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Trivium em Portugal, Uma Epopeia Sem Fim À Vista

Trivium em Portugal, Uma Epopeia Sem Fim À Vista

02/26/2025, Campo Pequeno, Lisboa
Rodrigo Baptista
Inês Barrau
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Com um estatuto de quase heróis nacionais, os Trivium regressaram a Portugal para duas celebrações: os 20 anos de “Ascendancy” e a sua improvável amizade, e parceria musical, com o cantor português Toy. Dos circle pits ao bailarico, a noite foi de festa, mas também de muitas emoções.

Quando os Trivium gravaram “Ascendancy”, o seu segundo álbum de estúdio, Matt Heafy era ainda um adolescente. Tinha 19 anos para sermos mais precisos. O feito é ainda mais impressionante, se tivermos em conta que Heafy é praticamente um autodidata sem qualquer tipo formação musical no âmbito da teoria. Jovem prodígio ou não, Matt conseguiu trazer para o álbum um estilo de composição refinado repleto de riffs possantes, solos intrincados, alguns em harmonia com Corey Beaulieu, e uma performance vocal robusta que lhe valeu o reconhecimento e respeito por parte dos seus pares, particularmente dentro da Roadrunner Records, a editora dos Trivium, que o convidou prontamente para ser um dos quatro capitães do projeto Roadrunner United ao lado de nomes já consagrados como Robb Flynn, Dino Cazares e Joey Jordison.

Com temáticas bastante atuais que vão desde a tirania ao interesse pela tragédia, passando pela violência doméstica e abuso de crianças, “Ascendancy” trouxe também ao de cima a maturidade lírica de Heafy. Passados vinte anos, “Ascendancy” é incontestavelmente reconhecido como um marco do metalcore ao lado de álbuns como “The Poison” (2005) dos Bullet For My Valentine, “Wacking The Fallen” (2003) dos Avenged Sevenfold e “As Daylight Dies” (2006) dos Killswitch Engage.

Com uma trajetória bastante semelhante, a ideia de fazer uma tour conjunta de Trivium e Bullet For My Valentine (review emm breve) surgiu naturalmente. No entanto, foi ficando sempre a pairar no ar. Mais recentemente, num episódio do podcast “Drinks With Johnny” de Johnny Christ, baixista dos Avenged Sevenfold, Matt Heafy participou numa discussão sobre quais seriam os novos big 4. Ambos chegaram à conclusão que tanto os Avenged Sevenfold como os Trivium e os Bullet For My Valentine teriam que constar nessa equação, com uma quarta banda ainda por definir. A ideia de juntar estas bandas e ir para a estrada parecia assim intensificar-se até que os astros se alinharam em 2025, pelo menos para os Trivium e os Bullet, visto que neste momento os Avenged Sevenfold estão focados na promoção do seu novo álbum “Life Is But A Dream” (2023).

Anunciados os primeiros concertos no Reino Unido da The Poisoned Ascendancy Tour, todos sabíamos que era uma questão de tempo até surgirem as primeiras datas na Europa e consequentemente o regresso das duas bandas a Portugal.

Com um estatuto muito semelhante, a tour está organizada num formato co-headliner, o que significa que as duas bandas alternam entre si quem toca primeiro e quem toca em último. Se por um feliz acaso na ordem dos concertos ou se em jeito de pedido especial dos Trivium, em Portugal foram os Bullet que subiram ao palco em primeiro lugar, cabendo assim à banda de Matt Heafy o encerramento da noite. Verdade seja dita, não poderia ser mesmo de outra forma.

Contrariando a produção dos Bullet, os Trivium apoiaram a sua produção cenográfica num pano gigante com uma artwork alusiva à capa de “Ascendancy” e num insuflável gigante, bem ao estilo de Eddie dos Iron Maiden, do monstro que surge na capa do álbum que está a ser celebrado.

