Massive Attack, A Contra Nostalgia

Massive Attack, A Contra Nostalgia

2019-02-18, Campo Pequeno, Lisboa
Carlos Garcia
Inês Barrau
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A encarnação dos Massive Attack que nos visitou no Campo Pequeno ainda é, na essência, aquilo que sempre foi, o colectivo anárquico, pós-punk-reggae-hip hop, emergido das linhas urbanas com que as cidades do pós-guerra foram desenhadas.

Os Massive Attack nunca foram “a banda” no sentido que se convencionou rotular no imaginário colectivo: um grupo de putos que pega em instrumentos para fazer barulho como “a banda”.

Emergindo do colectivo Wild Bunch, o lendário sound system de Bristol dos anos oitenta, os Massive Attack sempre carregaram no seu ADN a génese estrutural destes colectivos de som de rua, de arraial político, de festa livre. Com origem na Jamaica, os sound systems seguiram as rotas de emigração do império e sedimentaram-se no Reino Unido dos anos setenta, como um dos grandes pólos contra culturais da musicalidade, assente primordialmente no reggae e no dubstep. Música negra, portanto.

O pólo complementar aqui era o punk e apesar deste ser bastante mais branco, a miscigenação artística deu-se bastante cedo. Afinal, numa sociedade altamente estratificada como a britânica, a solidariedade interclassista, com a classe trabalhadora prestes a sentir a fúria de ferro Tatcheriana, sobrepunha-se preconceitos raciais. Ou musicais.

UM ÁLBUM PROFÉTICO

A encarnação dos Massive Attack que nos visitou no Campo Pequeno ainda é, na essência, aquilo que sempre foi, o coletivo anárquico, pós-punkreggaehip hop, emergido das linhas urbanas com que as cidades do pós-guerra foram desenhadas. Dos caldos culturais que nelas foram cozinhados, das substâncias que nelas são consumidas e do abandono social, económico e filosófico, a que o neoliberalismo as votou.

Isto é, os Massive Attack sempre existiram enquanto manifesto político vestido de projecto musical. Ou um sistema sonoro projectado para levar a música para as ruas que, ao mesmo tempo, não pode evitar fazer mensagem social. O slogan, o manifesto e a linha rítmica sempre se fundiram nesta ideia de banda que é um sistema antissistema. E a revisitação que os Massive agora fazem ao seu álbum de maior sucesso é, sobretudo, a manifestação mais explícita desta ideia: o som e a imagem em dança constante, em tensão audiovisual, procurando expressar e passar uma mensagem política. No sentido original e verdadeiro do termo. Não doutrinária. Mas política.

Isto não é a masturbação colectiva das festas de revivalismo da moda alienada. Agora é o tempo real deste disco, porque agora está mesmo a acontecer.

Não temos, portanto, uma revisitação em formato greatest hits, ou um dos muitos apelos que se começam a fazer da nostalgia dos noventa, última década em que o mundo foi relativamente seguro e tranquilo. Isto porque o mundo nunca foi seguro e tranquilo, e na contagem decrescente para o milénio, “Mezzanine” era sobretudo o aviso dos Massive para um futuro que se avizinhava.

Mais do que um clássico (designação que lhe pode dar um travo burguês e confortável, algo que empreendedores quarentões ouvem confortavelmente nos seus lofts de design, ronronando de satisfação e auto-contentamento) “Mezzanine” é um álbum profético, no sentido bíblico, veterotestamentário, fogo e enxofre, do termo. E Robert del Naja e sus comparsas vieram para nos relembrar do facto: não tocamos isto por ser antigo, ou para comemora a edição, ou para nos juntarmos todos outra vez. Isto não é a masturbação colectiva das festas de revivalismo da moda alienada. Tocamos isto porque isto é actual, porque agora é o tempo real deste disco, porque agora está mesmo a acontecer.

DASEIN

No Campo Pequeno tivemos direito a um concerto que assentou em dois eixos. Musicalmente o conceito foi o de tocar “Mezzanine” na íntegra, alternando as canções do álbum com versões que, de certa forma, foram não só uma influência na construção do original, como espelham o mesmo sentido de presciência e actualidade deste. Ou seja, os Massive trouxeram para o agora aquilo que nunca deixou de ser do agora, para que peças frescas e vivas não se convertam em peças de museu para serem analisadas por sociólogos barrigudos. Os Massive sempre carregaram consigo a energia de quem faz o som que os putos de rua ouvem.

