Filho da Mãe: Um Mergulho no Maria Matos

Filho da Mãe: Um Mergulho no Maria Matos

2016-03-18, Teatro Maria Matos, Lisboa
Pedro Miranda
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Se há algo que a ida ao Teatro Municipal Maria Matos na sexta-feira à noite comprovou, é que a uma mão cheia de talento e criatividade equivale outra igualmente carregada de trabalho, e Filho da Mãe está lá para atestá-lo.

Depois de um grandioso e igualmente recompensador disco de estreia ao lado de Ricardo Martins, editado em Fevereiro deste ano e devidamente apresentado no Musicbox, Rui Carvalho retornou aos palcos para apresentar, desta vez em nome próprio, “Mergulho”, o seu terceiro álbum de originais. Registo que, apesar de retomar a característica guitarra clássica, com que sempre procurou seduzir (geralmente com elevados níveis de sucesso), mostra um Filho da Mãe mais contido, menos frenético no seu tratamento das cordas, sem prejuízo, no entanto, para a sua performance em palco.

Mais inspirado pelos ares do post-rock de uns Sigur Rós ou uns Godspeed You! Black Emperor que pela “aportuguesada” guitarra clássica do costume

De facto, Rui Carvalho troca o fulminante espectáculo de um homem pela ajuda de três não-identificadas “sombras”, como ele próprio as chamou (entre as quais se distinguia, mais solenemente, Cláudia Guerreiro dos Linda Martini). Mais inspirado pelos ares do post-rock de uns Sigur Rós ou uns Godspeed You! Black Emperor que pela “aportuguesada” guitarra clássica do costume, Filho da Mãe faz acompanhar os seus arpeggios de ruidosos crescendos indiscerníveis, que se coadunam emocionalmente com as melodias que tece e conferem nova vida aos comparativamente pálidos sons  a que correspondem em disco.

Vão comprar discos que eu preciso de uma guitarra nova!

Sem palavras, à excepção de ocasionais incursões ao humor auto-depreciativo tipicamente português («Vão comprar discos que eu preciso de uma guitarra nova!»), Filho da Mãe tocou e maravilhou com temas como “Um Dedo Menos”, “Marcha de Pedra” ou a titânica “Júpiter”. Mas destacar temas soa aqui a falácia, já que, além de um mero reprodutor de canções, o músico soou com maior força natural. Durante pouco mais de uma hora, nada parecia mais completo ou sublime que os seus dedos sobre as cordas e a banda a representar o ruir do mundo diante dos olhos da plateia.

Um espectáculo de grandiosidade inenarrável e como pouco se faz em Portugal, em suma – numa palavra, e no mais honesto sentido da mesma – imperdível!

Foto: Facebook Oficial de Filho da Mãe