Dia 01 no SBSR’11

Nero

A promessa de inúmeras melhorias nas infraestruturas não foi nada mais que uma quimera, aliás essas informações terão tido um efeito inverso ao pretendido – afinal com essa promessa terá acontecido um maior fluxo de crentes “festivaleiros” e isso congestionou qualquer pretensa melhoria entoada pela organização.

Mesmo musicalmente este primeiro dia deixou um claro sabor a arranque no que toca aos concertos. Quando conseguimos chegar ao recinto [depois de 4 horas de tráfego] estavam em palco, no palco EDP, os The Glockenwise e aprestavam-se a subir ao palco Super Bock os nova-iorquinos The Walkmen. Com um backline no qual ganhava a Fender e cuja descrição poderá dar indícios do espectro sonoro da banda, afinal ambas as guitarras surgiam amplificadas pelo inconfundível TwinReverb, mesmo o sintetizador usava esta fonte sonora primária. O baixo, um Precision, era amplificado por Ampeg.


Fiquei por descobrir se o talentoso e sempre disponível roadie da banda seria familiar de algum dos membros… de resto, a banda deu um concerto coeso – afinal essa foi a palavra para este primeiro dia – no qual se destacou um bom baterista. Também esteve em destaque, creio que por gentileza por parte da banda o trabalho do ano passado “Lisbon”. Com uma qualidade de som que, pelo menos aqui, mostra o SBSR a liderar os parâmetros de qualidade dos festivais de Verão.

Numa corrida ao palco EDP espreita-se a surpresa, recomendada por um companheiro melómano, que foram os Tame Impala.


Sem chegar ao extremismo psicadélico dos Jefferson Airplane, nem deambular num revivalismo saudosista inócuo como os Blind Melon, os músicos demoraram alguma tempo a “aquecer” e acabaram por ganhar confiança entre si e na relação com o público para abraçar sem preconceitos uma cadência a tocar levemente o stoner, com riffs muito mais cadenciados.

No palco principal já se encontrava uma das bandas da noite. Os The Kooks, com algumas particularidades, mostraram uma grande forma. Primeiro, foi curioso observar que detrás do backline se encontrava um guitarrista a tocar as estruturas rítmicas, de forma a sustentar a força harmónica da banda – que resultou, diga-se de passagem – e fez pensar nos primeiros meses dos Pink Floyd, nos quais, durante os concertos, David Gilmour era o guitarrista fantasma, para sustentar as falhas de Syd Barret.

Nesta altura, o público em frente ao palco principal era já um volume impressionante. A banda não se intimidou, diria mesmo que ganhou mais prepotência e quando o vocalista se sentou ao piano chegou mesmo um sentido rockabilly com um “cheirinho” a Queen. E não podemos esquecer a prestação exemplar dum óptimo guitarrista, que é Hugh Harris.

Face a antecipação que os Beirut causavam, ajustamo-nos para os ver – abdicando de Lykke Li – até para depois acompanhar os Arctic Monkeys. E opinar sobre o concerto destas duas bandas torna-se a parte complicada… qualquer fã irá, com certeza, discordar.

Os Beirut parecem numa situação natural, uma banda emergente na qual, mesmo percorrendo a sua discografia, se nota uma preocupação mais focada na descoberta de hipóteses sonoras, na descoberta do próprio som a desenvolver e isso faz transparecer uma banda que, dentro desses condicionalismos, procura acima de tudo não errar, não correr riscos, de forma a mostrar solidez.


Obviamente que isso torna-se, em qualquer concerto, num exercício aborrecido para o ouvinte, a não ser que este se trate de um fã e esteja na sua zona de pleno conforto. Se os fãs dirão que o recurso a acordeão ou aos instrumentos de sopro são excêntricos e um recurso indiciador de criatividade, uma análise fria poderá dizer que esses elementos são algo “forçados” nas estruturas, uma forma de pretensão… Não há uma exploração aprofundada dum auto-proclamada folk dos balcãs, isto além duma sonoridade específica trazida pelos instrumentos usados. Em resumo, usando um ensemble recorrente na pop (bateria, baixo, guitarra) teria perfeitamente os mesmos resultados que o formato no qual a banda aposta.


Agora, a execução técnica de cada um dos músicos e a voz de Zach Conbdon são muito boas, valeu por isso.

Os Arctic Monkeys, com a plateia do seu lado e sentindo-se seguros optaram por procurar arriscar, dar algo mais ao set.


E aqui sucede o mesmo, quem for adepto declarado da banda irá considerar que houve algo mais a extrair dos temas, quem estiver a ver o jogo sem sentir a camisola poderá afirmar que essa vontade da banda lhe retirou precisão cirúrgica. Que o trabalho de guitarras acabava por se desencontrar da secção rítmica.


Dá a sensação que os músicos querem soltar a sua sonoridade além dos paradigmas dum suposto indie, mas parece que falta alguma escola, algum sentido de alma nas guitarras… Deu para perceber que a banda estava a aproveitar o seu momento e o facto de ter uma multidão imensa com os olhos postos em si, e se a atitude foi boa, faltará agora o amadurecimento e a resolução da encruzilhada em que a banda parece estar nesta altura.

Logo há mais, com mais um dia perto de esgotar, num festival ao qual o público apesar das queixas o ano passado aderiu em maior número e que com este apoio por parte do público deixará de ter razões, a organização, para condições tão fracas.