No outro eixo, o visual, o nome é de peso e faz aqui todo o sentido. Adam Curtis é o mais relevante documentalista britânico dos últimos 30 anos. Servindo-se do vasto arquivo de imagens da BBC, os seus documentários são um enorme remix da avalanche de imagens e conteúdos com que somos bombardeados sem piedade desde há décadas. Um reordenamento do caos de certa forma. Ou a utilização dos conteúdos do sistema, o grande soro de desinformação, consumismo e desvitalização, para atingir uma mais profunda compreensão da virtualidade ao nosso redor e do mundo em que vivemos. O sample e o remix enquanto arma jornalística.

Assim, como um instrumental de fundo, são as imagens de Curtis que abrem o concerto, um realce que esta digressão é uma experiência tão visual como musical. Imagens que são uma constante na obra do realizador, um olhar irónico sobre um certo kitsch imagético britânico, (um Brikitsch a acompanhar um Brexit: ambos inanes, ambos desastrosos).

A VOZ DOS BECOS DE BRISTOL

A música propriamente dita chega com uma cover dos Velvet Underground. Os Velvet sempre andaram na corda bamba entre canção e desconstrução e manifesto. E é de uma das linhas harmónicas de “I Found a Reason” que “Risingson” foi construída. E é com esta que “Mezzanine” chega finalmente ao palco. Del Naja e Daddy G juntos em palco, duas das três cabeças oficiais dos Massive (Mushroom abandonou as funções justamente por causa de “Mezzanine”, discordando da linha mais pós-punk e menos hip hop com que Del Naja estava a encaminhar o projecto).

A nível cénico existe uma geometria perfeita da projecção de slogans e lettering no ecrã de fundo e nas estruturas laterais. É sobretudo despojado e limpo, num equilíbrio entre o digital e o analógico, sóbrio, eficaz. Aliás toda a presença da banda e colaboradores caracteriza-se por estes atributos. Não há qualquer interacção com o público, estão quase camuflados numa penumbra que os jogos de luzes criam na zona central do palco. Nesta digressão são as imagens e os slogans que tem a primazia.

Continuando no jogo da referência e da influência, “10:15 Saturday Night” dos Cure, música de aborrecimento suburbano, cujo o sample faz a ponte para… “Man Next Door”, que traz a sempre muito balançante voz de Horace Andy ao palco. Andy, que não nos podemos esquecer é um dos grandes nomes do reggae e funciona quase com um totem vivo, pois em si mesmo encarna toda a cronologia musical e sociológica que, mareando através do tempo, vem desaguar neste palco.

Andy funciona quase com um totem vivo. O timbre distintivo de Frazier é um oceano de limpidez a varrer os becos de Bristol.

O flutuante “Black Milk”, que escutando agora esta distância da publicação, parece ter qualquer coisa de Fever Ray na sua vertigem de invocação pagã na M23 às 3 da manhã, contempla-nos com a presença e a voz sempre celestial de Elizabeth Frazier. De todas as vozes que construíram a mitologia 4AD, a dela continua a ser a mais bela e fora do tempo, importando pouco as palavras que estão a ser expressas e mais a cinestesia colorida que estas provocam, o contraponto com a rugosidade instrumental dos Massive e o rap murmurante de Del Naja e Daddy G. Pelos Massive sempre passaram grandes vozes femininas como Neneh Cherry, Tracey Thorn ou Shara Nelson, mas o timbre distintivo de Frazier é um oceano de limpidez a varrer os becos de Bristol.

E é bem no beco que está o tema-título, com a sua intensidade obsessiva que ao vivo é ainda mais carregada, com sobreposições de loops e distorções, all these other flaws, e este tipo de construção sonora permite fazer uma passagem natural para “Bela Lugosi’s Dead” dos Bauhaus, com a sua estrutura igualmente sufocante. O tema-título do movimento gótico pode, lá está, ter um lugar no imaginário colectivo como o hino do vampirismo de pacotilha, mas como o slogan prenuncia, o passado obstrui a nossa visão e começa a eclipsar o nosso futuro. Mais uma vez: isto não é uma viagem de nostalgia. É reafirmação daquilo que é sempre vital e pulsante.

