Entrevista | Carina Round Descodifica “Existential Reckoning” dos Puscifer

Entrevista | Carina Round Descodifica “Existential Reckoning” dos Puscifer

Nero
Travis Shinn

Carina Round, um dos vértices do triângulo criativo dos Puscifer, ao lado de Mat Mitchell e Maynard James Keenan, fala-nos das sessões de gravação e produção de “Existential Reckoning”, da importância de um Synclavier na sua construção sónica e do novo reino estético em que a banda entrou neste seu quarto álbum.

Nasceram algures no deserto do Arizona. Puscifer é uma banda electro-rock, uma experiência multimédia, um circo itinerante e sobrevivente de um rapto alienígena. O catálogo do grupo é composto por quatro álbuns de estúdio -“V is for Vagina” (2007), “Conditions of My Parole” (2011), “Money Shot” (2015) e “Existential Reckoning” (2020), assim como uma série de EPs e remixes. Para além do trio principal de Maynard James Keenan (voz), Mat Mitchell (produção de guitarra) e Carina Round (voz e compositora), o grupo sempre envolveu no seu ecossistema em constante evolução personagens como Billy D e a sua mulher Hildy Berger, Major Douche, o especial agente Dick Merkin e muitos outros.

As origens do nome remontam a 1995 num episódio do clássico Mr. Show na HBO, onde Keenan referiu pela primeira vez o nome Puscifer. O entertainer batizou-os de “excecionalmente deslocados” e Revolver descreve-os como “indescritíveis”. Reconhecidos por concertos imersivos, a performance do grupo fica no limiar de um concerto e de uma peça de teatro, que atravessa o empoeirado sudoeste americano com Billy D e Hildy ou com o círculo quadrado e suado na companhia dos Luchadores. Trouxeram essa vida a todos os lugares por onde passaram, desde Coachella a Bonnaroo.

Em 2020 lançam o álbum de estreia em parceria com a Alchemy Recording/BMG, intitulado “Existential Reckoning”, e trazem Billy D de regresso do deserto, e talvez possam dizer de uma vez por todas, toda a verdade sobre os alienígenas. Sobre o álbum, o trio refere que no verão de 2016, recebeu «um telefonema de Hildy Berger, a adorada esposa de Billy D. Existiam rumores que diziam que Billy D tinha desaparecido sem deixar vestígios nos desertos do Sudoeste dos Estados Unidos, levando apenas uma garrafa de vinho e uma misteriosa pasta. Rumores de um rapto por parte de alienígenas estiveram no centro das conversas que decorreram na dark web. E por essa razão, os métodos tradicionais para buscas de um bêbado desesperado não foram uma opção. Colocámos a hipótese da única forma de o localizar, através da construção de pontes entre a intuição e a tecnologia, exigindo a exploração metafórica entre a matemática e a paixão, a arte e a ordem, a esperança e a verificação. Através destes métodos será possível a localização exacta do Billy D e da misteriosa pasta».

Saindo do metatexto de contextualização, para este álbum, que sucede a “Money Shot”, lançado em 2015, os Puscifer convocaram Greg Edwards (baixo, guitarra e teclas), Gunnar Olsen (bateria) e Sarah Jones (bateria). “Existential Reckoning” foi produzido por Mad Mitchell e pela própria banda em North Hollywood, Califórnia. Foi sobre essas sessões e sobre a sonoridade do sublime disco que Carina Round conversou com a AS.

O confinamento teve algum impacto neste álbum, condicionou algo nas sessões de gravação? Como foi o processo?
A maioria do trabalho estava feito antes de tudo isto. No primeiro confinamento, ninguém sabia exactamente o que estava a acontecer ou se se apanhava COVID-19 só por se estar numa sala com outra pessoa ou a falar com alguém ao telefone [risos]… Parámos de gravar durante duas ou três semanas, sem ir sequer a estúdio, mas o deadline que tínhamos para terminar o disco não se alterou. Tínhamos de ir trabalhar. Eu e o Mat [Mitchell] fomos para estúdio em Los Angeles, estávamos em salas separadas, não estivemos perto uns dos outros na maior parte do tempo. Em termos logísticos, tivemos que parar nessas duas semanas, mas não afectou assim tanto o nosso trabalho.

