Bon Iver

2012-09-25, Coliseu dos Recreios, Lisboa
Nero

Em pleno Verão o Inverno chegou a Lisboa. Bon Hiver então! A saudação entre si dos habitantes de Cicely, em “Northern Exposure”, aquando da chegada das primeiras neves (e mal transcrita por JUSTIN VERNON a braços na altura com uma mononucleose), e agora endereçada da boca do palco do Coliseu dos Recreios. Que com a ajuda de umas quantas redes e luzes, recriando estalactites e estalagmites, se transformou em boca de caverna. Quiçá uma das muitas cavernas onde, durante o inclemente Inverno do Wisconsin, os ursos hibernam de tripa forrada, sonhando com as bagas da primavera. Esta caverna de urso cénica invocará talvez o espaço da cabana onde VERNON em tempos hibernou e compôs o álbum de estreia “For Emma, Forever Ago”. Destilando a doença, e outras dores que lhe corriam pelo peito. Ou então representará a nossa própria caverna interior, situada entre as têmporas, em que cedo ou tarde adentramos para escapar ao frio que corta a pele.

É assim apropriado que o concerto comece com “Woods”. VERNON sozinho em palco, somente uma voz na escuridão, que com o recurso a efeitos vai sendo ampliada, distorcida, multiplicada em muitas vozes, todas gritando a mesma frase, aquela que tão bem define o solo onde assenta todo este projecto: “I am up in the woods, I am down on my mind, I am building a still, to slow down the time!”

A banda que acompanha VERNON é extensa, espalhando-se por todo o palco e é, sem sobra de dúvida, um dos factores que metamorfoseia aquilo que seria uma das muitas variações folkianas que provém das terras invernais dos USA e Canadá em algo maior. Mais ritmado. E mais orgânico. Heavy metal do período da Guerra Civil? Psicadelismo hill billy? Heartbreak SteamPunk? É divertido criar novas gavetas para o que estamos a ouvir. Isto é a música vinda da cabeça de alguém que cresceu na década dos solos de saxofone, da electrónica cool e dos neo românticos, mas a ouvir muito vinil gasto dos anos vinte e trinta. E, quem sabe, a ouvir coisas que nunca chegaram ao registo gravado, apenas tradições musicais orais criada em longos serões de escuridão.

“Perth” e “Minnesota, WI”, a primeira uma quase marcha militar para soldados caídos nas trincheiras do amor, a segunda, de toada “jazzística”, o som da guerrilha que continua a resistir silenciosamente na clandestinidade. “Flume” é o primeiro sinal do primeiro álbum e o intimismo faz-se sentir. São canções mais próximas, mais interiores. “Towers”, “Hinnom, TX” e “Wash” pousam-nos num território mais suspenso, mais planante. O piano é introduzido. São músicas mais difíceis para uma considerável percentagem de pitas berrantes que compõem a sala.

Ivernettes? O silêncio ainda não é de maneira nenhuma um dado adquirido nestas idades. Há muito grito histérico a abafar o início das músicas e só progressivamente o talento da banda vai embalando e adormecendo a excitação das crianças. Iverites? É sempre bom saber que um trintão barrigudo, com entradas e suíças, que canta maioritariamente em falsete consegue gerar tamanha comoção! Ivermania?

A banda transforma “Creature Fear” num animal diferente ao vivo. Os metais são aqui incorporados na música. Metais pesados na água musical que a tornam não mais tóxica, mas mais densa, com um final em crescendo. “Holoscene” conserva toda a sua beleza tranquila e melancólica. “BloodBank” é uma daquelas músicas que qualquer músico, digno desse nome, desejaria ter escrito, aqui com um ritmo de bateria compassado a fazer subir a temperatura do sangue na sala! “Skinny Love” é a música que está mais presente nos ouvidos e nas gargantas do povo, mas antes de se poder entoar o “nanana” uma pausa forçada: é necessário afinar a guitarra que já está velhota: “It´s older than Portugal”, diz VERNON e nós acreditamos. É bem capaz disso. Há guitarras que são velhas como o mundo!

“Calgary” arranca com os teclados épicos, quase anos oitenta, e navega por mares que sofrem agora o efeito do degelo. As águas que eram gelo aqueceram e agora fluem livremente! E fluem em “Lisbon, OH” e fluem em Lisboa, Portugal! Minimalismo electrónico conduzido por um fio de guitarra é a âncora que assenta e firma o barco neste novo porto. Após muita navegação à bolina VERNON finalmente atracou numa cidade que é feita para ele. E parece gostar do que vê à sua volta. Lisbon, OH meets Lisbon, EST! “Beth/Rest” encerra o capítulo principal!

O Coliseu está em ebulição. Regresso para o encore. VERNON ensaia o público para o refrão de “The Wolfes (Act I & II)”, não que tal seja necessário, avisando para começar de forma calma e para simplesmente gritar no final. Já se grita, muito, desde o início da função. E assim grita-se, também, no fim: “What might have been lost?”

Conclui-se com “For Emma”. Para quem? Cada um saberá de si. E da sua resposta. Cada um terá a sua! Não é realmente uma pessoa. É um estado de espírito. As luzes acendem-se. A banda aproxima-se para o aplauso à boca da caverna. Despedida por agora. Em Outubro há mais. Quando o termómetro começa a descer e o frio a instalar-se. Bon Iver. Bon Hiver! Feliz Inverno!