O irresistível charme de Benjamin Clementine
2018-07-21, Altice Arena, Super Bock Super RockA voz poderosa e a destreza no piano envolveram-se entre a dualidade de instrumentais simultaneamente simples e complexos.
A atitude jovial e descontraída de Benjamin Clementine em palco contrasta com a séria capacidade vocal que encaixa em temas pessoais e reflexivos munidos de soul. Os frequentes falsetes são de alta-qualidade e a interacção com o público é equilibrada em quantidades certeiras.
Surge entre os panos com os pés descalços e assim continua até ao final. É acompanhado por uma bateria electrónica, um baixo (carregado de efeitos), uma mini-orquestra de 5 violinos e um piano Steinway & Sons, tocado pelo próprio, que conduz melodicamente a maior parte das canções. Este toque no piano atingiu o seu auge no momento mais celebrado e inesperado (para alguns) da noite, o dueto com Ana Moura em “I Won’t Complain”.
Com a sonoridade das teclas a solo, Benjamin viu-se obrigado a descarregar toda a sua alma e a entregar a melhor performance vocal da noite, mano-a-mano com a fadista portuguesa. A competição amigável é sempre bem-vinda e foi claro, nas suas expressões faciais, que cada um dos artistas motivou-se através da energia do outro.
As faixas apresentadas foram equilibradamente divididas entre o mais recente álbum “I Tell a Fly” e “At Least For Now”, de 2015. “Condolence”, presente no segundo projecto referenciado, foi a ponte para o primeiro grande coro com o público, conquistado através da repetição (nunca cansativa!) do refrão no final da faixa. Antes de “Jupiter”, exclamou «Porque raio é que estão a falar?», em tom amargo para a linha da frente, e pediu silêncio em toda a Altice Arena para continuar a performance.
A comunicação não foi clara, fica em dúvida se foi devidamente sentida ou mais uma brincadeira com o público. Possivelmente, uma combinação dos dois. Previamente tinha referido que não sabia falar português (e sabe, pouco, mas sabe, e provou-o com algumas palavras) e depois da saída da Ana Moura, afirmou que Seu Jorge era o próximo convidado surpresa, seguido de um: «Queriam! Nos vossos sonhos!».
O final foi marcado por um solo épico por parte dos violinos e mais um coro colectivo em “Adios”. Depois da poderosa voz entoar repetidamente o verso « The decision is mine / The decision is mine / So let the lesson be mine » com uma emoção claramente pessoal, Benjamin caminhou entre o público de microfone na mão para que as vozes dos presentes também se fizessem ouvir. No final, a bandeira de Portugal foi projectada em palco com a mensagem: «Portugal, nunca me vou esquecer de vocês».
O natural talento soul do artista inglês cruza-se com uma excelente presença dominante em palco. A voz é poderosa, sem efeitos, e destaca-se com instrumentais complexos ou com o simples ritmo singular do piano. É indiferente, Benjamin vai brilhar em qualquer lugar e em qualquer circunstância.
SETLIST
- Ave Dreamer
One Awkward Fish
Nemesis
London
I Won’t Complain
Condolence
Phantom of Aleppoville
Winston Churchill’s Boy
More Books
Cornerstone
Jupiter
Adios