Boogarins @Musicbox: É difícil de explicar

Boogarins @Musicbox: É difícil de explicar

2016-09-03, Musicbox, Lisboa
Pedro Miranda
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O quarteto goiano apresentou “Manual” pela última vez em Lisboa perante casa cheia.

Mais do que relatar o percurso de uma banda em rápida ascensão, tocando um neo-psicadelismo simultanemante moderno e nostálgico, falar dos Boogarins é falar de quatro rapazes goianos repletos de boas intenções que, pegando numa sonoridade já bem estabelecida, viram-se de repente reconhecidos internacionalmente. Não é um fenómeno totalmente alheio aos palcos portugueses (as espanholas Hinds conheceram por cá um pico de fama semelhante durante este ano), este de se estar ímpar em matéria de fama e atitude – estas modestas estrelas de rock internacionais não resistem, afinal, a falar e agir de igual para igual com a sua plateia, e foi visivelmente com muito prazer que os Boogarins vieram à capital devolver o amor que lhes tem sido dirigido desde que “Manual ou Guia Livre de Dissolução dos Sonhos” explodiu em terras lusas.

E fizeram-no, sem surpresas, com toda a familiaridade e à vontade de quem já se conhece a largos anos, mesmo que as passagens do grupo por Lisboa só se tenham iniciado no ano passado. Conversas descontraídas entre canções, a ocasional passagem do charro entre a plateia e a banda, e até bolo com velas e parabéns (o aniversariante era Ynaiã Benthroldo, baterista do grupo) pontuaram uma performance instrumentalmente prodigiosa e sonicamente irrepreensível. A voz angelical e iminentemente doce de Dinho Almeida encaixava-se na perfeição nas suaves e ondulantes passagens de guitarra que compõem as disposições inebriantes dos Boogarins, e o jeito dos ritmos da sua terra-natal dava azo a um certo psicotropicalismo que os distinguia confortavelmente dos Tame Impalas Unknown Mortal Orchestras a que são frequentemente comparados, ainda que fizessem uso recorrente dos timbres do primeiro e batidas do segundo.

E foi “Manual”, o disco com que, afinal, se vieram apresentar, o que mais apareceu e melhor soou ao Musicbox lotado e esgotado que se tinha apresentado para o testemunhar. “Falsa Folha de Rosto”, “Tempo”, “6000 Dias” e a formosa “San Lorenzo” estão entre os destaques do disco que brilhou entre as quatro paredes do recinto, que recebeu também temas de “As Plantas que Curam” e ainda, em primeira mão, canções do ainda em gravação terceiro registo longa-duração da banda. Mas ainda assim, não é fácil apontar exactamente o que fez da actuação dos Boogarins um tão ressonante sucesso. Ao excelente som, prolongadas e ambiciosas passagens instrumentais e inabalável boa-disposição dos seus integrantes, juntar-se-ia ainda um sentido de comunhão fervoroso, como se todos estivessem ali, em antecipada união, para contemplar em admiração a música que se criava, desfrutando tanto dela como da companhia de uns dos outros. Como os próprios foram capazes de verbalizar, com acertada abstracção: é bem difícil de explicar, mas de entender… nem tanto.