Professor Satchafunkilus and the Musterion of Rock

Professor Satchafunkilus and the Musterion of Rock

Redacção

Com o regresso de Joe Satriani aos palcos portugueses no próximo dia 18 de julho através do Festival Super Bock Super Bock, vale a pena recordar a entrevista que deu à Arte Sonora há cerca de 6 anos, depois de visitar o país para dois grandes concertos em Lisboa e no Porto.

A entrevista realizou-se no dia 30 de Abril de 2008, no hotel onde o mestre estava hospedado. O tempo dispensado para entrevistas foi escasso (apenas 15 minutos por órgão de comunicação social), mas tentámos recolher o máximo de informação possível junto do guitarrista que, além de ser acessível e ter respondido às questões colocadas, demonstrou contentamento por ser entrevistado por uma revista técnica.

A maneira como tocavas quando foi gravado o “Not Of This Earth” e a maneira como sentias a música nessa altura mudou em relação ao “Professor Satchafunkilus and the Musterion of Rock”?
Tecnicamente, naquele primeiro álbum, era como um miúdo num estúdio de gravação, a tentar descobrir o que era possível fazer. Foi há muito tempo, há cerca de 22 anos. O que pensávamos, naquela altura, ser possível fazer para se gravar um álbum a solo é muito diferente do que pensamos hoje. Não tínhamos muito dinheiro e as poucas pessoas que tínhamos disponíveis para realizar a gravação do primeiro disco tinham de ser bem aproveitadas. Logo, foram tomadas muitas decisões técnicas apenas baseadas no orçamento disponível, pois não podíamos passar muitas semanas com uma banda em estúdio.

Foram usadas caixas de ritmos porque eram a única coisa para a qual o orçamento chegava… Não tínhamos muita fita disponível para takes alternativos, com caixas de ritmos só precisamos de um take [risos]. Nesta altura estávamos a gravar em fita de 2” e só tínhamos duas bobines. Estávamos a lidar com um orçamento de 5000 dólares. Já nessa altura era muito difícil esticar esse orçamento. E sentia-mo-nos sortudos por estarmos em estúdio, então tínhamos a tendência para gravar músicas com uma grande variedade de sons, e isso teve a ver com o facto de ser muito estranho nos encontrarmos dentro dum estúdio, pois isso não significava que se passasse alguma coisa… Não havia aqui carreira nenhuma, nós não tínhamos sucesso e não tínhamos expectativas de sucesso.

Por isso é que fizemos o que queríamos e o álbum saiu a soar tão estranho. Nas gravações fizemos coisas erradas de propósito, porque simplesmente sentimos uma espécie de liberdade ao sermos ignorados. Por outras palavras, se estiveres a fazer um disco e souberes que ninguém o vai passar na rádio, não tens que o fazer “radio friendly”. É como um cantor quando está a escrever letras e sabe que ninguém o vai ouvir… pode fazer e dizer o que quiser [risos]. Era mais ou menos isto que sentíamos, por isso é que fizemos as coisas de maneira tão estranha, só porque percebemos que o podíamos fazer. Agora ninguém nos deixaria fazer.

A tendência está a ser tocar menos e gravar mais…
É precisamente isso que tento explicar quando falo em disciplina. O Pro Tools não nos ajuda a tocar mais ou menos, ou até mesmo melhor. É simplesmente um programa, apenas isso. Portanto, é o factor humano que é importante. As pessoas são simplesmente humanas, preferem não fazer nada a a ter que fazer alguma coisa. E temos sempre que lutar contra isso, quer estejamos a trabalhar com fita ou com o Pro Tools. Tenho que ter a guitarra sempre ligada, e não desligá-la, arrumá-la e ficar ali a olhar para o nada. Estou sempre a lembrar-me que aquilo é apenas uma meio de gravação e é apenas para isso que serve.

O Pro Tools não nos ajuda a tocar mais ou menos.

Um guitarrista que compre o “Satchurator” consegue ficar perto do teu som?
Sem dúvida que fica, pois é o meu som de assinatura. Vendo as coisas da minha perspectiva, a coisa torna-se muito simples. Cada vez mais viajamos pelo mundo inteiro em tour e os custos são astronómicos. Por exemplo, não trouxe os meus amplificadores, os Peavey JSX. Mas quando cá cheguei já tinha uns iguais (cedidos pela marca) aos que tenho em casa, que são exactamente os que se podem comprar nas lojas. Dependo do som do amplificador que ajudei a criar, mas é o som que as pessoas podem encontrar indo à loja comprar. O mesmo vai acontecer ao Satchurator. E, claro, o mesmo se passa com o meu modelo de guitarras, pickups, etc. Basta-me ir a uma loja e alugar o equipamento ou comprar e o som vai ser o mesmo!

Quais são as diferenças do teu rig ao vivo e em estúdio?
A grande diferença é que num rig de estúdio só usas, ou melhor, só ligas o que vais usar para gravar. Isto porque, sempre que ligas mais alguma coisa, o som vai-se alterando pelo caminho… E começas a pensar: se estou a gravar, porque é que vou necessitar de toda aquela degradação do som e ruído? Se estou a tocar uma música em que só uso distorção, porque é que hei-de ter os pedais wah-wah ou o de delay ligados? Muitas das minhas gravações são feitas apenas com a guitarra ligada ao amplificador… Se mais tarde decidires que queres adicionar ali um efeito, é muito melhor adicioná-lo do que usar plug-ins e ter todos os equipamentos desnecessários ligados para adicionarem ruídos. Mas claro que, ao vivo, as coisas funcionam de maneira diferente. Tocamos música atrás de música e toco cerca de 5 a 6 partes de guitarra completamente diferentes com setups completamente diferentes, e temos de ter uma perfomance muito convincente, e ter muitos pedais… Há quem goste de usar racks cheias de equipamentos e ter mais pedais ainda, o espectáculo é tão diferente… Nós fazemos de tudo para que o espectáculo seja convincente e sem falhas.

Quando é que as tuas guitarras começam a ser equipadas de fábrica com o teu pickup de assinatura?
Isso é algo entre a Ibanez e a DiMarzio, mas se fores ao site da DiMarzio já podes comprar os PAF Joe, PAF Fred e o Moe Joe. Encorajo as pessoas a mudarem de pickups mais vezes do que a darem espectáculos. É uma maneira importante e fácil de as pessoas verem que a guitarra eléctrica é um instrumento mais versátil e flexível do que o que se pensa. Deve mudar-se os pickups sempre que se possa, pois é uma maneira mais barata de se ter um bom som de guitarra. Quanto à Ibanez, não sei quando é que o Moe Joe virá montado, pois eles nem sempre montam os pickups novos de origem.

Por Hugo Guerreiro