ENTREVISTA | Miss Lava: Profundidade, Peso e Catarse Emocional

ENTREVISTA | Miss Lava: Profundidade, Peso e Catarse Emocional

Nuno Sarafa

Guitarrista dos Miss Lava K. Raffah em entrevista à AS, na qual discorre sobre o doloroso processo de criação do mais recente disco “Doom Machine”, uma verdadeira explosão de felicidade e tragédia.

E eis que, ao quarto álbum, os lisboetas Miss Lava descarregam mais emoções do que nunca, numa exploração de riffs caleidoscópicos e interlúdios hipnóticos. “Doom Machine”, cá fora desde Janeiro através da norte-americana Small Stone, é uma viagem sónica repleta de texturas. Profunda, pesada e catártica. Eles dizem que é a banda sonora perfeita para o mundo pós-confinamento. Nós assinamos por baixo.

O momento da escrita foi marcado pela trágica morte do filho bebé do guitarrista K. Raffah e pelo nascimento das filhas dos outros membros da banda. Um paradoxo que afectou, naturalmente, a carga lírica e a emoção instrumental de “Doom Machine”. Em conversa com a Arte Sonora, o guitarrista diz que foi uma experiência fortemente emotiva.

«O meu filho só esteve aqui durante um mês e meio, mas a sua luz era muito forte. Nós sentimos a sua presença sempre que ouvimos o álbum», afirma K. Raffah sobre um disco que reflecte como cada um de nós pode gerar um poder auto-destrutivo e projectá-lo à sua volta tornando-se parte de uma máquina de destruição global, parte da Doom Machine.

O sucessor de “Dominant Rush EP” (2017), “Sonic Debris” (2016), “Red Supergiant” (2013), “Blues For The Dangerous Miles” (2009) e “Miss Lava EP” (2008) foi gravado ao vivo nos Generator Studios em Sintra, por Miguel “Veg” Marques, misturado por Eric Hoegemeyer e masterizado pelo colaborador de longa data Chris Goosman. Pela primeira vez, a banda que respira palco gravou um disco como se de um concerto se tratasse: ao vivo. E, agora, Johnny Lee (voz), J. Garcia (bateria), K. Raffah (guitarra) e Ricardo Ferreira (baixo e voz) já não querem outro método.

Tendo este disco temas escritos em 2017/2018, ainda se mantém actual?
Para nós, sim. No nosso caso, gravar um disco nunca é uma coisa imediata. Ainda por cima, temos uma editora americana. Entre escrever as canções e editá-las demora sempre muito tempo. Normalmente, gravamos em Portugal e depois enviamos para a editora. Há sempre uma pessoa que está nos EUA, contratada pela editora, que mistura e masteriza, o que é sempre um processo algo longo. Durante todo esse tempo, aproveitamos sempre para parar um bocado e descansar, até para termos algum distanciamento em relação aos temas. Muitas vezes, até que um disco nosso vá para a rua, demora mais de um ano. No caso deste último disco até demorou mais do que isso. Com a pandemia, não pudemos ensaiar, por isso, este material, para nós, continua actual, ainda é fresco. No “Sonic Debris” não foi tanto assim. Antes de sair, já andávamos a trabalhar em riffs que estão neste “Doom Machine”.

Lá está, as idas à sala de ensaios servem para se ir trabalhando mais os temas antigos e preparar coisas novas.
Exactamente. A maior parte deste novo disco nasce de jams, é um disco muito impulsivo, o que não implicou que não olhássemos para as coisas e elas não levassem 300 voltas. Por exemplo, o tema que abre o disco, “Fourth Dimension”, foi o primeiro riff que fizemos para este disco. Esse riff nasce antes de o terceiro disco estar na rua, mas a forma como o tocamos hoje em dia não tem nada que ver com a sua versão original. O segundo tema do disco foi o segundo que compusemos e passou exactamente pelo mesmo processo.

Este “Doom Machine” é marcado inevitavelmente por um paradoxo: o nascimento e a morte em simultâneo. De que forma estes acontecimentos se reflectem neste disco?
Totalmente. É impossível que assim não seja. A morte de uma criança é uma bomba atómica que, quando me atingiu, atingiu toda a gente à minha volta. Como também acontece com o nascimento das outras crianças. O meu filho só esteve uma semana em casa, de resto, esteve sempre internado. Viveu apenas um mês e meio. O curioso é que, durante o tempo em que esteve internado, no mesmo hospital, nasceu a filha do Ricardo. Tivemos um momento muito bonito, pois estivemos juntos nesse episódio tão importante para ambos. Foi super forte. Quando o meu filho foi internado pela última vez, a banda foi toda ter comigo e isso nunca esquecerei. O que posso dizer é que o meu filho tinha muita luz. Sou grato pelo meu filho. Quando penso nele, já só penso com um sorriso. Obviamente que há momentos em que vou abaixo, mas a cena que ficou é a luz, só associo cor, nunca o negro. Muito amor. As pessoas foram ao funeral dele para nos passar amor e tentar levar com elas um bocadinho da dor. Essa partilha aparece no disco sem sequer termos pensado nisso. Tanto a partilha da dor, como a partilha da felicidade.

