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André Henriques

Cajarana

Sony Music, 2020-03-13

EM LOOP
  • Uma Casa na Praia
  • As Melhores Canções de Amor
  • De Tudo O Que Fugi
Nero

“Cajarana” é o elegante álbum de estreia de André Henriques. Filho espiritual do legado dos Linda Martini, o disco apresenta maturidade nas composições e uma linguagem musical cativante.

“E de Repente” foi o tema de arranque, ainda no final de 2019. A música foi apresentada conjuntamente com um vídeo que contou com a realização de Joana Linda. A mesma artista juntou-se a André Henriques para assinarem o vídeo de “Uma Casa na Praia”, bem como as fotos promocionais do álbum. O design do álbum tem a assinatura do colectivo Dobra. A gravação e mistura tiveram a chancela de Nelson Carvalho, nos Estúdios Valentim de Carvalho. “Cajarana” é o título escolhido por André Henriques, que dividiu a produção do seu álbum de estreia com o músico e produtor brasileiro, Ricardo Dias Gomes (colaborações com Caetano Veloso, Adriana Calcanhoto ou Jesse Harris).

A inspiração para o nome do álbum remete para a novela brasileira da década de 80: “Pai Herói”. «O personagem principal, interpretado por Tony Ramos, chamava-se “André Cajarana” e eu, como era o único André na minha escola, ganhei uma alcunha que detestava. É uma memória de desconforto e de construção de identidade, duas questões com as quais me debati quando decidi fazer um disco a solo», confessou o músico.

E os Linda Martini? Naturalmente que estão presentes, quase como se este disco fosse um legado espiritual da banda. É natural, até pelas idiossincrasias vocais de Henriques. Fisicamente, o músico escolheu afastar-se tanto quanto possível daquilo que desenvolve com a sua banda, forçando as suas fronteiras musicais de forma exemplar.

“Cajarana” recorre na sua base às ferramentas clássicas do rock, mas a exploração dos universos da sintetização (minimal, de certa forma) e da guitarra acústica (como protagonista instrumental), revestem a voz de Henriques e a sua elegância métrica de maior charme e de um sentido mais rítmico, transportando um sentido próximo à nostalgia provocada pelo fado e pelos sons da diáspora portuguesa e da sua miscigenação, da bossa e da morna.

A sua maturidade enquanto autor é notável, com letras eloquentes e musicais, com respeito pelas suas referências, sem as tornar óbvias. Excepto talvez em “As Melhores Canções de Amor”, que destila distintamente aquele pós fado ébrio-boémio dos Dead Combo. Há arestas por limar. Por exemplo, “Platão Pediu Um Gin” soa brusca e os licks de guitarra que surgem entre cada verso e os apontamentos solo com distorção posteriores parecem relacionar-se de forma pouco orgânica com o restante corpo instrumental. Uma sensação que é acentuada pela dinâmica exemplar de contrastes em tudo similares logo no tema seguinte, “O Seu Melhor Chapéu”.

No fundo, há duas ou três canções que soam algo decorativas no disco. Até porque, na sua larga maioria, a autoridade das canções impõem-se de forma natural logo nas primeiras audições. E isso é a maior prova do talento do músico que, assumindo o risco, despiu as canções ao mínimo essencial (muitas vezes só ele e a viola). Depois, a repetição da escuta do álbum vai-nos oferecendo detalhes que, nunca muito ocultos, se tornam mais evidentes.