Muitas bandas decidiram adiar os lançamentos, por exemplo, para uma altura em pudessem voltar a fazer digressões…
Na verdade, antecipámos a data de edição. A ideia inicial era lançar no início do próximo ano. Tínhamos concertos já agendados para promover a estreia. O Maynard estava indisponível para terminar este disco (que já tínhamos iniciado) porque estava em tour com os Tool, mas o confinamento acabou por encerrar o seu ciclo do álbum deles prematuramente. Em vez de nos sentarmos e esperar que as coisas voltassem ao normal, decidimos finalizar o nosso disco e lançá-lo mais cedo.

Entrando no trabalho criativo, desta vez têm músicos como o Greg Edwards ou o Gunnar Olsen e a Sarah Jones. Qual foi o input criativo deles, o que é que trouxeram para este disco?
Os Puscifer foram sempre uma porta giratória aberta e penso que a Sarah é alguém com quem Mat queria trabalhar já há algum tempo, tipo há uns 10 anos, mas ou não funcionou devido a questões logísticas ou então devido à música que estávamos a fazer, além de que o Jeff Friedl também estava connosco… Julgo que este foi o momento certo para ela entrar. Estava na cidade por uma semana, portanto foi para estúdio connosco e gravou todos os temas. Depois o Gunnar retrabalhou uma das canções e acrescentou uma dinâmica diferente ao final de outra. Todas as canções foram escritas antes dos bateristas tocarem nelas. Por outro lado, os músicos são escolhidos para este projecto pelo que fazem, pelo que criam, ninguém precisa de estar a dizer o que é que é preciso fazer ou tocar. Neste disco, por exemplo, a única especificação para o baixo era ser um fretless, algo que o Mat e o Maynard falaram especificamente e o Greg sabe tocar baixo fretless e gosta de o fazer.

Ouvindo o disco, de facto, o baixo soa-me tão suave… Agora que o dizes (que é um fretless), faz muito sentido!
[Risos] Sim. Foi uma decisão muito consciente. O Greg tem outras duas bandas e não toca assim tanto com o fretless nessas bandas. Ele e eu temos um filho juntos e quando o Maynard começou a falar no fretless e que era o que ele queria… Fazia sentido ser o Greg, que o pode fazer, porque está na família, está presente nas nossas vidas. Vivemos juntos, por isso faz sentido, também em termos artísticos. As canções estavam quase feitas em termos de arranjos e ele isolou-se começou a tocar as canções, isso foi ainda antes da pandemia, e trouxe cenas estranhas e maravilhosas e foi óptimo. Adoro o que ele fez neste disco.

Voltando ao Gunnar e à Sarah… Há canções em que a programação e a bateria são tão híbridas que nem sabes o que estás a ouvir, se são samples de bateria ou bateria tocada ao vivo. Como foi esse trabalho?
As ideias das canções começaram pelo Mat, ele organizou os temas e enviou-nos um ficheiro para trabalharmos. E muitas vezes as canções tinham programação de bateria ou ideias gerais sobre como deveriam ser as baterias para cada canção e não queria dizer que essas ideias não podiam ser refeitas ou substituídas por outras, mas quando ele vem com uma ideia ela já vem de uma forma muito sólida, próxima de como vai ser a bateria final. Ele tem muito equipamento analógico e muitas drum machines fixes, tipo LinnDrum (na canção “Singularity”). Não percebo muito, mas aprendi ao ouvi-lo falar sobre isso ao longo do tempo. Basicamente, a assinatura sonora dele tenta ser assertiva, por isso muitos dos sons fixes de drum machines que ele usou estão no disco. São uma parte importante do som e a Sarah… A sua vibe e o seu feeling são incríveis e trouxe muito para este disco também. Ela teve muita liberdade para criar por cima das ideias do Mat. Foi muito bom.

Um synth Synclavier foi uma parte importante no som que se estava a desenvolver originalmente.