O ódio vai destilando, toda a gente contribui de uma forma quase mecânica para esta máquina de destruição, de desastre

Foi doloroso o processo de composição?
Foi muito diferente do que adoptámos para os discos anteriores. Fizemos muitas jams e filtrámos aquilo que eram as melhores ideias. E trabalhámos sobre elas para as transformar em músicas. Quando assim é, as coisas são um pouco mais instintivas. Acabas por ter um canal mais directo entre aquilo que sentes e o que é a tua emoção e o teu instrumento.

É inevitável que toda essa carga emocional da morte e do nascimento acabem por transparecer no resultado final…
Acho que sim. Quando o João escreve as letras, não escreve sobre este episódio em particular, mas escreve sobre coisas que este episódio espoletou. Em termos genéricos, há um conceito para o disco que está presente desde o início, que é esta lógica da doom machine que está dentro de cada um de nós e que vamos todos alimentando. Vemos isto tudo nas redes sociais. O ódio vai destilando, toda a gente contribui de uma forma quase mecânica para esta máquina de destruição, de desastre. O João depura um pouco este conceito em episódios mais pessoais, como por exemplo a questão da adição, da droga, que está presente na letra de “Sleepy Warm”, como a questão da perda e do caminho para a superação como é retratada em “The Fall”. Obviamente que está tudo interligado. Há composições em que a temática da morte e da vida se sente mais directamente, são coisas impossíveis de serem indissociáveis, mas há outras que não.

É um disco com muitos interlúdios. Apesar de não terem letra, também têm algum significado, têm alguma narrativa subjacente?
Sim. Os interlúdios eram ideias de que gostávamos muito, só que nunca evoluíram para temas, mas tinham validade per si. O nosso baterista [J. Garcia] é que deu a ideia de os meter nos discos. Sempre fomos fãs de interlúdios. Lembro-me de um disco de death metal que amava quando era teenager, o “Testimony of the Ancients”, dos Pestilence, que tem muitos interlúdios, assim como álbuns dos Corrosion Of Conformity e por aí fora. Toda a gente adorou a ideia e a partir daí fizemos isso, foi um processo muito giro. Há um desses interlúdios cuja composição é exclusivamente para o meu filho: “Alpha”. Vem logo a seguir ao “The Fall”. Gosto muito desse interlúdio, porque tem a fragilidade que o meu filho tinha. Quis gravar num take só, porque não quis que fosse perfeito. Adoro ouvir esse tema e acho que é a melhor homenagem que lhe poderia ter feito. Há um momento em que o tema vai abaixo e consigo sentir essa fragilidade. Para mim, tem uma beleza indescritível, um sentimento muito forte. Gosto muito de falar no meu filho, porque quando assim é, ele está presente. Não faz sentido fingir que as coisas não estão ligadas, porque estão. E acaba por ser terapêutico. Tenho mais três filhas mas ele está presente aqui em casa. Não é tabu. Ele não é o lado negro da nossa vida, é precisamente o contrário.

O Vegeta, assim como o Fernando Matias, são pessoas que tentam levar a banda para fora de pé

É muita densidade emocional e que está mais patente do que nos álbuns anteriores. Concordas?
Sim. A banda deu um salto grande entre o segundo e o terceiro disco, que coincidiu com a entrada do [baixista] Ricardo [Ferreira] para a banda. Começámos também a trabalhar com produtores externos que entravam na sala de ensaios, ouviam a banda a tocar, davam opiniões, etc. Enquanto o processo de composição do terceiro disco, “Sonic Debrie”, foi muito mais inclusivo, em que todos participámos activamente na composição das músicas, não deixa de ser uma nova dinâmica criativa de grupo que está a ser criada, porque quando sai um elemento, ainda por cima tão preponderante como o Samuel era, e entra um novo, é normal que se construa uma nova dinâmica. Neste disco, tudo isso acabou por ser maturado e resultou. Deliberadamente, partimos à procura de algo diferente. Isso sempre nos motivou. No primeiro, o objectivo era irmos para fora, trabalhar com esta ou aquela pessoa, no segundo, foi gravarmos quase tudo por nós, a partir do terceiro foi a inclusão e neste foram as jams, em que tentámos ser o mais possível fiéis a esse princípio criativo. Até porque era o melhor que podíamos ter feito. Todo o contexto temporal deste disco é marcado por diferentes nascimentos, não só da filha do Ricardo e do meu filho, como também do baterista, que se casou, o [vocalista] João [Johnny Lee], que voltou a trabalhar em Angola… Tínhamos ali períodos on e off. Tentávamos ser muito intensos nos períodos on. Sem pensar muito, só fazer jams e gravar. Isso acabou por nos dar muito material.

