ENTREVISTA | Sean Riley & The Slowriders: A Luz Depois da Escuridão

ENTREVISTA | Sean Riley & The Slowriders: A Luz Depois da Escuridão

Nuno Sarafa
Ana Viotti

“Life”, o quinto disco de originais da carreira e o primeiro depois do desaparecimento de um dos fundadores, Bruno Simões, em 2016, é um verdadeiro novo capítulo na vida de Sean Riley & The Slowriders. Em entrevista à AS, Afonso Rodrigues admite que este álbum é simultaneamente uma homenagem e uma forma de superação. Uma espécie de luz solar em contraponto com a escuridão do passado recente. O amor à vida.

Tudo começou com “Farewell” já lá vão uns 14 sólidos anos. E, de lá para cá, muitas são as histórias, aventuras e desventuras que Sean Riley & The Slowriders têm para contar. A mais recente é tipo história de vida – ou o título do novo álbum não se chamasse “Life”. Uma história que podia mesmo ter virado livro ou filme. Mas deu um disco. Um disco construído em cima de um momento doloroso, o desaparecimento do baixista Bruno Simão, em 2016, precisamente o ano da edição do disco anterior, homónimo.

Para uma banda que começou em Coimbra a três – Afonso Rodrigues, Bruno Simões e Filipe Costa, aos quais se juntou, entretanto, Filipe Rocha -, o desaparecimento de um dos elementos provoca, forçosamente, mudanças. Ponderaram terminar, mas rapidamente chegaram à conclusão de que manter o projecto seria não só uma forma de se manterem mais próximos do amigo e colega de banda, como de ajudar a curar a ferida. Nuno Filipe, amigo de longa data, assumiu as quatro cordas. Afinal, a vida tinha de continuar.

O tempo passou. Chegara a altura de ir para a sala de ensaios construir uma nova história. Mas eis que em vésperas de entrarem em estúdio, em Janeiro de 2020, um corte num dedo impossibilitou Afonso Rodrigues de tocar guitarra. Mas até esse episódio menos bom teve o seu lado positivo. Não se detiveram e foram para o Haus, em Lisboa, gravar um disco praticamente sem… guitarras. Mudaram o som, apostaram forte nos teclados e desenharam um disco intenso, mas luminoso, talvez o melhor até à data. Para a estética renovada em muito contribuiu Makoto Yagyu, sentado na cadeira da produção.

Com o disco pronto, mais um contratempo: a pandemia. Sem poderem tocar o disco ao vivo, optaram por adiar o lançamento. Até agora. O disco está cá fora – podes ouvi-lo na íntegra no final da entrevista – e chegou a hora de subir ao palco para o mostrar. E vontade não lhes falta. Todas estas histórias e outras tantas serviram de base para a conversa que tivemos com Afonso Rodrigues, o Sean Riley desta epopeia.

Apesar de vocês não terem editado nada nestes últimos cinco anos, muita coisa se passou com o projecto Sean Riley & The Slowriders.
Realmente, foi tanta coisa que aconteceu que se torna difícil concentrar tudo numa resposta curta. Diria que o que há a salientar deste período sem editar é que tínhamos muita vontade de lançar o disco em 2020, mas a verdade é que com a pandemia não nos fez sentido lançar no ano passado, preferimos aguardar mais um ano, até porque não íamos poder tocar ao vivo. O ano passado não conta praticamente para ninguém. Foi um ano muito estranho. Mas, em todo este tempo de intervalo, permaneceu sobretudo uma grande vontade de fazer música juntos e agora temos um disco novo para mostrar!

É inevitável tocar neste assunto: este disco é simultaneamente uma forma de homenagear e tentar ultrapassar o desaparecimento do baixista Bruno Simões, em 2016?
Sem dúvida. É uma situação muito difícil de imaginar. Infelizmente, todos já passámos por situações que envolveram perder pessoas queridas, mas isto é uma situação com uma natureza muito particular. Pusemos em causa deixarmos de fazer música, mas a verdade é que continuar a fazê-lo foi uma coisa que nos fez sentir bem, diria mesmo que nos ajudou, mas, de alguma forma, o facto de continuarmos com o projecto é uma homenagem a um amigo cuja maior paixão na vida era, provavelmente, a música. Ao continuarmos juntos, estamos não só a fazer uma coisa que ele adorava fazer, como também a mantê-lo mais próximo de nós, porque cada vez que estamos juntos, cada vez que fazemos música, ele está ainda mais presente. Este disco é sem dúvida uma homenagem e uma forma de superação.

