Gravar Um Bom Disco (E Preparar Tudo o Resto): Instrumentos Musicais

Gravar Um Bom Disco (E Preparar Tudo o Resto): Instrumentos Musicais

Fernando Matias

Fernando Matias, um dos mais entusiasmantes produtores no underground nacional, residente nos Pentagon Audio Manufacturers, criou uma série de artigos com os principais conceitos que devem dominar para criarem e gravarem o melhor disco possível. Neste segmento, os instrumentos musicais.

Os instrumentos musicais são como os automóveis, gostamos muito deles porque nos abrem possibilidades, permitem-nos viajar e associamo-los a momentos especiais das nossas vidas, por vezes são objecto de desejo e obsessão, frequentemente dão problemas, ficamos destroçados quando lhes acontece alguma coisa e fartamo-nos de gastar dinheiro com eles.

Acreditem que se houvesse um “Preço Certo” que, em vez de “um magnífico automóvel”, oferecesse guitarras custom shop e consolas Rupert Neve (sim, uma mesa de mistura também é um instrumento musical), todo um novo tipo de maníacos e alucinados ocupariam a televisão e eu, provavelmente, seria um deles. Todos conhecemos alguém com um Ford Capri de 74 ou um 2CV de 83 em perfeito estado de conservação, com as revisões todas em dia e a trabalhar como um relógio. Carros que nem sempre são bombas, mas que se transformaram em peças de arte apenas por serem belas e funcionais, apesar de, aparentemente, obsoletas.

Era precisamente aqui que queria chegar: um instrumento musical não tem de ser “da bomb” (sim, fiquei agarrado ao Breaking Bad), pode perfeitamente ser um 2CV, desde que trabalhe bem e tenha as revisões em dia. Ensaiar com instrumentos em mau estado é ensaiar mal, ponto. A questão ultrapassa muito o soar melhor ou pior, já vi músicos frustrados e a tocar com dificuldade por “culpa” de instrumentos que não viam uma revisão há demasiado tempo. Já vi instrumentos baratos a fazer melhor figura do que outros várias vezes mais caros, mas mal tratados, já vi instrumentos lindos e polidos a tocar pior do que monos cheios de mossas, mas prontos para o que der e vier.

Resumidamente, um instrumento capaz soa melhor, é mais apelativo e é mais fácil de tocar. Como o espaço aqui é limitado, tal como os meus conhecimentos, vou falar um pouco das categorias de instrumentos mais comuns no universo pop rock. Peço desculpa de antemão a todos os oboístas que estariam ávidos de ensinamentos meus – não sou eu quem vos vai safar, de todo. Entretanto, para estes e outros instrumentos, há cuidados e dicas que poderão descobrir nos manuais de instrução dos equipamentos, ao pesquisar na rede ou até em números e artigos anteriores da Arte Sonora.

GUITARRAS E BAIXOS

Instrumentos com madeira sujeita a tensão são particularmente sensíveis a variações de temperatura e humidade, como tal merecem cuidados continuados. Idealmente, uma guitarra ou um baixo deveria fazer duas revisões ao ano: uma na entrada da estação húmida e outra na entrada da estação seca. Se o vosso intrumento nunca viu uma revisão na vida, preparem-se para gastar centenas de euros; se as fizerem semestralmente gastarão, anualmente, uma fracção disso e parte da manutenção poderá ser feita, gratuitamente, por vocês. A vantagem é que ficarão com um intrumento ready to rock 365 dias por ano, durante muitos anos, e acreditem que poucas coisas dão mais gozo do que pegar numa máquina veterana carregada de histórias, ligá-la a um amp e, sem sobressaltos, ouvi-la cantar. Enche o ego, levanta a auto-estima, e poderá dar uma pontinha de ajuda na criatividade também.

Já se deram ao trabalho, por exemplo, de ler o manual de instruções do vosso machado? Desde dicas de manutenção e limpeza, a instruções para calibrar a ponte e ajustar a curvatura do braço, encontrarão por lá, muito provavelmente, um pouco de tudo. Nunca se esqueçam, no entanto, que as madeiras são mesmo, mesmo, mesmo sensíveis! Sigam as instruções à risca, sejam delicados nos ajustes e se, por um segundo sequer, tiverem dúvidas ou receio de estar a fazer alguma coisa de errado, larguem imediatamente a caixa de ferramentas e levem o vosso instrumento a um profissional. Habituem-se a trocar as cordas com alguma frequência (mais brilho, mais sustain, melhor intonação e um timbre mais musical nunca fizeram mal a ninguém – se não gostarem do brilho excessivo, não se esqueçam que o potenciómetro do tone existe por alguma razão).