E depois entra em acção o dedo do produtor. Como foi trabalhar com o Miguel “Vegeta” Marques?
Embora não o conhecesse pessoalmente, era um gajo com quem queria trabalhar há já muito tempo, ainda o Samuel estava na banda. Convivo diariamente com o Mike, que é baixista nos Easyway [dos quais faz parte Miguel Marques, a.k.a. Vegeta]. Há um dia em que marco uma pré-produção com o Vegeta, já com ideias de músicas que acabaram por sair no terceiro disco, e uns dias antes de irmos gravar para o estúdio do Vegeta, o Samuel sai da banda. Tive de lhe ligar a desmarcar, sem o conhecer de lado nenhum. Quando decidimos gravar este disco, sugeri o Vegeta de novo, ele mostrou-se super interessado e quando foi à sala de ensaios deu a opinião dele, desafiou-nos a mudar algumas partes e nós correspondemos. Depois de termos a conversa sobre o processo de composição do disco, ele perguntou-nos o que queríamos fazer. Dissemos-lhe que gostamos de fazer coisas sempre diferentes das que já fizemos e que nunca tínhamos gravado ao vivo. Então, ele traçou o objectivo de imediato: gravar ao vivo. Avisou-nos logo que tínhamos de ter tudo na batata se quiséssemos ir por aí. Isso só nos deu ainda mais motivação para trabalhar. Chegámos ao estúdio com tudo ensaiado e a verdade é que resultou muito bem. Só a voz é que foi gravada à parte, o resto foi tudo live takes. Até alguns solos gravei ao vivo. Correu tão bem que houve coisas que inventámos em estúdio. A “Feel Surreal”, por exemplo, foi alterada em estúdio. Foi um processo muito bom e, além de tudo, ficou uma amizade baseada no respeito. Adorámos trabalhar com o Vegeta! Ele tem um talento especial para trabalhar as linhas de voz. Trabalhou muito as harmonias com o João. O disco acabou por ser muito valorizado nesse aspecto. Em suma, é muito prático, puxou muito por nós, obrigou-nos a usar a cabeça. O Vegeta, assim como o Fernando Matias, são pessoas que tentam levar a banda para fora de pé. Eles não dão a solução, puxam é o músico para ir para o sítio que eles acham que é o melhor. Alguma malta tem de atingir um certo nível de maturidade para aceitar as ideias de alguém como um produtor, que não é propriamente da banda. Às vezes, é preciso deixar cair coisas que levaram muito tempo a construir, mas há um momento em que temos de largar a nossa arte em função da obra. O rumo de uma obra também é a perspectiva das outras pessoas. Até na escolha de pedais ele foi eficaz.

E usaste muitos pedais e guitarras diferentes?
Usei uns pedais dele, uns pedais de Fuzz que acho que deram um sabor muito específico a algumas músicas, uma delas o “Feel Surreal”. O resto foi a minha cabeça e os meus pedais. Uso sempre duas guitarras, uma Gibson Les Paul Custom ligada ao Marshall JCM 800 Lead Series e uma Gibson SG Special americana ligada a um amp Marshall JMP do Vegeta, daqueles à AC/DC que não dá para estares na mesma sala que o amplificador! Sou um gajo de Marshall e Gibson desde sempre. Já experimentei guitarras da Fender. Aliás, o [produtor] Fernando Matias tinha uma Telecaster que experimentei no “Sonic Debrie” e que gostei muito, mas sempre fui muito mais um gajo de Gibson.

