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AS10 | Bateristas Femininas Internacionais Que Devíamos Conhecer

AS10 | Bateristas Femininas Internacionais Que Devíamos Conhecer

Nuno Sarafa

Uma mulher a tocar bateria não será a coisa mais comum de se ver, mas que as há, há. E são muitas. E incríveis. Esta é uma lista com 10 das melhores.

Diz-que a primeira mulher baterista surgiu no século XIX, mas foi preciso esperar até 1920 para se conhecer a primeira a enveredar por uma carreira profissional, nos EUA, pois claro. Chamava-se Viola Smith e morreu em Outubro passado, com 107 anos de idade.

Na relativamente curta história deste instrumento, foram os homens quem foi dominando, em quantidade, esta particular comunidade musical, quer a nível internacional, quer a nível nacional. É por isso mais ou menos raro encontrar-se bateristas femininas sentadas atrás do kit. No entanto, fazendo uma investigação mais fina, é muito fácil constatar que a realidade não é bem assim. Há, aliás, muitas bateristas muito bem reconhecidas e cuja qualidade quebra qualquer preconceito.

Do rock ao jazz, do blues ao funk, da soul à pop. Elas dominam o bombo, tarola e choques. E umas quantas peças mais. Antes de fazermos um périplo pelas protagonistas portuguesas, fiquem com uma lista de 10 das melhores bateristas internacionais de sempre.

CINDY BLACKMAN | A imaginação, o groove, o som irrepreensível e os dons técnicos deslumbrantes já reservaram a Cindy Blackman um lugar entre as melhores de sempre. Blackman é uma das grandes culpadas pelo facto dos concertos de Lenny Kravitz terem sido, um dia, absolutamente incríveis. Cindy Blackman nasceu em 1959 em Yellow Springs, Ohio, cresceu no jazz, ao lado de mestres do improviso como Pharoah Sanders e Ron Carter, e tem o ritmo a correr-lhe nas veias. Já tocou funk (conforme provou num álbum com o seu marido, Carlos Santana), mas o seu trabalho mais importante talvez tenha sido com o grupo de curta duração Spectrum Road, uma banda dedicada a honrar o pioneiro do jazz-rock Tony Williams e que juntava John Medeski (Medeski, Martin & Wood), Vernon Reid (Living Colour), Jack Bruce (Cream) e, claro, Cindy Blackman Santana. Esqueçam tudo o que aprenderam…

SHEILA E | Demorou algum tempo até que o mundo se apercebesse do quão poderosa era a Sheila E, nascida Sheila Escovedo em 1957. A razão poderá ter sido o facto de ter sido inicialmente apresentada como um dos muitos símbolos sexuais do sempre excêntrico Prince. Quando Sheila E fez a digressão do seu álbum de estreia “Glamorous Life”, em 1984, estava na posição de frontwoman, esgueirando-se, volta e meia, para o kit, durante as partes instrumentais dos temas. Prince terá gostado do que viu e não tardou em convidá-la para fazer a tour de “Sign “O” The Times”, agora como dona e senhora da bateria; e os queixos de quem assistia caíam noite após noite. Ao longo da sua longa carreira, Sheila E tocou com nomes como Ringo Starr, Billy Cobham, Lionel Richie, George Duke, Prince, Gloria Estefan, Jennifer Lopez, Beyonce, Hans Zimmer e Kanye West.

MOE TUCKER | Nascida Maureen Ann Tucker, em 1944, Levittown, New York, tudo em Moe Tucker estava à frente do seu tempo, desde o seu kit minimalista até ao seu aspecto andrógino. Tocava de pé, mantendo os patterns o mais simples possível, e nem sequer usava bombo, mas os restantes membros dos Velvet Underground insistiam sempre que o seu timing impecável era a chave de todo o seu som. A melhor prova está no álbum a solo de Lou Reed, “New York”. Na última faixa, “Dime Stone Mystery” – uma homenagem ao membro fundador dos Velvet Sterling Morrison – Tucker assume-se inteiramente e, de repente, o som dos Velvet Underground está todo lá, mais claramente do que em qualquer outra canção de Reed a solo. Espreitam-na neste vídeo captado por Andy Warhol num ensaio, em 1969, e que viria a servir de vídeo oficial para o clássico tema “White Light White Heat”.

NIKKI GLASPIE | Podemos afirmar sem reservas nem receios que Nikki é uma das melhores bateristas do mundo da actualidade. Artista endorser da Yamaha, durante cerca de quatro anos, a partir de 2012, Nikki Glaspie foi a baterista de uma das bandas mais divertidas de Nova Orleães, os Dumpstaphunk, um quinteto liderado por Ivan Neville e que contava com dois baixistas. A banda já estava bem estabelecida antes da entrada de Glaspie, mas a baterista tornou-se imediatamente a estrela da companhia, cantando e tocando ao mesmo tempo, sempre com um groove verdadeiramente contagiante. Tudo isto seria perfeitamente normal se Nikki Glaspie não tivesse deixado a banda ao vivo de Beyoncé para se juntar aos Dumpstaphunk. Actualmente, Nikki costuma partir a loiça com os The Nth Power.

