Depeche Mode: A Corda Bamba

Depeche Mode: A Corda Bamba

2017-07-08, NOS Alive, Passeio Marítimo de Algés
Carlos Garcia
  • 7
  • 8
  • 8
  • 8

A encerrar o palco principal do NOS Alive, aquilo a que se pode chamar uma das máquinas mais bem oleadas da música contemporânea regressou a Portugal.

Os Depeche Mode andam nestas andanças há muito tempo e têm todo um sistema montado de como conduzir um concerto. As grandes bandas (grandes no sentido de arrastarem largas multidões, com um lote de canções que já praticamente fazem parte da memória colectiva e que, como tal, são reconhecidas mesmo por quem não é um devoto), principalmente aquelas com muitos anos de carreira, tem sempre um dilema interessante pela frente. É muito difícil subir a um palco e impor uma performance que seja fresca. Já tocaram aquelas músicas literalmente milhares de vezes, com todas as variações de ritmos, coreografias, coros que é possível conceber. Existem apenas tantas variações de montar um espectáculo à volta de um determinado lote de músicas. Alternativas? Mudar completamente de identidade de x em x tempo? É possível, mas implica riscos consideráveis, e será que uma banda pode manter a mesma nomenclatura se aquilo que abriga debaixo do nome é para todos os efeitos um paradigma musical diferente? E o repertório anterior, deixa-se cair, ou faz-se um update para ser musicalmente coerente com as novas músicas? Outra opção é o recurso a digressões mais pequenas, focadas apenas num único álbum ou período (a actual Joshua Tree Tour dos U2 é um exemplo disto). Existe um risco tremendo de se entrar numa “mesmice”, em que estar a ver a banda a tocar ou assistir a uma gravação holográfica 3d de um concerto anterior seja exactamente a mesma coisa. Se calhar esse é o futuro, em que uma banda grava o seu concerto standart, com todos os seus tiques e imagens de marca, e esta gravação que percorre os palcos mundiais, com os artistas confortavelmente em casa a beber chá e a ver as suas próprias performances na televisão. Quem sabe?

Os Depeche parecem ter alguma noção destas questões (afinal isto é uma banda que sempre se moveu entre fazer pop pura e dura que alcance o maior número de pessoas, com um certo grau de experimentação electrónica e sonora, uma fusão que sempre terá detractores) e ao vê-los subir a um palco, sabendo que estão a fazer algo que pode ser executado de olhos fechados, em puro piloto automático, é interessante perceber que existe ali um andar na corda bamba entre a rotina e a frescura.

A banda chega a Portugal no lançamento de “Spirit”, um álbum em que as questões de fé e redenção que caracterizam o conteúdo lírico de Martin Gore dão um lugar a uma visão muito mais política. Um reflexo da época polarizada em que se vive, em que as grandes questões do mundo actual pedem uma participação mais activa. “Going Backwards” abre o concerto: “We are not there yet, we have not evolved” uma ilação sobre o estado do mundo, uma reflexão sobre os próprios Depeche, quiçá? Será inevitável que uma banda composta de pessoas, que de estúpidos não tem nada, se questione sobre qual o seu lugar no panorama actual. Faz ainda sentido existir enquanto colectivo, criar canções, presidir a estas grandes missas colectivas? Somos ainda relevantes? “Barrel of a Gun” com a sua pulsão industrial foi a música que marcou o regresso de David Gahan da espiral tóxica em que este se havia enfiado, e ao vê-lo em palco, hoje em dia, a rodopiar e a apreciar cada momento, faz sentido pensar que está ali um homem que tem plena consciência que esteve perto da saída. Um factor importante a ter em conta na equação de estarmos só a assistir a uma máquina cínica e rotineira de fazer dinheiro, ou um grupo de músicos que aprecia o que faz e que tem um desejo sincero de criar conteúdo actual.

Um factor importante a ter em conta na equação de estarmos só a assistir a uma máquina cínica e rotineira de fazer dinheiro, ou um grupo de músicos que aprecia o que faz e que tem um desejo sincero de criar conteúdo actual.

A versão de “In your Room” é a de “Songs and Faith and Devotion” (subjectivamente o melhor álbum dos Depeche Mode), e vem acompanhada de um vídeo do quarto membro da banda, o fotógrafo/realizador Anton Corbjin. Estes novos videoclips de Corbjin são, aliás, uma constante ao longo do concerto, com graus diferentes de eficácia. Vídeos como o de “In your Room” ou “Walking in My Shoes”, embora sejam bem-sucedidos em si próprios são talvez demasiado distractivos como projecção de palco. A abstracção Lynchiana com animais em “Enjoy the Silence” é muito mais eficaz.

É em músicas como “World in My Eyes” que se sente mais o peso dos anos, há ali qualquer coisa de “passé” que contrasta com o resto do repertório. “Cover Me” com os seus sintetizadores planantes é agradável mas não acrescenta muito. “Judas” é mais um regresso a “Songs” e é um prazer que tantas músicas deste álbum tenham sido incluídas no alinhamento. Martin Gore a sós com o piano e o coro da multidão providenciam um momento de pausa antes de “Where’s the Revolution”, uma das melhores canções de Depeche dos últimos anos. O tom político segue com swing industrial de “Wrong” (uma das melhores da noite, com Gahan a fazer o seu trotear em palco e uma projecção de fundo muito inspirada pela capa de “Unknown Pleasures” dos Joy Division), e o manifesto anti capitalista disfarçado de canção pop de estádio “Everything Counts”. Esta é tocada com um registo mais minimal e electrónico e aqui se vê que o momento de Pasadena nunca poderá ser repetido, foi único e tendo ficado registado é essa a nossa memória da canção. Tentar recreá-lo soa sempre a falso. Expectativas do passado vs a honestidade do presente. Rotina e frescura. A corda bamba sempre presente.

“Stripped” soa muito mais actual e “Enjoy the Silence”, com um beat de dança mais pronunciado prova que existe aqui uma tentativa por parte dos Depeche de explorar e revisitar a estrutura das suas músicas, uma forma de não deixar a complacência se instalar. “Never let me Down Again” conclui o concerto antes do encore.

“Home” providencia a melhor interacção entre público e banda da noite com o coro espontâneo do público que se prolonga bem para lá do fim da música. Estes momentos só resultam verdadeiramente quando não ocorrem a pedido. Dose dupla de “Songs of Faith and Devotion” com “Walking in my Shoes” e “I Feel You”. Foi de longe o álbum mais tocado da noite e bem merece que a sua excelência tenha sido relembrada. “Personal Jesus” termina o concerto, a música que encerra em si todas as temáticas que caracterizam a banda, as questões da procura de espiritualidade num mundo de plástico, a fusão das guitarras com os sintetizadores, o orgânico com o electrónico. Esta banda, e a sua existência em palco, ainda faz sentido? É no fundo uma pergunta sem resposta porque nunca o poderá ser de forma objectiva. E existem contingências mais gerais sobre qual deve ser o ciclo de vida de uma entidade musical que não podem ser resolvidas por esta ou aquela banda em particular. Mas aqui sente-se que ainda existe um esforço dos músicos em manter a vitalidade daquilo que fazem, oleando a sempre inevitável ferrugem que o passar do tempo, o desgaste e as rotinas trazem. Podem não ser completamente bem-sucedidos nessa missão (e será que é realmente possível sê-lo?) mas o equilíbrio na corda bamba está lá. Dave Gahan, Martin Gore e Andy Fletcher conseguem ainda atravessar o abismo e chegar ao outro lado como a grande banda que sempre foram.

Fotos: Tomás Lisboa