Estas Tonne, O Silêncio na Era do Ruído

Estas Tonne, O Silêncio na Era do Ruído

2018-10-09, Casino Estoril
Carlos Garcia
9
  • 10
  • 9
  • 8

Abdicando do aparato ilusório do entertainement, Estas Tonne foi um trovador que usou a alma para cativar o público. No salão “preto e prata” foi igual a si próprio, um músico de rua.

Vivemos em tempos estranhos e paradoxais. Um determinado grau de certeza, que ilusoriamente pairou sobre o mundo desde o fim da guerra fria, tem progressivamente vindo a esfumar-se, caindo a fachada da solidez das coisas como caem bolsas e explodem bolhas e rebentam guerras e detonam-se democracias. E os tempos estranhos trazem movimentos igualmente bizarros.

Tomemos por exemplo o Estoril, em tempos a Riviera portuguesa, terra mítica e glamorosa de um passado recente, mas cada vez mais distante, ponto de encontro de espiões, condes exilados, refugiados de outras guerras, fazedores de sorvetes italianos e de surfistas em transição para outras praias. No centro de tudo o seu célebre casino, que dizem ter sido a inspiração para Ian Fleming na criação da primeira aventura do seu 007. Décadas se passaram, apesar da majestade à qual James Bond está ao serviço continuar tecnicamente a ser a mesma, e algures nas voltas do tempo já não temos o casino clássico, de perfil Art Deco, mas a actual fantasia pós moderna, toda ela luzes e néon e cromados e reflexos e maquinetas hipnotizadoras que convidam a mais uma volta e mais uma moeda. Nota. Cartão de crédito. Bitcoin.

De Las Vegas a Macau, os casinos são o lugar pós-moderno por excelência, os grandes templos do pós religião e do pós política e do pós ideologia e do pós tudo. A par do Centro comercial e do Cruzeiro, são na sua imensidão plástica as grandes catedrais do (aparente) fim da história.

ERA UMA VEZ…

Mas a história, já se dizia, é interminável e é sempre contada de um qualquer lugar sem tempo. De preferência ao redor de um fogo. O fogo, esse, chegou uns dias antes, descendo pelas encostas da serra sagrada até ao encontro do mar que bordeja Cascais e o Estoril. E as estórias vieram do lado oposto, na bagagem de Estas Tonne. Este não se apresentou em terras lusas trajando o smoking que uma sala muy pomposamente designada de “preto e prata” poderia requerer como código de vestimenta. Tampouco alguém o confundiria com um agente secreto britânico, embora, com o seu nome exótico e a sua figura de Sandokan musical, pudesse ser seleccionado como o vilão exótico de serviço na película. Mas Tonne não veio para fazer filmes, veio para contar histórias. Que essas histórias sejam contadas maioritariamente por música e não por palavras só será surpreendente para a nossa mente colectiva contemporânea, demasiado literal, demasiado habituada aos malabarismos da linguagem verbal. É, literalmente, a nossa ferramenta mais habitual de passar a mensagem e o testemunho e a fonte de quase todos os nossos enganos e devaneios. Fake stories. Fake news. Fake words. (E se se der aqui o paradoxo de isto estar a ser escrito por palavras, bem…  É nele e com ele que teremos de existir).

Tonne perceberá instintivamente o poder das palavras e o seu cada vez mais frequente mau uso e abuso, e, por isso, usa-as de forma esparsa. Bota o discurso somente no início e no fim da função, como parêntesis. De forma pausada e consciente. Como quem mede o impacto de cada sílaba à moda antiga, com fio-de-prumo e em polegadas. Pelo meio, no enorme intervalo, dá-nos música. Ou conta estórias. Ou a história. Que é a mesma coisa para quem tem ouvidos de ouvir. Para quem o tilintar constante, ininterrupto das slot machines da vida (ou auto-rádio, televisão, iPad, iPhone, rede associal, WhatsApp, What’s up Wassupppp, plim, plim, plim……) ainda não deu cabo dos tímpanos, da paciência, do juízo. Do discernimento.