Já perdi um amigo, não vos quero perder também. Isto é o que me está a dar alguma sanidade

Imagino que tenha sido muito difícil tomar a decisão de continuar com a banda.
Ponderámos terminar a banda logo em 2016. A primeira decisão foi perceber se mantínhamos ou não os concertos que já tínhamos agendados para essa altura ou se simplesmente cancelávamos tudo. Na altura, o Pisco [Filipe Rocha] virou-se para mim e para o Filipe [Costa] e disse: «Já perdi um amigo, não vos quero perder também. Isto é o que me está a dar alguma sanidade». E por isso continuámos com a banda, achámos que era a melhor maneira de nos ajudarmos uns aos outros a ultrapassar a situação. Tomámos essa decisão sabendo que a única forma de o fazer era se o Nuno [Filipe] aceitasse tocar baixo. O Nuno já tinha estado na banda, fez concertos em substituição do Bruno, andava connosco na estrada desde o início, inclusive como road manager e era uma pessoa que já fazia parte da nossa família. Era a única hipótese que víamos de continuar a tocar. Ele aceitou e depois as decisões foram consequência do percurso; aceitámos fazer os concertos já marcados, depois surgiram mais datas, até que um dia decidimos ir até à sala de ensaio ver se nos sentíamos bem a fazer música, porque uma coisa é interpretar música que já está escrita, outra é compor temas novos. A verdade é que nos sentimos bem, fez-nos bem, gostámos do que estávamos a fazer e decidimos continuar, mas foram coisas muito mais intuitivas e emocionais do que propriamente decisões racionais.

Tendo em conta o que aconteceu convosco, quem estivesse à espera de um disco negro enganou-se, pois “Life” acaba por ser bastante luminoso.
Essa luz é precisamente resultado do período que passámos. O facto de o disco ter sido feito bastante tempo depois do anterior [“Sean Riley & The Slowriders (2016)”] e o facto de termos chegado a um sítio muito complicado e de termos de sair desse sítio, obrigou-nos a procurar outro tipo de energia, outro tipo de espaço, de sentimento e acho que a procura dessa luz acaba por ser uma coisa um bocado consciente. Chegas a uma determinada altura em que quando bates no fundo só podes ir para cima. Não íamos procurar ainda mais escuridão, queríamos era sair desse sítio! O disco anterior já era denso, negro e queríamos garantidamente sair desse lado do espectro e as músicas foram saindo assim, naturalmente. Compusemos pela primeira vez com o Nuno Filipe e andámos à procura de novos registos, novas paragens e com essa ambição de ter algo que fosse um pouco mais solar. Foi consciente.

Há também um facto curioso e que ajudou a alterar o som do disco: cortaste um dedo antes das gravações e isso impossibilitou-te de tocar guitarra…
[risos] É daqueles momentos que acontecem na vida e que não deixam de ser irónicos e curiosos. Já tínhamos gravado o primeiro single [“Every Time”], uma música sem guitarras, algo inédito na nossa história enquanto banda e estávamos a ponderar trabalhar mais algumas canções nesse formato que nos tinha interessado imenso e deixado com muita curiosidade. Entretanto, corto um dedo no dia 1 de Janeiro de 2020. Decidimos adiar o disco, porque em Março chegou uma pandemia e tudo junto fez com que, quando voltámos ao estúdio para trabalhar em mais canções novas, eu não conseguia tocar guitarra [risos]. Acabámos por seguir a receita que já tínhamos encontrado e explorá-la ainda mais, algo que talvez não fizéssemos se tivéssemos mantido o plano original de lançar o disco em 2020. Mas acabou por ser interessante para o resultado final, porque chegámos a sítios melhores e mais interessantes. Provavelmente, não chegaríamos a este disco se eu tivesse os dedos todos em condições.

Outro factor de mudança em termos de som terá sido também o facto de trabalharem pela primeira vez com o Makoto Yagyu [Paus, Riding Pânico] enquanto produtor.
A maioria das canções já foram delineadas quando fomos para estúdio, principalmente em termos de estrutura. A composição estava fechada, mas do ponto de vista dos arranjos e, principalmente, do ponto de vista estético, da escolha de sons e de instrumentos, o Makoto teve um papel determinante. Foi praticamente o quinto elemento da banda, demos-lhe muito espaço para produzir. Normalmente, fazemos co-produção nos nossos discos e este não fugiu à regra. Foi a primeira vez que trabalhámos com ele, mas já somos todos amigos de longa data e foi uma experiência incrível. Julgo que o que ele trouxe para este disco foi extremamente importante e novo, uma forma diferente de abordar a estética e os arranjos, principalmente nos teclados, que foi algo que usámos bastante neste álbum. Ele tem muito know-how e muitos teclados que acabámos por usar. Apesar de o Filipe ter delineado a maioria das frases, houve muito trabalho de estúdio, overdubs, muita produção, muita escolha de sons e, nisso, o Makoto foi importantíssimo para chegarmos à estética final deste disco.

