Billy Duffy, o Falcão Branco

Billy Duffy, o Falcão Branco

Nero

Os The Cult são uma banda de “culto”. Muito desse estatuto é mérito de um guitarrista com uma sonoridade única, com um sentido estético bastante desenvolvido.

A personalidade dos The Cult faz parte do manual do rock, grande frontman e um grande guitarrista solo. Longe dos tempos que motivavam mais conflitos de ego entre ambos o que, necessariamente, se reflectia na produtividade da banda, os Cult passam por fase de grande fulgor. Aproveitando o mote dado por nova música e um novo álbum, prestes a ser editado, Billy Duffy fala-nos sobre o seu som de guitarra. Esta é uma entrevista parcial, a versão integral pode ser lida na Arte Sonora #26.

És bastante zeloso do teu som de guitarra. Que rig estás a usar?
Ao vivo, basicamente, uso um BadCat misturado com um Matchless – ambos são combos. Uso também um Marshall JCM800 para algumas coisas e ainda uso um Roland JC120. Ocasionalmente, uso outra coisa, como aconteceu enquanto trabalhámos com o Chris Goss e que gravei muita coisa através de um Supro – ele tem uma colecção de Supros, dos anos 50 –, alguns solos e outros apontamentos, para conseguir dar um som realmente distinto à guitarra. Mas nada do outro mundo, o Supro foi o único amp mais exótico que usei. Quanto a micros para captar não tenho qualquer input – apenas decido se gosto do som de guitarra ou não – esse é o tipo de coisas que deixo totalmente nas mãos de tipos como o Chris Goss ou o Bob Rock, os engenheiros, cada um tem as suas técnicas.

E nos takes usas o backline todo ligado ou gravas um amp de cada vez?
Normalmente separo o JC120 e o Matchless – para sons mais limpos – ou então o Marshall com o Matchless também, para o tipo de sons contrário. Raramente tenho todos activos, como acontece ao vivo. A única vez que captei o rig como uso ao vivo foi para corrigir um enorme erro de guitarra que dei num dos concertos que estão em DVD (o “Live Cult – Music Without Fear”), então montámos o rig e fiz um take para substituir a gravação original.

Ao vivo andas com todo o teu backline?
Já raramente faço isso. É tudo alugado. Fica muito caro enviar os amps dos USA para a Europa, então contento-me com os pedais e com as guitarras. Na verdade não precisas mesmo do teu material. Tudo bem, permite mais consistência. Mas, actualmente, é fácil ter um bom Marshall ou o JC120 e muitas vezes acabo por tocar com um Vox AC30, para me dar o som que tenho com o Matchless, embora tenha um pouco mais de treble serve bastante bem.

No “Sonic Temple” e no “Ceremony” usava um sistema de rack, com alguns delays Korg – uma recomendação do Bob Rock, soavam muito bem usados pelo John Sykes.

"Hidden City" é o novo álbum dos Cult. Chega dia 16 de Fevereiro de 2016.

“Hidden City” é o novo álbum dos Cult. Chega dia 16 de Fevereiro de 2016.

Posso deduzir que não és grande adepto das emulações?
Não, de todo. Preciso de estar a pisar qualquer coisa. A Line6 foi muito simpática comigo e deu-me aquele delay verde, o DL. Soa bastante bem, tenho experimentado muito em casa, mas não tenho a certeza se já estou pronto para usar isso em palco. Na verdade prefiro as coisas da Boss, funcionam muito bem. Já uso os delays da Boss desde 1983! No “Sonic Temple” e no “Ceremony” usava um sistema de rack, com alguns delays Korg – uma recomendação do Bob Rock, soavam muito bem usados pelo John Sykes. Nos últimos 5 ou 6 anos voltei a usar os pedais no chão e, simplesmente, prefiro o som. Tenho uma rack, mas não a uso. Como está a indústria actualmente, fazemos alguns flying gigs, coisas pontuais. E preciso de ter um rig simples e funcional que tenha um bom som. E ter a rack, ter que estar sempre a ajustar montes de efeitos… Para os Rolling Stones ou os U2 isso é ajustável, mas para uma banda normal não é muito prático.