Estas Tonne vem da tradição do busking, da arte de rua, do tipo que toca nas esquinas da urbe, da arte de hipnotizar alguém que vai a caminho de qualquer outro lado e de fazê-lo parar nas escadas do metro, na praceta, a meio da pressa e da alienação.

Estas Tonne vem da tradição do busking, da arte de rua, do tipo que toca nas esquinas da urbe, da arte de hipnotizar alguém que vai a caminho de qualquer outro lado e de fazê-lo parar nas escadas do metro, na praceta, a meio da pressa e da alienação. E, como é comprovado pelos grandes nomes que, de vez em quando, fazem a brincadeira inversa ou saltam dos palcos da fama para o anonimato da rua, tirar o afogueado passante da sua rotina hipnótica não é tarefa fácil. O performer fá-lo-á com espectáculo, luzes e inovação. Como o fazem num casino. O trovador só pode fazê-lo com a alma.

Em outros tempos, que podem igualmente igualmente ter sido estranhos e paradoxais, os trovadores deambulavam pela já extinta Occitânia até terras de Itália. Espanha. Portugal. Muitas vezes músicos na rua, também tocavam aqui e ali no palácio e na corte. Poderia até coincidir que o portador da guitarra fosse também o portador da coroa. O poder temporal e atemporal. Em algo semelhante a um moderno salão da corte, Tonne está em palco com um minimalismo cénico que contrasta em tudo com a profusão de luzes e néon e pims de onde se acaba de emergir. Focos fixos, esbranquiçados, incidindo directamente na cadeira solitária do centro do palco, fundo de pano azul discretamente a ondular, a presença da pequena câmara robot que percorre, qual drone encarrilado, a boca de cena, o único lembrete visual da panóplia tecnológica que se desligou à porta (porque felizmente, por uma vez que seja, a audiência não está mergulhada num mar de ecrãs portáteis). Outro tempo. O tempo da música. Pode ser concerto, mas pode também ser ritual. Tonne prefere chamar-lhe de viagem sonora. Porque é com a música que se vão tecer as narrativas com que se formam as estórias da história. E as palavras, essas são murmuradas só como jeito introdutório, como que estabelecendo o espaço de transição entre dois mundos. O prólogo que introduz sem mais delongas a narrativa. Era uma vez…

Tonne toca a guitarra clássica, mas não é propriamente um clássico. Pode-se perceber a escola da Andaluzia a informar a abordagem aos acordes, mas como o próprio disse uma vez, isto não é flamingo nem flamengo. Tonne é daqueles músicos que parece menos interessado em estilos ou escolas musicais, mas sim em utilizar a ressonância dos instrumentos, a vibração da caixilharia de madeira, a vibração das unhas nas cordas, para estabelecer uma comunicação.

PARADOXO

Vivemos em tempos estranhos e paradoxais em que uma audiência já não assiste propriamente aquilo que se passa directamente à sua frente, utilizando a tecnologia do telemóvel como um filtro que peneira a realidade à sua frente, reduzindo-a a bits e bytes, em pixeis de alta ou baixa definição, conforme a câmara. Conforme as bolsas. Aqui isso não é possível. A audiência torna-se boquiaberta com “uus” e “aas” perante panóplia de visuais que percorrem os ecrãs de palco. Aqui isso não é possível. A audiência procura o imediato do hit que fica no ouvido e que se ouviu na pista de dança de Verão ou no anúncio televisivo ou no clip viral. Aqui, como isso é não possível, é necessário estar presente. Não passado. Compassado talvez. O músico em palco é de uma escola tão velha que jamais se poderá tornar retro chique. Não veremos isto ser alguma vez a ser servido requentado, reaquecido em t-shirts pop, entre a nostalgia e a ironia. Isto é música da “atemporalidade” porque é a música da alma.

