Alter Bridge, A Arte de Demolir a Sala Tejo

Alter Bridge, A Arte de Demolir a Sala Tejo

2019-12-06, Sala Tejo - Altice Arena
Rodrigo Baptista
ines barrau
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Perante uma Sala Tejo esgotada, os Alter Bridge apresentaram o seu hard rock musculado pejado de vocais e solos de guitarra vibrantes.

Numa altura em que a Sala Tejo, da Altice Arena, tem vindo a ganhar terreno dentro do circuito de concertos lisboetas, esta pareceu ser a escolha mais acertada tendo em conta a dimensão e popularidade que os Alter Bridge já gozam em Portugal (o Coliseu será sempre a nossa sala preferida). Por outro lado, a sua configuração (estilo pavilhão desportivo) certamente traz algumas memórias ao pessoal da velha guarda, podendo fazer relembrar o mítico Pavilhão do Dramático de Cascais ou do Restelo, por exemplo.

Nesta que foi a terceira incursão da banda de Myles Kennedy e Mark Tremonti por terras nacionais, o grupo fez-se acompanhar pelos britânicos The Raven Age e pelos norte americanos Shinedown. Repetentes em Portugal, tendo actuado por duas vezes na Altice Arena como suporte aos Iron Maiden, os The Raven Age voltaram a não deslumbrar, o seu metalcore melódico soou embrulhado, sem nunca permitir que a voz de Matt James conseguisse furar pelo PA. A banda de George Harris, filho de Steve Harris, tarda em afirmar-se na cena rock/metal e não parece que ontem tenha conseguido ganhar muitos fãs, tendo em vista a abstenção do público durante a sua actuação. No entanto, não poderemos acusar os The Raven Age de falta de entrega.

Os segundos convidados da noite foram os estreantes Shinedown e, sejamos sinceros, se alguém estivesse a chegar à Sala Tejo a meio do concerto da banda de Jacksonville, facilmente poderia pensar que estaria a assistir aos cabeça de cartaz. Com um set de uma hora e com, possivelmente, o melhor som das três bandas que subiram ao palco, os Shinedown apresentaram-se para um público conhecedor, que sabia as letras na ponta da língua, e notava-se que a banda  já era esperada há muito em Portugal. Com o vocalista Brent Smith a puxar constantemente pelo público, tendo inclusive procurado maior interactividade quando saltou para o meio da plateia e por lá andou a passear. O destaque do concerto vai para uma exemplar cover de “Simple Man”, o eterno clássico dos seus conterrâneos Lynyrd Skynyrd que, de certa forma, nos pregou uma agradável surpresa.

 

Servidas as entradas, hora do prato principal. Como mote os Alter Bridge trouxeram o seu mais recente “Walk The Sky”. Com enfoque numa nova produção cenográfica, o tradicional backdrop deu lugar a várias tiras de ecrãs led, onde foram projectadas animações ao longo de todo o concerto. No entanto, nada que faça o ouvinte/espectador desviar a atenção do que realmente interessa que é a música e os seus intervenientes. A entrada com o recente single “Woudn´t You Rather” não poderia ter sido mais apoteótica, com os fãs a demonstrarem a lição bem estudada. Sem grande falatório e com o pé sempre no acelerador, os Alter Bridge desferiram malha atrás de malha, petardo atrás de petardo, passando por clássicos como “Isolation”, “Come To Life” ou ” Ghost of Days Gone By”, logo no período inicial.

O som que se revelou pouco perceptível e algo confuso do ponto de vista da mistura foi uma constante ao logo de todo o concerto, não só interferindo em partes instrumentais fulcrais como foi o caso dos solos, mas também em partes vocais como, por exemplo, na faixa “Forever Falling”, cantada por Tremonti, onde o volume do seu microfone se encontrava extremamente baixo.

Já do ponto de vista da performance, os quatro músicos estiveram sempre exemplares. Myles Kennedy, do alto dos seus 50 anos feitos há sensivelmente uma semana, não se conteve tanto como quando o vimos em Março, no Campo Pequeno, com Slash. Mais à vontade com uma guitarra nas mãos, Myles mostra-nos a sua faceta de virtuoso em faixas como a poderosa “Cry Of Achilhes” ou a sempre épica “Blackbird”. Seja com recurso aos seus modelos PRS (McCarty e SC 245) ou à sua mais recente aquisição para esta tour, uma Fender Telecaster de 1978, o segredo parece estar no feeling com que Myles canta e dedilha as cordas da guitarra.

Em relação a Tremonti, o que dizer sobre este mostro da guitarra, poucos dias depois de ter sido eleito o melhor guitarrista da década, pelos leitores da conceituada revista Guitar World? Tremonti apresenta todas as características que fazem um guitar hero dos tempos modernos, destacando-se pela sua destreza, emoção e qualidade técnica com que percorre o braço das suas PRS Signature ou da sua Tremonti PRS Concept Guitar. Aspectos técnicos bem salientes em malhas como “Metalingus” ou “Open Your Eyes”. Já o som de Alter Bridge nunca poderia estar completo sem a potência de uma secção rítmica que se revela cada vez mais coesa, através do baixo de Brian Marshall e da bateria de Scott Phillips.

A caminhar a passos largos para o fim, surge o momento mais emotivo e de maior comunhão entre o público e a banda. Em “Watch Over You”, Myles aparece sozinho em palco com a sua guitarra para o que parecia ser uma versão totalmente acústica do tema e onde o público foi acompanhando a letra. No entanto, na bridge da música, a banda entra a rasgar, dando à composição um carácter ainda mais sublime. “Open Your Eyes” aquele hit que obviamente mete a maioria da sala a cantarolar.

As despedidas chegaram ao som de “Godspeed” e “Addicted to Pain”, esta última com algum mosh à mistura. Foi o ponto final nesta epopeia rocker que, certamente, deixou um certo desejo no ar para uma eventual sequela num futuro próximo.

SETLIST

  • Wouldn´t You Rather
  • Isolation
  • Come To Life
  • Brand New Start
  • Pay No Mind
  • Ghost Of Days Gone By
  • Native Son
  • Rise Today
  • Take The Crown
  • Cry Of Achilles
  • Forever Falling
  • Watch Over You
  • Blackbird
  • Open Your Eyes
  • Metalingus
  • Godspeed
  • Addicted To Pain