Tenham igualmente em mente que um instrumento deve estar preparado para uma afinação específica. Se da primeira para a segunda música do setlist, a diferença for apenas um drop, talvez não seja grave, mas se a terceira malha for um tom e meio abaixo em todas as cordas, é garantido que a coisa vai correr mal. Afinações diferentes pedem setups diferentes, encordoamentos com espessuras diferentes e calibrações de ponte e truss rod específicas. Escusado será dizer que é conveniente comprar cordas exactamente com as mesmas medidas das que foram usadas no setup. Respeitem isto à risca, é meio caminho andado para tocarem de forma mais confortável, mais afinada, partindo menos cordas e desgastando menos o instrumento.

BATERIAS

Uma bateria vive bem sem setups, mas vive muito mal se não for protegida do pó e da humidade, se não tiver cuidados de lubrificação nos elementos mecânicos mais activos e se não for sujeita a uma limpeza de fundo, pelo menos uma vez por ano. Sim, uma limpeza de fundo inclui retirar todas as peles, todos os parafusos, desmontar todas as ferragens, lidar com meia tonelada de cotão e serradura, limpar, lubrificar e voltar a montar tudo novamente. Já ouviram falar em Mecano? É tipo isso. Se não gostarem, temos pena, mas foram vocês que escolheram ser bateristas. Já vos aconteceu moer parafusos? Essa é, precisamente, uma das consequências de se tratar uma bateria de forma negligente.

Se fizerem um fim-de-semana de limpeza e lubrificação anual à vossa bateria, é garantido que tudo funcionará melhor durante mais anos. Informem-se nas instruções do instrumento ou na rede sobre os truques, os melhores produtos de limpeza e que substâncias agressivas evitar. Tal como os guitarristas e baixistas com as cordas, habituem-se a trocar as peles com alguma frequência e, pelo amor de todos os santinhos, aprendam, se precisarem, a afinar uma pele – mais brilho, mais sustain, melhor intonação e um timbre mais musical nunca fizeram mal a ninguém. O baterista é, provavelmente, o tipo mais sujeito a piadas foleiras no universo musical. Está na altura de quebrar a rotina e fazer a vossa bateria cantar.

INSTRUMENTOS E EQUIPAMENTOS ELECTRÓNICOS

Instrumentos com partes eléctricas/electrónicas (e volto a alargar a categoria de instrumento musical aos amplificadores, pedais, PAs, mesas de mistura, sistemas de monição, computadores, interfaces áudio, etc.) precisam também de atenção redobrada com o pó e humidade, para além de corrente eléctrica estável, sem picos ou falhas frequentes.

A VOZ

Há como que um tema tabú em torno dos vocalistas, que gera frequentemente algum mal-estar, e que passa pela noção generalizada de que um cantor é aquela personagem mais ou menos arrogante e muito cheia de si própria que aparece no estúdio e nos concertos de mãos a abanar, com um ar razoavelmente descontraído e que, sorrateiramente, se aproxima de quem lhe parecer mais prestável (ou menos irascível) para lançar a pergunta fatal: «Por acaso, há por aí um microfone que possa usar?», seguida da pergunta «Ah… E um tripé e um cabo?», e depois, «a estante de partituras?», e depois «onde está a minha monição?», e depois «dá para pôr um bocado de eco na voz?» e finalmente «o cházinho de perpétuas roxas».

Ora bem, passa-se o seguinte: qualquer músico que se leve, minimamente, a sério vê-se na obrigação de fazer um esforço de montar um sistema funcional para conseguir tocar, que invariavelmente custa largas centenas ou milhares de euros. Não é compreensível a razão pela qual um cantor tenha de ser a excepção. Ter o próprio microfone, cablagens, processamento de sinal, tripés, estantes, monição, não só é recomendável como deveria ser obrigatório. Vá lá, vocês são já, quer queiram, quer não, o centro das atenções. Ter o próprio equipamento e saber tratar dele não vos fará mal nenhum e contribuirá para um mundo substancialmente melhor.

ESCOLHER O VOSSO EQUIPAMENTO

Sendo o instrumento musical o veículo de transmissão da voz do artista, também ele tem uma palavra a dizer na sua performance. O músico expressa-se usando a sua criatividade e recorrendo ao seu léxico/vocabulário musical, mas as ferramentas que usa também afectam a sua expressividade e definem o seu estilo. É impossível pensar em Angus Young  sem uma Gibson SG ou em Lemmy Kilmister sem um Rickenbacker 4001.

Procurar a vossa voz é também procurar pelos equipamentos que a amplifiquem da forma como a querem ouvir – é parte fundamental da vossa identidade enquanto autores. O ponto de partida ideal é pesquisar sobre o som dos artistas que vos inspiram e, a partir daí, sejam originais, experimentem e partam à descoberta, não fiquem à espera que a maçã vos caia em cima da cabeça. A nossa intenção aqui é preparar um bom disco, por isso lembrem-se sempre que em primeiro vem o músico, mas logo a seguir vêm os instrumentos que lhe dão a voz.

Podem ler ou recordar o Artigo de Introdução, AQUI. Artigo Sobre Ensaios, AQUI. E o Artigo Sobre a Sala de Ensaios AQUI.

FENDER