E em estúdio usas logo o processamento ou apenas acrescentas os efeitos na mistura?
Isso depende da situação. Na maior parte das captações não uso muitos efeitos, se é que uso alguns. Já não usamos fita, portanto isso já nem importa muito. Gravo com o sinal seco, a receber algum reverb ou delay, e ajusto depois. Mas, a gravar alguns overdubs ou solos, gosto de gravar o som logo com os efeitos – porque soa diferente se estiveres a fazer algo pouco usual. Aí comprometo-me logo com o processamento, não gosto de mexer depois.

Os pedais podem influenciar-te, contudo o meu som está muito definido.

Acaba por ser o próprio pedal de efeito a fazer-te direcionar para certa estética?
Os pedais podem influenciar-te, contudo o meu som está muito definido. Mas a procurar algo invulgar ou especial para que o álbum soe de modo diferente… Acabas também por adivinhar, e isso é o bom de trabalhar com produtores que são também guitarristas e calculam «não seria engraçado usar este pedal através daquele amp, como irá soar»? É uma das partes mais divertidas ao gravar um disco. A experimentação.

Praticamente desde que começou a sua carreira nos The Cult que Billy Duffy usa o modelo White Falcon da Gretsch. Tem várias delas, inclusive algumas vintage dos anos 70, mas usa mais vezes a G7593 – embora, o guitarrista remova, normalmente, o pickguard dourado [que vemos na imagem] de modo a não ter tanta reflexão e assim um som tão treble na guitarra.

Praticamente desde que começou a sua carreira nos The Cult que Billy Duffy usa o modelo White Falcon da Gretsch. Tem várias delas, inclusive algumas vintage dos anos 70, mas usa mais vezes a G7593 – embora, o guitarrista remova, normalmente, o pickguard dourado [que vemos na imagem] de modo a não ter tanta reflexão e assim um som tão treble na guitarra.

A experimentação nesses detalhes, por vezes, pode surgir acidentalmente – aí admites o uso de samples ao vivo, para reproduzir determinados detalhes?
Nas tours do “Sonic Temple” e “Ceremony” tínhamos um teclista que disparava alguns samples de guitarra para reforçar a estrutura rítmica da banda. Mas, exceptuando essas duas digressões procurámos sempre ser orgânicos. Eu próprio nunca usei samples, não consigo concentrar-me nisso. Sou um guitarrista muito de feeling. Contudo, é engraçado que o menciones, pois actualmente quando gravas com o Pro Tools a dinâmica dos temas pode mudar bastante e, por vezes, acabo a ter que reaprender as canções. Por exemplo, gravamos com um tipo de arranjos e depois esses arranjos mudam na edição, do que acabam por tornar-se as estruturas finais, e tenho que ir aprender todos os detalhes para torná-los coesos para os tocar ao vivo. De facto, antes de ligares, estava a fazer isso com a canção “Elemental Light” [risos], estava a aprender todas as partes diferentes que gravei para as conjugar num bloco a ser tocado ao vivo.

Referias o “Ceremony”, esse álbum é “a cena”. O som de guitarra aí é qualquer coisa!
A sério? É engraçado, é capaz de ser o álbum que menos gosto. Talvez devido a motivos pessoais entre mim e o Ian. Realmente gosto muito dos sons que consegui no “Ceremony”. Não gosto do álbum como um todo, as coisas entre mim e o Ian, não gosto de algumas das suas letras, não gostei de alguns dos meus riffs e das canções, com algumas excepções… A “Wild Hearted Son”, a “White” ou a “Wonderland”, são boas. Mas som de guitarra, o álbum sonicamente, é fantástico! Ainda me faz ter mais pena que as canções não tenham sido tudo o que podiam ser.

Foto: gretschguitars.com