Black Bombaim U Peter Brötzmann

Black Bombaim U Peter Brötzmann

2016-02-26, Garagem Culturgest
Bernardo Carreiras
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A garagem da Culturgest recebeu um improvável encontro entre os portugueses Black Bombaim e o titã do free jazz Peter Brötzmann, que se uniu à banda para nos proporcionar um concerto único.

A chuva que se fazia sentir na passada sexta feira não impediu que, à bilheteira da Culturgest, se reunissem esperançosos em busca do último bilhete para um espectáculo que acabaria por esgotar. Tratava-se de mais uma noite do Festival Rescaldo, cuja 9ª edição passa pela Garagem da Culturgest e Galeria Zé dos Bois para nos oferecer espectáculos dos projectos mais promissores do panorama nacional.

Com um palco improvisado montado na garagem do edifício, coube aos Papaya abrir a noite. O supergrupo formado por Óscar Silva (mais conhecido por ser o senhor por detrás de Jibóia), Ricardo Martins, baterista que dispensa apresentações, e Bráulio Amado, dos Adorno, trouxe a esta sala o seu estilo muito próprio. O conjunto, que já conta com três trabalhos (refira-se “UM”, “DOIS” e “TRÊS”), aqueceu a noite no seu pós-punk recheado de cromatismos saídos da guitarra exótica de Óscar. O universo musical muito específico alia-se à brutalidade e técnica de bateria de Ricardo Martins, que continua a não deixar ninguém indiferente. Na bagagem trouxeram o recém lançado “Dois/II”, com canções hiperactivas como são “Bad Connections” ou “Hearts/Rats”. Depois do energético concerto dos Papaya e de uma breve pausa, chegava hora dos Black Bombaim subirem ao palco.

Os solos explosivos de saxofone, aliados ao rock experimental dos Black Bombaim, geraram uma atmosfera psicadélica de cortar a respiração.

As palavras não chegam para descrever o espectáculo especial que a banda natural de Barcelos nos proporcionou. O convidado Peter Brötzmann, que acompanhou a banda durante o concerto inteiro, não precisou mais do que uma introdução a solo para render o público, que percebeu o porquê deste senhor ser considerado uma lenda do free jazz. A imponente figura do mestre alemão, com a sua barba e cabelo grisalho, destacou-se enquanto comandava, como que um maestro, os caminhos que a banda percorria. Os solos explosivos de saxofone, aliados ao rock experimental dos Black Bombaim, geraram uma atmosfera psicadélica de cortar a respiração. A colaboração, que ao início parecia improvável, deu lugar a um concerto único, que não deixou ninguém indiferente.

Este espectáculo resultou numa verdadeira viagem por um mundo sensorial criado pelo trio, com o incontornável titã do saxofone a rebentar em improvisos a cada música. Os Black Bombaim provaram uma vez mais o porquê de ser uma aclamada banda dentro do género psicadélico, capaz de se reinventar a cada concerto. O espaço que abrem para as mais variadas colaborações, relembre-se que já tocaram, por exemplo, com Adolfo Luxúria Canibal ou Steve Mackay, tornam ainda mais corpóreo o som do conjunto que lançou “Far Out” já em 2014, abrindo as expectativas de um novo disco.

Quem sabe se Peter não emprestará o seu saxofone num tema ou outro?

Fotos da autoria de Daniela Lapa. Foram captadas durante o concerto que decorreu no Porto.