Já com a intro “The End of Everything” a rodar no PA, não tardou para que o caos se instalasse com essa bojarda que é “Rain”. Rapidamente o público começou a praticar a dança da chuva na forma de circle pits que se estenderam perpetuamente até ao final do concerto. À semelhança de “Tears Don’t Fall”, no set dos Bullet For My Valentine, também “Pull Harder on the Strings of Your Martyr”, o maior hino de “Ascendancy”, surgiu precocemente no alinhamento como já se previa, principalmente para quem conhece o alinhamento do álbum de trás para a frente. Berrado e cantado a plenos pulmões, é uma música que, independentemente do seu posicionamento na setlist, será sempre das mais celebradas. Já temas como “Drowned and Torn Asunder”, “Ascendancy” e “A Gunshot to the Head of Trepidation” iluminaram a proficiência técnica de Alex Bent na bateria, algo que nos fez esquecer por instantes Travis Smith, o baterista original dos Trivium que gravou em “Ascendancy” algumas das partes mais desafiantes de toda a discografia da banda.

Há muito que o metalcore deixou de ser o parente pobre do metal e esta “The Poisoned Ascendancy Tour” foi uma prova gigante de que este é, muito provavelmente, o subgénero que mais cartas tem dado na contemporaneidade.

Mas, desde 2019 que todos concertos de Trivium em Portugal tornaram-se numa atração com contornos populares. Isto porque, foi nesse ano que a banda partilhou o palco pela primeira vez com o músico português Toy, fruto de uma brincadeira que surgiu nas live streams que Matt Heafy costuma fazer na Twitch. Desde então, os Trivium fortificaram a sua relação com Portugal e com a nossa cultura, transformando cada passagem por cá num acontecimento ímpar. Como já nos tinha sido adiantado na entrevista que fizemos a Corey Beaulieu, Toy foi novamente convocado para subir ao palco com os Trivium. Como a banda não está a tocar nenhum tema dos outros álbuns além de “In Waves”, tiveram que deixar de fora do alinhamento “Until The World Goes Cold”, tema que Toy cantou com os Trivium em 2019. Desta forma, a solução passou por recrutá-lo para cantar a power ballad “Dying In Your Arms”. Mal Toy subiu ao palco do Campo Pequeno, o público entrou rapidamente em polvorosa. «Está prometido que na próxima vez que vierem cá vão ter nacionalidade portuguesa!», soltou o cantor com um ar muito sério. Passada com distinção a performance de “Dying In Your Arms” foi a vez de partir para a versão metal de “Coração Não Tem Idade”, tema que os metaleiros estão fartos de ouvir nos arraias de primavera/verão e que foi entoado do princípio ao fim. Ainda houve tempo para uma pequena gracinha, a primeira canção “original” dos Toyvium, que podes ouvir no vídeo em baixo.

Depois deste momento caricato, à falta de melhor expressão para o definir, estava na altura de regressar à agressividade de “Ascendancy”, com as frenéticas “The Deceived” e “Suffocating Sight”. Os ânimos acalmaram por momentos com “Departure”, tema em que Matt recorreu a uma guitarra acústica. Em mais um momento de aproximação para com os portugueses fez questão de referir que “Ascendancy” tem uma certa melancolia associada, tal como o fado, demonstrando assim uma certa aproximação entre dois géneros que se encontram nos antípodas.

“Declaration” decretou que estávamos prestes a chegar ao fim. O intervalo para o encore, quase inexistente, apenas serviu para colocar a tocar no PA “Capsizing the Sea”, a intro que todos os fãs reconhecem como presságio de “In Waves”, o único tema que fugiu ao alinhamento de “Ascendancy”. Já com Toy de volta ao palco, a banda debruçou-se numa longa despedida motivada por um carinho que, certamente, não encontram em qualquer outra parte do mundo.

Para os muitos elitistas do heavy metal este concerto foi sem dúvida uma chapada de luva branca. Há muito que o metalcore deixou de ser o parente pobre do metal e esta “The Poisoned Ascendancy Tour” foi uma prova gigante de que este é, muito provavelmente, o subgénero que mais cartas tem dado na contemporaneidade.

SETLIST

  • Rain
  • Pull Harder on the Strings of Your Martyr
  • Drowned and Torn Asunder
  • Ascendancy
  • A Gunshot to the Head of Trepidation
  • Like Light to the Flies
  • Dying in Your Arms (Com Toy)
  • Coração não tem idade (Vou beijar) (Com Toy)
  • The Deceived
  • Suffocating Sight
  • Departure
  • Declaration
  • In Waves