Falaste em algumas unidades vintage que o Mat tem. Há algum sintetizador ou alguma drum machine em particular ou mesmo um pedal de guitarra que tivesse assumido um papel principal nas sessões deste disco?
A peça mais significativa que ele usou quando começou a escrever as canções, a maior parte delas, foi o (sintetizador digital e sampler) Fairlight CMI II. Um synth que usaram Peter Gabriel, no seu início a solo, Kate Bush, no álbum “The Dreaming”, Art Of Noise, etc. E também comprou um Synclavier e foi também uma parte importante no som que se estava a desenvolver originalmente. Também usou a LinnDrum. Todas as guitarras são Steinberger, o que é bastante interessante, elas têm um aspecto muito estranho, mas aquilo soa incrível. Acho que ele trocou os pickups, soa incrível. Não me consigo recordar para dizer que amps usou. Já eu mergulhei no (processador de efeitos) Eventide 4500, adorei! Por isso, usei bastante em muitas partes deste disco. Tentei processar as minhas vozes e isso como que mudou a minha própria intuição, o som das vozes transformou-se num verdadeiro instrumento. Também usei um small room reverb [AMS] RMX, uma vez mais, numa vibe tipo Kate Bush. Essas duas coisas foram uma constante ao longo do disco, e foram muito importantes para mim.

E quanto a microfones, algum em especial?
Lembro-me de ter usado um microfone dinamarquês, mas não me consigo lembrar qual. Mas muitas vezes usei um Blue Bottle. O Maynard usa um Custom Design da Blue, podes alternar as cápsulas também. É um monstro! É mesmo muito fixe! Terias que perguntar sobre tudo isto ao Mat, e ele falaria durante horas, mas creio que disse tudo certinho [risos].

Quanto à estética, se olharmos para “Money Shot” este álbum não é radicalmente diferente. Senti menos guitarras e menos overdrive, há um foco maior na textura…
Sim, concordo. Julgo que “Money Shot” foi mais escrito com  guitarras, por isso é naturalmente mais rock, bluesy, por aí. Mas este disco soa à mesma banda, foi o Mat quem escreveu as canções, mas é muito mais multi-camadas em termos de textura, mas também acho que, em termos de melodia, entra num novo nível. O Mat tem uma muita boa intuição.

Por exemplo, “Personal Prometheus” e “A Singularity” ficaram-me gravadas. Mas todo o disco… É tudo muito bonito em termos melódicos e ao mesmo tempo parecem simples.
Obrigado! A “Personal Prometheus” é uma dessas que o Gunnar refez na bateria. Há muito espaço nessas canções, dão muito espaço às melodias. Eu tentei trazer um lado melódico para este disco. Tentei construir coisas sobre as melodias que o Mat trouxe inicialmente.

Ao longo de uma década, o teu papel na banda tem crescido progressivamente. Cada vez que partes para um novo disco isso significa mais pressão para ti? Ou tudo se processa de forma natural?
É tudo muito natural, não há qualquer pressão, é precisamente o contrário. É mais… Se não apareceres, não participas no disco [risos]. O que acontece é que a minha confiança tem crescido naturalmente ao longo do tempo, fui-me apercebendo do meu lugar, ou antes, criei o meu próprio espaço. Foi muito natural, não houve grandes conversas, o meu envolvimento simplesmente cresceu, porque estive sempre presente desde o início.

Para terminar e fugindo um pouco dos Puscifer. Quantas vezes te disseram que a primeira vez que se ligaram a ti foi através da série American Horror Story?
Muitas vezes. É engraçado, adoro isso e sou muito agradecida. É muito estranho quando uma série de televisão aparece a artistas como eu e diz: «Olha, não há muito dinheiro para fazer isto, mas vai ter muito reconhecimento». Muitas vezes é tanga, mas com o American Horror Story foi verdade. O que aconteceu foi que essa canção foi muito bem colocada. É muito dramática, muito forte e melódica e a cena liga muito bem com a minha voz. Ainda agora há pessoas a descobrirem essas canções, por causa dessa série. É espantoso.