Qual foi o instrumento, técnica ou truque que o Makoto abusou mais?
Se tivesse de escolher, acho que foi mesmo um teclado Crumar original, não destas reedições mais recentes, mas um dos antigos. Usámos imenso, porque adorámos o som do teclado. Cada vez que o púnhamos a tocar ficávamos logo: «Ok, é isto!» Também usámos o piano acústico do Haus, que é um piano que soa bastante bem, com um som muito particular. Usámos tanta coisa que metade delas nem sei dizer [risos]. Mas foi basicamente muito teclado vintage! Muita coisa dos eighties. Mas eu é mais pedais e guitarras, só que como neste disco não usei nada disso… não te sei dizer mais!

Dizes que houve muita produção, mas o disco não parece sobreproduzido, soa tudo muito natural.
A ideia era mesmo essa. Quando falo de muita produção, refiro-me mais a termos uma ideia, procurarmos um som e afinarmos esse som até ser perfeito e servir a música. Nunca tentámos gravar milhares de coisas em cada canção, foi simplesmente chegar aos sons que servissem na perfeição cada canção. Foi nesse sentido que o Makoto foi muito importante, porque tem um ouvido muito afinado, tem muito bom-gosto e nós confiámos totalmente nele. Muitas vezes ele sugeria um determinado teclado, ou um som, ou um reverb, ou um tipo de processamento para uma frase em específico e nós automaticamente adorávamos a sugestão. Quando falo em muito trabalho de produção falo mais nessa afinação de timbres e efeitos do que propriamente muitas camadas e alterar estruturas ou composições.

Estamos aqui por um tempo limitado e temos duas formas de olhar para isto: ou de uma forma luminosa ou mais negra

E quem é o jovem músico estiloso retratado na capa do disco?
É o Filipe Costa [risos]. Já tínhamos capa e eu queria que fosse aquela fotografia do Filipe, que me surgiu num aniversário dele, em Janeiro, dois meses antes de confinarmos. Vi a fotografia pela primeira vez nesse dia e tudo me fez sentido. Aí, já sabia que o disco se ia chamar “Life”… E nessa foto vi o Filipe em criança quase que predestinado a ser músico ou artista. Vi a nossa própria vida como amigos e como família.

Falando no Filipe, além de aparecer na capa, também canta um tema, o último do disco [“Last One”]. Com isto, abrem a porta para um futuro de banda a duas vozes principais?
Ele grava sempre backing vocals nos nossos discos, mas nunca se tinha assumido como voz principal. Foi mais uma decisão muito intuitiva, clássica em Slowriders. O Filipe já tinha escrito essa canção há muitos anos, como escreveu outras, mas nunca fez nada com elas. Nunca gravou, nunca editou. Um dia estávamos num ensaio e, quando entrei na sala, ele não se apercebeu e continuou a tocar essa canção à guitarra. Adorei o tema, não só porque me relembrei dos tempos em que ele o escreveu, mas porque achei que a letra era particularmente ajustada e afinada ao momento que estávamos a viver. Então, disse-lhe que a canção devia entrar no disco e cada vez mais comecei a vê-la presente no disco, imaginei o álbum terminar com essa canção e com a mensagem que a música passa. Ele aceitou a ideia. Há várias coisas que me fazem sentido nessa canção, não só a música em si, que é boa, mas também a ideia de abrir o disco a um lado mais de comunhão, de família, que é algo que está no espírito deste disco. Tudo começou a fazer sentido. A canção dele tem uma mensagem ligada ao fim de um ciclo e ao fim de vida. Tudo estava bastante harmonioso na minha cabeça. Quanto a ele se assumir como a outra voz principal do projecto, diria que depende muito das canções que ele fizer e dos discos que fizermos no futuro. Obviamente que, se fizer sentido, vai acontecer.

