Gravar Um Bom Disco (E Preparar Tudo o Resto): Pré-Produção II

Gravar Um Bom Disco (E Preparar Tudo o Resto): Pré-Produção II

Fernando Matias

Fernando Matias, um dos mais entusiasmantes produtores no underground nacional, residente nos Pentagon Audio Manufacturers, criou uma série de artigos com os principais conceitos que devem dominar para criarem e gravarem o melhor disco possível. Neste segmento, encerramos a pré-produção.

A pré-produção é, fora da esfera profissional, a rotina de trabalho mais mal tratada, ignorada e incompreendida na história das gravações de discos. E isto acontece fundamentalmente por não haver uma noção clara do que é e para que serve. Depois de, no artigo anterior, termos abordado a demotape, continuamos em modo pré-produção.

Com a parte da composição e arranjos resolvida, é momento de começar a pensar em detalhes de carácter mais técnico e funcional, já relacionados com o processo de gravação em si. Na esfera amadora e semi-profissional estas questões costumam invariavelmente ser resolvidas já dentro do estúdio ou de forma apressada na véspera do “Dia 01”.

Para evitar surpresas, perdas de tempo e derrapagens no orçamento é aconselhável fazer estes preparativos antecipadamente.

ALINHAMENTO

Uma banda é um colectivo, um mecanismo no qual todas as peças têm, à partida, igual importância mas… Uma vez no estúdio, quem grava o quê? Este é um assunto polémico. Praticamente nenhuma banda o aborda antes das sessões de captação e, frequentemente, transforma-se no elefante dentro da sala que todos tentam ignorar. Se dúvidas houver acerca desta questão, lamento informar-vos que não há forma simpática de a resolver e que adiá-la ou ignorá-la não a melhora em nada.

Se deixarem a decisão para o produtor, já durante a produção, preparem-se para o pior porque poderá não ser bom nem para a auto-estima, nem para a motivação do grupo de trabalho e muito menos para a carteira. Notem que deixar a decisão para o produtor não é um mal em si próprio, é compreensível que a banda prefira alguém exterior e imparcial a avaliar e a decidir sobre uma matéria tão sensível, mas se assim o desejarem, façam-no em antecipação.

Negligenciar este ponto até ao último minuto apenas torna óbvio que o assunto foi sendo empurrado com a barriga, até não ser possível adiar mais, e que as decisões terão, enfim, de ser tomadas apressadamente e na pior circunstância possível: sob pressão, com o calendário definido e com as horas já a contar. Há três critérios que devem determinar quem grava o quê:

a) Dificuldades na execução

Se todos os elementos se prepararem convenientemente e tiverem o cuidado de não compor acima das capacidades técnicas e físicas, este problema deixa de existir. É uma premissa inicial perfeitamente justa para todos os envolvidos e, neste cenário, o mais natural será que cada um grave as suas partes. No entanto, é comum surgirem passagens de maior dificuldade e, sempre que isso acontecer, será necessário tomar uma decisão.

Partindo do pressuposto de que produtor e engenheiros já tentaram criar as melhores condições possíveis para tentar melhorar a performance, seja por manipulação da escuta, por mudança de método de gravação, ou por intervenção na direcção musical, temos quatro saídas possíveis;

Se houver outro elemento na banda que seja capaz de fazer o trabalho, terá de ser ele a salvar o dia.

Retocar o arranjo ou a composição até que a performance seja convincente.

Recorrer a um músico de sessão.

Gastar dezenas de horas em edição.

Se egos tiverem de ficar feridos, não será de forma gratuita e despropositada, e há que saber lidar de forma razoável e profissional com a situação. Se amizades ficarem tocadas, é mau sinal. Nunca é fácil, mas é obrigatório saber separar trabalho e amizade. É frequente produtores e engenheiros terem de improvisar conhecimentos de psicologia e terapia de grupo para gerir a motivação, os egos e as auto-estimas.

Geralmente fica caro porque é improvável que estes profissionais tenham habilitações para tal, para além de que essas sessões não especializadas terão o mesmo preço das horas de gravação.

b) Redundâncias

É frequente os elementos de uma banda partirem do pressuposto, por vezes questionável, de que têm de gravar todas as partes de todas as canções, tal como se estivessem num ensaio. Este pressuposto é habitualmente originado pela seguinte linha de pensamento: «Também estou a bancar a gravação, logo, é óbvio que tenho de gravar todas as minhas partes, independentemente de metade delas ser exactamente igual ao que já foi gravado ontem». Temos aqui um caso claro de redundância que tem de ser resolvido. Há opções:

Caso as duas performances, apesar de redundantes, se complementarem de uma forma que possa vir a tornar-se uma mais-valia para a produção, quer do ponto de vista musical, quer do ponto de vista tímbrico, então gravam-se as duas.

Caso a intenção seja ter o máximo de coesão possível, quer a nível tímbrico, quer a nível de precisão na execução, então será mais vantajoso gravar apenas uma pessoa, de preferência quem compôs a parte ou quem a conseguir tocar de forma mais fluída. Este método poupa horas de estúdio e permitite usar o tempo remanescente da produção de forma mais despreocupada e criativa.

Nunca esqueçam também que quanto mais tempo demorarem a resolver as captações, menos tempo sobrará para a mistura, a menos que assumam as derrapagens no orçamento e no calendário. O objectivo aqui é ter um bom produto final, que dignifique o nome de toda a equipa de trabalho: banda, produtores e engenheiros. Cuidado com os egos!

CONVIDADOS ou PARTICIPAÇÕES ESPECIAIS

Será também de valor agir em antecipação caso estejam a pensar em convidados ou partipações especiais. Quer se trate de um dueto vocal, da adição de uma secção de metais ou do recrutamento de uma banda completa, no caso de um artista a solo, é bom que os calendários estejam perfeitamente sincronizados e os termos e condições bem definidos.

Qualquer imprecisão nestes dois aspectos resultará muito facilmente em derrapagens no orçamento e quebras de prazos. O ideal é entregar boas ferramentas de trabalho a esses músicos, por forma a poderem preparar-se convenientemente.

A demo de pré-produção será muito útil neste cenário. Se acharem apropriado entregar partituras, ficheiros MIDI ou fazer ensaios em conjunto, estarão certamente no caminho certo. Definam bem o que é para ser gravado e tentem coordenar tudo com o estúdio e equipa de produção, nomeadamente agenda, preços e, caso necessário, aluguer de espaço ou instrumentos.

Mas este assunto entra já no departamento da preparação técnica e logística que será motivo de análise no próximo artigo. Podem ler ou recordar o Artigo de Introdução. Artigo Sobre EnsaiosArtigo Sobre a Sala de EnsaiosSobre os Instrumentos. E a Pré-Produção I (a demotape).

FENDER