E gravar ao vivo é outra história. Dá mais trabalho na pré-produção, mas depois é tudo muito mais eficaz e reflecte-se nas dinâmicas e no som final…
Sim, claro. É um processo muito fixe e aconselho às bandas que se quiserem aventurar nisso. Todas as gravações implicam aprendizagem. Fazê-lo ao vivo implica um mindset muito específico, tem de estar tudo muito bem estudado entre todos os elementos. É preciso olhar para o nosso próprio trabalho de uma forma muito mais precisa, mais concisa. Já não queremos fazer de outra forma. Até é mais rápido. E reflecte-se no som final. Olho para os nossos discos e tenho muito orgulho em tudo o que já fizemos. Mas, para ser sincero, o que oiço são memórias. Neste disco, as memórias que tenho é de nós a tocarmos naquela sala, os sorrisos, o contacto visual, a emoção de fazermos as coisas juntos. O estúdio do Vegeta [Generator Music Studios] é muito perto de nós, mas parece que estás numa aldeia, um sítio muito tranquilo. Isso também ajuda a banda a focar-se. É uma paz de espírito incrível. Ainda por cima nessa semana estava um tempo incrível, o que nem sempre é normal para aqueles lados de Sintra.

Sendo vocês uma banda que respira palco, como é que têm lidado com este momento em que os palcos estão praticamente vedados às bandas?
Conseguimos dar um concerto em Maio, ainda para mais fora de Portugal, em Tenerife. O concerto correu muito bem. Obviamente que queremos dar muitos mais concertos, ainda por cima temos uma questão logística que se prende com o facto de o João estar para fora metade do tempo e é difícil conjugar as coisas. O disco saiu em Janeiro e o país fechou outra vez. Não conseguimos marcar nada… Começámos a ensaiar em Abril para o concerto de Tenerife… Entretanto, gravámos uma sessão de 10 músicas em áudio e vídeo na sala dos The Quartet of Woah! e três delas foram para o The Psychedelic Film and Music Festival, nos EUA, para angariar fundos para os veteranos de guerra. O [Fernando] Matias já misturou tudo, o vídeo está a ser editado, mas ainda estamos a ver o que iremos fazer com isso. Estamos neste momento a estudar várias hipóteses. Pode ser que seja editado ou então um streaming. Ou libertar e ponto final. Estamos a ver isso com a editora. Nos últimos ensaios começámos a brincar com riffs novos… é assim que temos ocupado o nosso tempo enquanto banda. É esperar para ver. Este disco teve uma reacção por parte da crítica melhor do que os anteriores, principalmente em Espanha. As composições não são tão in your face, não são tão standard. É-me difícil distanciar de tudo o que aconteceu comigo, connosco, mas acho que este disco sente-se mais. Claro que queremos tocar em Portugal, em todo o lado, mas gostávamos de apostar mais em Espanha, está aqui mesmo ao lado, não implica viagens de avião. Já fizemos muitos concertos em Espanha, muitos festivais e eles trabalham muito bem, o público é incrível.

A nossa ideia é tentar investir mais em Espanha e tentar tocar estas músicas em Portugal. Este disco pede para ser tocado ao vivo

Ainda alimentam o sonho de uma internacionalização plena ou as vossas vidas pessoais não vos permitem e tocar fora é apenas uma extensão do que fazem em Portugal?
Já vimos que é possível. Da mesma forma que vou tocar num fim-de-semana a Faro e marco umas datas no Algarve, ou ao Porto e marco umas datas a Norte, é perfeitamente fazível irmos à Galiza, Madrid ou Barcelona e marcar datas pelo caminho. Alimento muito esse sonho. Da mesma forma que somos convidados para tocar aqui e ali em Portugal, também somos convidados para o fazer fora do nosso país. Mas o facto de não vivermos disto… fazemos isto porque sem isto não somos quem somos. É mesmo por amor.

Têm datas marcadas para os tempos mais próximos?
Não. Tínhamos um festival marcado em Tabernas, Espanha, uma vila no meio do deserto, onde o Sergio Leone filmava os westerns spaghetti italianos. Mas o João não vai estar cá, vai ter de ir para Angola nessa altura. Até no nosso regresso a Covid nos lixou. Mas tudo pode mudar, não se sabe nada nos dias que correm. A realidade muda de dia para dia. A nossa ideia é tentar investir mais em Espanha e obviamente tentar tocar estas músicas em Portugal. Porque este disco pede para ser tocado ao vivo.

Sem ensaios e sem concertos, como é que tens ocupado os teus dias?
Agora tenho um programa na Rádio Antena Minho, de Braga, que é o Jola Caveira. Em todos os programas abro uma ‘jola de uma marca diferente e abro um caixão de stoner ou heavy rock e vou partilhando. Gravo em casa, envio-lhes e eles transmitem. No dia seguinte disponibilizo no Spotify e no Mixcloud. É Jola Caveira, é para bater a bota! [risos]. Como eu digo no programa: Agora abre uma e mete isso mais alto!

Aproveita a dica e aperta o play para ouvires bem alto o mais recente disco dos Miss Lava, “Doom Machine”. Com ou sem ‘jola.

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