BOBBYE HALL | Se já ouviste uma abordagem latina num qualquer disco de sucesso dos anos 1970, então são muito grandes as probabilidades de esses discos terem a assinatura de Bobbye Hall. Esta percussionista e baterista nascida Bobby Jean Hall, em Detroit, Michigan, em 1950, tem algumas dezenas de êxitos incontornáveis, incluindo a maioria dos primeiros singles de Bill Withers, muitos dos discos de Marvin Gaye de “Inner City Blues (Make Me Wanna Holler)” em diante e, surpreendentemente, dois singles de “The Wall”, dos Pink Floyd. Uma das suas assinaturas mais marcantes surge em “Brother, Brother”, de Carole King, abrindo o disco com um dramático rufo de conga. Bob Dylan, Tom Waits, Lynyrd Skynyrd, Janis Joplin, Rod Stewart, Dolly Parton ou Tracy Chapman são apenas alguns dos incontáveis nomes com quem tocou ao vivo ou gravou discos.

KAREN CARPENTER | É verdade que Karen atingiu maior estatuto enquanto cantora, mas a bateria foi o seu primeiro amor e, além disso, tocava de forma elegante e cheia de feeling. Os créditos nem sempre deixam claro quem tocou em quê, mas existem dois álbuns dos Carpenters [o de estreia, “Offering” (1969) e “Now & Then” (1973)] – onde fazia dupla com o irmão Richard – nos quais Karen toca toda ou a maior parte da bateria. É também de Karen a bateria no sucesso “Yesterday Once More”. Deixou-nos cedo, em 1983, com apenas 32 anos, devido a uma insuficiência cardíaca causada por complicações relacionadas com a doença que sofria, anorexia nervosa, mas deixou-nos algumas pérolas, como fica bem patente no vídeo que se segue.

SANDY WEST | Ainda é reconhecida como uma das primeiras grandes bateristas punk rock. Nasceu Sandra Sue Pesavento em 1959, em Long Beach, e co-fundou uma banda totalmente composta por mulheres, The Runaways (1975-1979), com apenas 15 anos de idade. A banda foi originalmente concebida em torno de Sandy e da também conhecida como Rainha do Rock Joan Jett, mas a poderosa bateria das Runaways foi uma das razões pelas quais a banda conseguiu evoluir para estilos como o arena-rock ou o proto-metal. O álbum “Live In Japan” é, provavelmente, a maior demonstração de força de Sandy. Infelizmente, West nunca enveredou por uma vida pós-banda, em parte graças ao vício e às manipulações financeiras do manager da banda, Kim Fowley.

DEE PLAKAS | Demetra Plakas cresceu na cena punk de Chicago dos anos 1980 com uma banda chamada Problema Dogs e cedo gerou falatório com o seu estilo duro de abordar as peles. Em 1987, juntou-se às L7, que haviam nascido dois anos antes, banda que, a partir daí, lançou seis álbuns de estúdio, com destaque para “Bricks Are Heavy”, de 1992, que inclui o estrondoso sucesso “Pretend We’re Dead”. A mistura de ferocidade musical e humor subversivo da banda não exigia nada menos do que alguém poderoso no kit de bateria. Assim é Dee Plakas que, com a baixista Jennifer Finch, criaram linhas simples, mas inesquecíveis.

JODY LINSCOTT | Sobre esta baterista norte-americana radicada em Inglaterra desde 1971 quase basta dizer que tem um filme sobre a sua vida – “Jody Linscott: A Rock N Roll Life” e que tocou com The Who, Elton John, Mike Oldfield, Eric Clapton, David Gilmour ou Stevie Wonder – apenas alguns nomes num currículo e uma discografia extensos e com largas dezenas de colaborações. Com um estilo muito semelhante ao de Keith Moon, Jody Linscott era uma figura extravagante e com um som imponente e trovejante, não sendo por isso surpresa que Paul McCartney a tenha classificado como uma das melhores bateristas femininas da história.

MEG WHITE | Não podíamos terminar esta lista sem ela. Pode não ser tão evoluída tecnicamente como as restantes do grupo, mas a sua forma e estilo de tocar não deixam ninguém indiferente. Meg White sofre do síndrome Ringo Starr, outro génio tantas vezes incompreendido. Mas quem não se lembra do hit dos White Stripes, “Seven Nation Army”, e do seu beat contagiante? Megan Martha White nasceu em 1974 em Detroit e a sua pegada fala por si.