É complicado conceber qualquer motivo pelo qual, face a um concerto como o dado na Altice Arena na semana passada, alguém se possa sentir traído por Dylan.
Nota: Não foi dada autorização para captar imagens do concerto.
Uma boa quantidade de fábulas (grande parte delas menos positivas) têm vindo a ser criadas em torno das performances ao vivo da figura incontornável que é Bob Dylan. Abundam na rede as descrições dos deploráveis espetáculos de Dylan do lado de cá da viragem do século, os depoimentos da sua voz para lá de irremediável e do modo como é incapaz de fazer jus ao material que o imortalizou na história da música – de tal forma que alguém que nunca tenha tido o privilégio de o testemunhar ao vivo, não resistiria a reduzir drasticamente as expectativas: uma coisa, e já vale por muito, é ver Bob Dylan em concerto, outra bem diferente é esperar de lá sair em êxtase.
Tratando-se de quem se trata, é um ponto de partida contra-intuitivo, antitético à carreira que o cantautor vem construindo há mais de meio século e cuja perseverança só pode ser explicada, presumimos, pela cada vez maior dificuldade em apanhá-lo em espetáculo. É complicado conceber qualquer outro motivo pelo qual, face a um concerto como o dado na Altice Arena na semana passada, alguém se possa sentir traído por Dylan. E não se trata apenas do argumento de que “a idade chega a todos” – ainda que esse seja um factor a ter manifestamente em conta – até porque, face a alguma pesquisa, não havia nenhum motivo para se esperar algo de diferente daquilo que se testemunhou no Parque das Nações: uma pequena retrospectiva dos mais memoráveis momentos da discografia secundária de Dylan, o inevitável apelo à sua época de ouro que se fez voz de uma geração, e uma “para-lá-de-saudável” fixação por Sinatra, a era do big band e o cancioneiro do Great American Songbook, o mesmo enamoramento que se tem feito sentir nas últimas léguas do seu percurso musical.
Dylan esteve igual a si próprio, através de música que sempre encantou mais pela autoria que pela performance, com uma base instrumental sempre tão simples quanto eficaz
É certo que estas componentes poder-se-iam ter apresentado em diferentes (e mais nostálgicas) proporções, o que certamente pesou na apreciação geral do concerto, mas que não se diga que Bob Dylan surpreendeu pela falta de êxitos no alinhamento. Parece-nos igualmente injustificado apontar a falta de vitalidade ou o desgaste da sua voz como motivo de fracasso, pelo simples facto de Dylan não ter feito mais do que se manter fiel a si próprio: à música que sempre encantou mais pela autoria do que pela performance, à base instrumental tão singela quanto eficaz e aos malabarismos vocais caracteristicamente desengonçados que, tocando em todas as notas erradas, chegaram a todos os lugares certos.
Se o tempo erodiu essa técnica ou embruteceu essa entrega, mais mérito se lhe dirija pela sinceridade com que a exibiu em Lisboa. E não é como se a idade não tivesse contribuído para exacerbar, nesta faceta quase-octogenária do cantautor, algumas virtudes que hesitaríamos em atribuir-lhe por regra: o charme, por exemplo, que transpirava das versões de Sinatra que conspicuamente ia deixando cair entre temas seus de discos vários. Pontuados, é claro, pelas verdadeiras jóias da coroa dos anos 60, que iam levantando palmas adequadamente comovidas: “Don’t Think Twice, It’s Alright” e “Blowing in the Wind” do emblemático “The Freewheelin’ Bob Dylan” e, de “Highway 61 Revisited”, a faixa-título e “Ballad of a Thin Man”, à qual coube o encerramento do espetáculo em Lisboa.
Há demasiados e demasiadamente flagrantes casos de esgotamento artístico e segundas (e terceiras) vidas fracassadas na indústria da música para que possamos encarar este como um deles. O Bob Dylan da Altice Arena não foi, certamente, o melhor que poderíamos ter apanhado (e nem um gostinho de “Blonde on Blonde”?), mas mesmo que tenha sido o pior, o ganho bruto esteve lá para quem lá estivesse a aproveitá-lo.