A viagem sucede-se  em movimentos distintos, feitos de acelerações, travagens suaves, alguns solavancos metafísicos. A guitarra é, às vezes, apenas sussurro de chorinho, rendilhado de notas delicado. No extremo oposto, sobe-se até ao trovão, ribombar percussivo. Acompanhado de algo que noutro quadrante poderia ser headbangingMetal Tonne. O início é clássico, conciliatório, quase burguês, aquilo que um espectador que tivesse entrado casualmente no Preto e Prata esperaria ao ver um Jesus Cristo cigano em palco. Mas a curvas da viagem trazem surpresas e estas vêem quando o ouvinte já está relaxado e embalado no seu assento. O fim de cada movimento vem acompanhado do ofegar da respiração, um aterrar orgânico no aqui e agora para aqueles que, no meio de notas e acordes, se possam ter ficado perdido nos seus labirintos internos. E uma lembrança que sim, é um ser humano que esteve ali em palco nos últimos minutos a produzir aqueles sons. Progressivamente Tonne vai introduzindo tonalidades mais inesperadas, às vezes quase atonais sem serem propriamente mais desarmónicas. Mais angulares talvez. Mais complicadas. A introdução da Loop Station vai criando corpo nas composições, sobrepondo camada sob camada, e aquilo que começou como uma performance individual, parece desmultiplicar-se em vários eus. Não tanto uma banda em palco. Mais como ecos dimensionais da mesma essência.

Se a viagem fosse uma estória (e é uma estória, porque o trovador narra mesmo quando não o faz por palavras), seria talvez a mais antiga das narrativas, aquela que é contada, uma e outra vez, à volta de fogos, desde que o mundo é mundo e se contam estórias. Poderia ser assim: A terra está em ruptura. Por todo o lado as forças da desarmonia e do caos despontam. O centro não se aguenta. O povo desespera. O herói necessita de empreender uma viagem para adquirir o objecto “mágico/tesouro/feitiço/thingamajig/whatchamacallit”, que irá restaurar o equilíbrio das forças e trazer paz e concórdia à terra. Pelo meio haverá múltiplos perigos, velhos sábios, triunfos e tormentos, um romance ou dois. A narrativa é arcaica, arque-típica, velha de fundo de alma e por isso ressonante. Ao vir em notas e melodias, e não em verbos e advérbios, toma a forma que quiser dentro de cada um. Molda-se ao material que já lá está. Ganha corpo no corpo de quem escuta. À medida do sentir de cada ouvinte.

É sempre nos espaços de silêncio que toda a melodia é construída, mas nem todo o artista possui o domínio ou a noção do espaço negativo.

E se Tonne, tem a noção do som, terá mais ainda a noção da sua ausência. De quando este deve desaparecer. Onde deve estar a pausa. É sempre nos espaços de silêncio que toda a melodia é construída, mas nem todo o artista possui o domínio ou a noção do espaço negativo. Transportar toda uma audiência contemporânea do muito ruído que preenche o mundo moderno (que nestes tempos estranhos e paradoxais se tornou inaudível) ao silêncio interno não é tarefa fácil. Especialmente quando se tem mesmo ao lado o barulho meta-psíquico de um casino. E o próprio Tonne parece, no fim, apreciar o paradoxo. A beleza do paradoxo. Criar silêncio no Casino pode ser de certa forma o triunfo na narrativa. A vitória do herói. O ponto da estória. E, apesar de não fazer, nas suas próprias palavras, “aquela coisa de sair do palco e voltar com os aplausos”, volta sem nunca ter saído, e toca um realejo nas cordas da sua guitarra, um epílogo para o conto de que, afinal, tudo está bem outra vez na terra. Fim. Talvez… Será?

Cá fora, o brilho kitsch e quase psicadélico das luzes e a opulência decadente do espaço aparecem como mais plastificadas do que nunca. Já não é nas mesas de jogo que os espiões trocam os seus segredos, mas em mensagens encriptadas na Net profunda. Os refugiados actuais vão dar a outras costas. O gelatto franchisou-se e dilui-se pelo território. Talvez o poder de se contar histórias sem palavras seja suficiente para criar espaços de silêncio no interior de quem ouve. Espaços vitais para que o espírito não sucumba sob o ruído do mundo. Nestes tempos de estranheza e paradoxo.