Dia 02 no SBSR’11

Nero

A AS chega com Rodrigo Leão a subir ao palco. O músico, antes de assumir a sintetização, surge de braço dado com o baixo e o início do concerto, até pelo recurso a guitarra eléctrica faz-nos pensar num corpo mais eléctrico – que se manteve, de certa forma – ainda que a subtileza e poder emocional do último trabalho sobressaia em qualquer circunstância. Principalmente através da voz de Ana Vieira, cuja classe e sabor vintage nos transporta para além do espaço em que estamos.

 

O concerto pecou por dois aspectos: som ridiculamente baixo e por faltar “Sleepless Heart”, o que é quase imperdoável! De resto, um concerto, que ainda que desajustado do espaço físico e humano onde acontece, transborda emoção, charme, classe e, da parte dos músicos, deleite. O primeiro contacto com os palcos mostrava uma clara subida qualitativa em relação ao primeiro dia.

Se o Benfica dava mostras de falta de consistência de jogo, Paulo Furtado, o homem tigre lendário do blues português, mostrava sozinho uma coesão – mais uma vez – irresistível, uma solidez de ideias arrasadora, que transcende o som, a plateia e as próprias canções. Afinal “Femina” não necessita de vozes femininas, apenas de adoração à entidade feminina. E o blues é acima de tudo lamento, saudade, ausência e presença feminina. Não fora o final arrebatador dos Arcade Fire e este teria sido o concerto da noite. Continua a crescer junto do público, do qual fez aquilo que desejou. Aliás, teve o mérito de retardar a enchente prevista para Portishead.

Os britânicos, que para muitos são a estrela maior no firmamento de Bristol, cuja sonoridade ultrapassa os limites de um trip hop carregado de downtempo, atingindo um pessimismo de depressão urbana que, num festival, se torna insustentável.

Se a voz de Beth, é uma das melhores a surgirem nos anos 90, tal como a criatividade da banda, o espaço parece desajustado, quer formal, quer humanamente, numa actuação à qual o público só responde, obviamente, em “Glory Box”, a razão para amá-los, diriam, ou “Roads”. Irresistível a simplicidade do som de Adrian Utley, apenas com um Vox e uma Jaguar, com um alcance emocional que apenas pecou, tal como aconteceu com Legendary Tigerman, pelo espaço. A actuação teve dois pontos negativos: dado o número de pessoas e a dificuldade em visualizar convenientemente o palco justificava-se que pelo menos um dos ecrãs estivesse livre das projecções da banda e mostrasse aquilo que se passava em palco; o outro apontamento é que “Dummy” e “Portishead” são álbuns com alguns aninhos, e ” Third” não foi o melhor momento da banda… assim esperava-se algo novo.

Acima de tudo estava à espera daquele que parecia um concerto eternamente adiado no nosso país. Os Arcade Fire sabiam a responsabilidade que tinham, depois de terem tido um Pav. Atlântico perto de esgotar para os ver. E a banda entrou a todo o gás.


Temas como “Ready To Start” ou “Neighborhood” trouxeram uma banda empenhada em agarrar o público, ainda assim o concerto foi perdendo uma intensidade que só ressurgiu no final com temas como “Rebellion” e depois, em apoteose, “Wake Up” – que se tornou um hino – e  “Sprawl”, que será a melhor música do álbum mais recente, onde finalmente ouvimos a bela voz de Régine Chassagne. No melhor de tudo, a banda decidiu despedir-se.

Chromeo, agarrou um público sedento de mais música depois do final de Arcade Fire. Mas estava na hora de vir fazer este texto. Amanhã espera-se tudo de Slash e The Strokes, o resto é pó.