sua banda e a simplicidade da guitarra acústica que carrega consigo. Repita-se, foi o grande espectáculo da noite.

 

JORDAN MACKAMPA

Regressamos ao Teatro Tivoli para ver o último concerto da sala, Jordan Mackampa. Sejamos sinceros, depois do estrondo de Michael Kiwanuka, a performance de Jordan não foi a mais convincente. Apresenta-se sozinho em palco, com duas guitarras eléctricas e um amplificador e também partilha a paixão pelo soul, mas balança mais para o panorama indie pop/folk pop. É um artista bem mais calmo e reservado, sem grandes aventuras na sonoridade. «Existe muito ódio no mundo…», diz antes de tocar “What Am I”. É bonita, radio-friendly, e não se pode dizer que foi mal trabalhada, mas simplesmente não conseguíamos esquecer a performance anterior. Talvez a culpa seja nossa… A sua gentileza e sensibilidade foi bem representada em “Yours To Keep”, com variações vocais e um instrumental igualmente bonito e a sua performance acústica também incluiu “Midnight”, outra faixa romântica com falsetes. Jordan é um pouco uni-dimensional, não arriscando mexer na sua fórmula: música indie, calma e plena com ideias positivas.