“Exchange” é o momento da pausa para respirar no meio do mergulho do álbum e aqui serve a mesma função, com um belo apanhado de danças de salão, concursos de talentos e brigas de bar neonazis como pano de fundo. Tudo bom entretenimento para queimar umas horas. Horace Andy canta “See a Man’s Face”, fazendo uma cover dele próprio, sob uma torrente de todos os slogans pseudo mobilizadores que o marketing político criou nos últimos séculos: de “Liberté, Egualité et Fraternité” até “Take back Control” vai só o peso de quem mais conseguiu a proeza de simplificar a complexidade do mundo na vacuidade de um rótulo.

CAMPOS DE BATALHA

“Dissolved Girl” traz o sample de Sara Jay, no que será talvez o momento mais tépido da noite, felizmente bem-sucedido pela cover de “Where Have all the Flowers Gone?” de Peete Seger, com Frazier a emprestar ainda mais doçura à canção original e a contrastar ainda mais violentamente com as imagens cruas dos intermináveis conflitos do Médio Oriente, que simplesmente se fundem e misturam uns nos outros, como uma samplagem de som fúria a ser feito ao vivo e em directo durante anos e anos com corpos e vidas humanas.

“Inertia Creeps” faz a listagem de todas as pílulas mágicas que a indústria farmacêutica produz para o nosso entorpecimento emocional, para que o inaceitável não seja assim tão inaceitável como isso. Afinal, amanhã é outro dia e há que dançar como se não houvesse amanhã no fabuloso “Rockwrok” dos Ultravox. Há que dançar até não poder mais, até que as pílulas já não façam efeito e os Avicii deste mundo caiam para o lado. Para sempre.

Porque a escolha de “Levels”, de todas as escolhas possíveis, de todo o EDM descartável existente à face da terra, como a única cover no concerto que é posterior à edição de “Mezzanine” (não sendo assim propriamente uma influência), não é uma escolha inocente. Há que lembrar o empregado de escritório que empurra pedra montanha acima como um Sísifo moderno no videoclip original do tema, isso também já não era uma escolha inocente.

Usem a Internet, mas não deixem a Internet usar-vos, o campo de batalha é a mente e o prémio é a alma! Tenham cuidado!

Como ironia ou não, os grandes sucessos vêm no final. “Angel” e “Teardrop”. Frazier canta num marejar de holofotes, o ruído visual de fundo silencia-se. Ainda é uma das grandes canções improváveis de fim de século. E em “Group Four”, o ruído e a torrente cénica elevam-se até à intensidade máxima. Quando os Massive lançaram a “Mezzanine” a quantidade de ecrãs e aparelhómetros à nossa volta, a roubarem-nos o tempo e realidade, era significativamente menor. Num vídeo ressurgido recentemente das catacumbas da internet, do agora muito distante ano de 1999, em que os Massive passavam por Lisboa para nos mostrar um “Mezzanine” acabado de lançar num pavilhão Atlântico acabado de inaugurar, o agora também já falecido Prince declarava profeticamente (como profético foi “Mezzanine”), ao receber um prémio da Yahoo (que sempre será para o Google o que o Beta foi para o VHS): «Usem a Internet, mas não deixem a Internet usar-vos, o campo de batalha é a mente e o prémio é a alma! Tenham cuidado!».

Ou como se lê na última mensagem de um concerto calibrado e metódico, em que não há encores ou despedidas sentidas: «Estamos presos num círculo vicioso, é tempo de deixar os fantasmas para trás de nós, e começar a construir o futuro». Marshall McLuhan afirmou que o meio é a mensagem, e nesta embalagem de passado e futuro, som e áudio, ruído e melodia que os Massive Attack e Adam Curtis carregam, há um sentido de romper com o embrutecimento social do zeitgeist actual, recorrendo ao mais moderno arsenal de técnica e linguagem desse mesmo zeitgeist.

É o tipo luta e de metodologia que um certo seu conterrâneo de Bristol, artista de rua e stenciler, utiliza. Mostrando que há sempre mais de uma maneira de esfolar um gato. E que certas coincidências poderão sê-lo ou não.

SETLIST

  • I Found a Reason
    Risingson
    10:15 Saturday Night
    Man Next Door
    Black Milk
    Mezzanine
    Bela Lugosi’s Dead
    Exchange
    See a Man’s Face
    Dissolved Girl
    Where Have All the Flowers Gone?
    Inertia Creeps
    Rockwrok
    Angel
    Teardrop
    Levels  + Group Four