Pegando nas mensagens do disco, em que falas do amor pela vida, da paternidade, entre outros temas, o que é que queres mesmo dizer com estas letras?
Simplificando todas as nuances e todos os detalhes das letras, a questão do “Life” resume-se a querer dizer que estamos aqui por um tempo limitado e temos duas formas de olhar para isto: ou de uma forma luminosa ou mais negra. Faz-nos mais sentido, no tempo limitado em que cá estamos, olharmos para as coisas de uma forma mais luminosa, de valorizarmos as coisas que são realmente significantes e que têm importância, como o tempo, as pessoas que gostam de nós, as pessoas de quem gostamos. É a cena de nos centrarmos nos valores que são realmente importantes e irrepetíveis. Isso acabou por casar com a temática de 2020, em que de repente és confrontado com uma situação que não controlas, que te retira a vida como a conhecias, mas que também te dá para repensares o que é que valorizavas efectivamente e perceber que se calhar estavas a direccionar a energia para coisas que não são assim tão importantes. O conceito de “Life” é uma tentativa de agregar todas essas questões e de mostrar que temos de nos agarrar ao melhor que a vida tem e que, na prática, somos nós que escolhemos se queremos usar o melhor da vida ou preocuparmo-nos com o pior que ela tem.

Imagino que depois de todo este vendaval estejam cheios de pica para regressar aos palcos.
É o que as pessoas podem esperar dos nossos concertos, um grupo de pessoas altamente motivadas e entusiasmadas por terem a oportunidade de voltar a tocar ao vivo e de começar um ciclo com canções novas. Vão ser concertos dedicados, com energia, com muita vontade de partilha, que é algo que não conseguimos fazer há muito tempo. E esta é uma banda que sempre viveu muito do palco. Aliás, uma das razões para adiarmos o lançamento do disco foi exactamente por percebermos que não íamos poder tocá-lo, era quase como um trabalho que deixaríamos a meio. A parte do estúdio é interessante, mas a partilha com as pessoas é maravilhosa. Quando tocas à frente das pessoas há aquela electricidade e comunhão que são únicas para quem está no palco. Não vamos ter muito tempo para tocar, porque há limitações em termos de horários, mas vamos tentar fazer um concerto 80% dedicado ao novo álbum e o resto às canções antigas, que também temos saudades de tocar e que provavelmente algumas pessoas também terão saudades de ouvir. Honestamente, acho que vai ser lindo! Vai ser um momento de comunhão. Afinal, estamos à espera disto há quase dois anos…

E depois de Lisboa, o regresso a casa.
Vamos a Coimbra e vai ser extremamente emocional. Já não tocámos lá há muito tempo, é a nossa casa no sentido em que foi lá que tudo começou e vai ser um momento extremamente marcante e emocionante. O cenário de festa exibido no vídeo para “Love Life” está garantido… Sem dúvida.

Para terminar, quanta coragem é que é necessária para, em plena pandemia, juntares-te ao Rai [The Poppers, Keep Razors Sharp] e ao Paulo Furtado e abrirem um negócio, a Casa Tigre?
Na prática, é algo que nos corre no sangue: a vontade de fazer coisas, de juntar artistas, de criar um espaço que nos represente e represente o que somos e gostamos. Aconteceu ser em 2020. Tínhamos muitos planos e muitas ideias, mas como o mundo congelou nesse ano, também nós deixámos de estar tão ocupados com a música e com coisas que nos tomam mais tempo, e foi o momento em que conseguimos pensar, falar, pôr tempo na ideia e desenvolvê-la. Acredito que, do ponto de vista financeiro ou de negócio, talvez tenha sido um ano com muitos desafios, não era o ano ideal para se iniciar um negócio, mas por outro lado a pandemia foi catalisadora. Pensámos no que somos, no que é verdadeiramente importante para nós, no que queremos fazer, e decidimos avançar. Talvez não tenha sido na melhor altura, mas a partir do momento em que foi o ano em que o conseguimos fazer, já passa a ser o melhor ano para o fazer. Somos os três sócios. Eu e o Furtado estamos envolvidos em todas as decisões, na parte criativa, etc, mas não vamos lá todos os dias. O Rai é quem está na loja diariamente, responsável pela parte operacional da loja, quer física, quer na vertente online.

“Life” está cá fora desde 21 de Maio, um trabalho que pôs Afonso Rodrigues e companhia a «olhar ainda mais para dentro». A olhar para a sua própria história, para as suas próprias vidas e para o quanto se alteraram nos últimos anos, desde que começaram a fazer música juntos. Este novo capítulo das vidas de Sean Riley & The Slowriders pode ser conferido ao vivo nos dias 15 de Junho, em Lisboa, no Teatro Maria Matos (já esgotado), e 18 de Junho, em Coimbra, no Teatro Académico Gil Vicente.

Até lá, apertem o play e deliciem-se com um disco feito no pior dos cenários, mas que é, provavelmente, o melhor disco, até aos dias que correm, da carreira da banda de Afonso Rodrigues (voz e guitarra), Filipe Costa (teclados e voz), Nuno Filipe (baixo) e Filipe Rocha (bateria).

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