O livre-arbítrio dos Unknown Mortal Orchestra

O livre-arbítrio dos Unknown Mortal Orchestra

2018-10-30, Aula Magna
António Maurício
Inês Barrau
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A banda da Nova Zelândia afastou-se do previsível entre sonoridades exclusivas, solos excelentes e improvisações bem compostas.

Para percebermos o início do concerto na Aula Magna, em Lisboa, necessitamos de contextualizar os Unknown Mortal Orchestra no presente. ” IC-01 Hanoi”, a mais recente edição na discografia, é na verdade uma compilação de faixas instrumentais com toques de jazz que foram postas de parte durante o processo de gravação de “Sex & Food”, o dito “álbum verdadeiro”. Como seria de esperar, o foco global da performance foi colocado em “Sex & Food”, mas a introdução em palco foi alimentada pelo ambiente criado em “IC-01 Hanoi”. Com uma iluminação vermelha que pintava toda a sala, a guitarra, o baixo, a bateria e o teclado dos Unknown Mortal Orchestra projectaram uma longa introdução instrumental que saltava gloriosamente entre o rock psicadélico e o jazz de improvisação. Até que, através de uma transição sem-espinhas, entraram de mansinho em “From The Sun”.

A bateria de Kody Nielson soava mais imperativa e mais acústica em comparação com a versão do álbum e Ruban Nielson entrou com um novo e longo solo de guitarra. Mas enquanto tocava em formato de improvisação, o guitarrista e vocalista decidiu descer do palco e andar entre toda a plateia. Sim, toda, porque Ruban fez questão de subir toda a escadaria da Aula Magna enquanto tocava, cumprimentava os presentes e bebia copos. É assim que se faz uma entrada!

Não deixem de imaginar este cenário, porque sem parar entraram de rompante em “Ffunny Ffriends”. É neste momento que percebemos que o trabalho vocal ao vivo diferencia-se substancialmente do que ouvimos em casa. A voz hipnótica que se ouve nos álbuns de estúdio perde sabor e apresenta-se mais seca – principalmente em faixas mais antigas como a que está em questão ou em “Swim and Sleep (Like a Shark)”, que foi tocada em seguida – talvez resultado da intensa utilização de efeitos de voz no passado, tendo em conta que nas músicas editadas em 2018, não é tão aparente. Por exemplo, em “Ministry of Alienation”, do novo álbum, a reprodução vocal já foi bem simétrica com o que estamos habituados a ouvir nos nossos auscultadores. Em termos de sonoridade, nunca estava mau, atenção, ou fora de tom, a questão que se coloca é: em concertos ao vivo, os fãs preferem ter uma experiência o mais autêntica possível com o que já conhecem e estão habituados ou preferem novas versões e sonoridades, exclusivas em apresentações ao vivo?

As improvisações instrumentais na guitarra foram sempre uma constante, pelo que as músicas foram frequentemente alteradas para integrarem momentos únicos.

As improvisações instrumentais na guitarra foram sempre uma constante, pelo que as músicas foram frequentemente alteradas para integrarem momentos únicos. Em “So Good At Being in Trouble”, o final tranquilo foi substituído por uma nova intensidade, através do trompete que surgiu magicamente nas mãos de Thomas Hoganson, voltando ao clima de jazz improvisado, e ainda com a intensidade em crescendo na bateria de Kody Nielson. Saindo ligeiramente da onda lo-fi psicadélica, entraram no momento mais rocker em “American Guilt” e na balada “Not in Love We’re Just High”, Ruban voltou até às graças do público, sentou-se (e depois colocou-se em pé) numa das cadeiras da zona frontal e acompanhado pelas palmas de todo o recinto cantou toda a música num clima de união e compaixão geral encantador.

O encore foi oferecido depois uma enorme ovação e em seguida ouvimos “Hunnybee”, que nos primeiros segundos pareceu ligeiramente fora de tom, mas como ofereceu o melhor solo da noite esquecemos rapidamente o problema inicial. “Can’t Keep Checking My Phone” fechou a noite, e com o seu ritmo altamente dançável transformou a Aula Magna numa pequena rave de minutos onde deixámos de ver pessoas sentadas em cadeiras e começamos a ver mãos no ar e pés em movimento.

O concerto dos Unknown Mortal Orchestra proporcionou várias emoções, como também proporcionou uma nova visão sobre o trabalho que apresentam em estúdio. É uma nova aventura para quem estudou a rigor a discografia em casa – vão ouvir sonoridades exclusivas, solos excelentes, improvisações tão inesperadas como bem conseguidas e assistir a uma química natural entre banda e plateia. Esta orquestra está afinada.

SETLIST

  • From the Sun
    Ffunny Ffrends
    Swim and Sleep (Like a Shark)
    Necessary Evil
    Ministry of Alienation
    So Good at Being in Trouble
    Major League Chemicals
    American Guilt
    Not in Love We’re Just High
    Multi-Love
  • Hunnybee
    Can’t Keep Checking My Phone