Gil Oliveira: à conversa com o luthier

Gil Oliveira: à conversa com o luthier

Nero

O pai fazia instrumentos e foi aos 7 anos que começou a tomar contacto com as madeiras. A esta aprendizagem juntou-se a de electricista e estavam reunidas as ferramentas para trabalhar o som dos instrumentos.

Hoje, andam nas mãos de músicos nacionais e internacionais desde guitarras mais tradicionais a modelos personalizados, que ora primam pela estética diferenciada ou por características sonoras distintas das oferecidas pelos modelos standard. Gil Oliveira, luthier, construtor, encantador de cordas.

Há mais procura para uma guitarra com um som ou uma estética diferente?
Tem mais a ver com o som. Mais a ver com as características da guitarra, se é para jazz, rock, hard rock… Por vezes pedem-me uma guitarra tipo Gibson LesPaul, mas não gostam do formato, e então trabalhamos nisso juntos. Se não têm ideia nenhuma eu vou desenhando até chegar ao design. Depois é a questão sonora, que vamos experimentando; que é a tal coisa de ter uma guitarra feita de encomenda: vamos andando até chegar ao que queremos mesmo! Às vezes é difícil de “sacar” logo com duas ou três conversas. Quando chegamos à altura de fazer o desenho, vê-se o equilíbrio da coisa e só depois na parte final é que vamos ver por onde vamos para soar conforme ele quer – mais agudo ou mais grave, mais cheia ou com mais sustain

Trabalha a madeira já com noções de como vai soar ou vai-se desenvolvendo a pouco a pouco?
Para conseguir “aquele” som que o músico quer tenho que pensar nisso logo de início. Já é um conhecimento… são 40 ou 50 anos a fazer coisas e a experimentar e não se chega lá assim de um momento para o outro. Eu hoje vejo um músico a tocar e sei logo como é que hei-de pôr a guitarra para ele se sentir melhor com ela – basta que ele toque dois ou três minutos e percebo que precisa daquela curvatura no braço, daquela altura de cordas, se deve ou não mudar de cordas…

Do que criou, o que se destaca mais pela diferença?
O meu contrabaixo eléctrico, porque é único! É desmontável num minuto; o braço de um lado, o corpo do outro, e mete-se num estojo de guitarra um instrumento com 1.85cm de altura! O problema dos contrabaixistas está em transportar o instrumento – alguns até têm de mudar de carro para aquilo caber lá dentro. E eu criei um que além de eléctrico também é acústico e que dá para eles estarem no backstage ou no quarto de hotel a tocar sem incomodar ninguém! É electrificado e transportável, que é uma das minhas apostas!

Depois há o bambuleco e o banjuleco [nas mãos de Valdjiu, dos Blasted Mechanism]…
O bambuleco é baixo e guitarra. O banjuleco é baixo e banjo. O bambuleco ao início era com trastes até ao sétimo traste, e depois o resto fretless, mas as cordas finas em fretless não se ouvem muito bem e passou a ser meio fretado – a metade do braço fretado é só da parte da guitarra, a do baixo não. Depois aquilo já não funcionava muito bem, e fomos alterando até ao que é hoje e acabou por ser todo fretado. Até tinha duas electrónicas diferentes, para ligar a dois amplificadores, a parte de baixo num amplificador e a parte de guitarra noutra, mas depois alterou-se também.

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©Pedro Mendonça

Que instrumento foi o maior desafio… ou a maior dor de cabeça?
A maior dor de cabeça… talvez a guitarra do Vítor Ruas. É uma guitarra de 18 cordas, é como se fossem duas guitarras num só braço. Tem um braço que parece quase uma auto-estrada, porque são 6 de nylon, como se fosse um braço de guitarra clássica, colado a um braço de uma guitarra de 12 cordas, que por si só já é um bocadinho mais largo que o normal. E inclui outros acessórios, como o gizo da percussão, que dá batidas. Toca tudo ao mesmo tempo e isso é que é o impressionante da coisa! É que ele tem aquilo arranjado de tal maneira que está a fazer um solo, ainda vai agarrar numa escova de dentes, passa no cavalete e faz um efeito tipo serrote e depois agarra numas coisinhas de metal e mete lá dentro nas molas e parece que está a tocar sinos, é incrível. É mesmo impressionante o que ele faz ali com aquilo. Não tem nada a ver com nada.