Julian Casablancas + The Voidz: Inesquecível

Julian Casablancas + The Voidz: Inesquecível

2018-07-21, Altice Arena, Super Bock Super Rock
António Maurício
Inês Barrau
3
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Uma soma desastrosa entre terrível qualidade de som, má performance vocal e uma Altice Arena que foi progressivamente ficando mais vazia.

Julian Casablancas oferece a voz aos The Voidz neste novo projecto colaborativo, bem distanciado da sonoridade dos The Strokes. Mas se nas versões de estúdio conseguimos retirar as ideias emergentes desta nova oferta de rock alternativo, ao vivo a história não é a mesma. Pelo menos, no final do SBSR, não foi…

Logo na primeira música, conseguimos imediatamente perceber que algo de muito errado se passava. O som estava extremamente elevado, elevado o suficiente para distorcer completamente as duas guitarras, o baixo, o sintetizador e a bateria. Isto sucedeu ao longo de toda a performance e foi, muito possivelmente, prejudicial para a audição de todos os presentes.

Missão impossível: tentar separar individualmente os instrumentos e perceber os papéis de cada um na composição, tal era a camada densa de som distorcido. A voz inconstante de Julian Casablancas, completamente processada (com o reverb em níveis absurdos) modificou-se entre graves profundos e densos, até guturais death metal e só no final sossegou, na balada “I’ll Try Anything Once”, dos The Strokes. Mas tudo isto aconteceu com uma qualidade de som terrível, insuportável, onde quase nunca conseguíamos identificar as palavras que passavam pelo microfone. Imaginem todos os níveis de volume na mesa de mistura no máximo, sem compressão e distorção exagerada, em tudo, tudo a clipar e a picar: estão dentro deste concerto. Não confundir com sonoridades noise, onde o volume elevado e ruído extremo são metodicamente utilizados. Não foi o que se passou aqui. Se foi essa a intenção, saiu totalmente ao lado.

No meio da bagunça, nos momentos entre as músicas, Julian afirmava meio-indiferente «Preciso de ajuda, não consigo deixar a internet» ou «Bem-vindos à arca de Noé». De vez em quando conseguíamos perceber um riff ou outro por parte do guitarrista Jeramy “Beardo” Gritter, quando a sua guitarra ganhava destaque e os restantes instrumentos se acalmavam. Mas não equilibrava, nem de perto, a terrível experiência que a pouca multidão presente continuava a enfrentar. Aliás, logo durante os primeiros 10 minutos, o movimento mais relevante aconteceu entre o público: muitas pessoas a abandonar o recinto e várias com os dedos nos ouvidos.

O problema do concerto não foi o carácter musical experimental, foi a falta de compreensão auditiva sobre que se estava a passar em palco. Será que foi falta de competência por parte dos técnicos de som? Será que esperavam uma Altice Arena cheia de pessoas? Será que os membros da banda estão surdos? Será que foi mesmo intencional?

As perguntas ficam no ar, mas a má experiência fica guardada para sempre. Os problemas técnicos em palco também não ficaram de fora: a certa altura, antes de mais uma jornada sonora, Julian diz que não está a ouvir o sintetizador. Cinco minutos depois, ninguém conseguiu enviar o som de sintetizador para os ouvidos do vocalista. O impasse silencioso e desconfortável só foi quebrado quando decidiram que tinham de seguir em frente.

«Desculpa Ryan, desculpa», diz Julian em tom baixo, já perto do final, evocando o bate-boca entre Ryan Adams e os The Strokes, mas as desculpas deviam ter sido entregues ao público.

SETLIST

  • M.utually A.ssured D.estruction
    QYURRYUS
    Pyramid of Bones
    Pointlessness
    Where No Eagles Fly
    Leave It In My Dreams
    Father Electricity
    Black Hole
    Lazy Boy
    Wink
    HS
  • I’ll Try Anything Once (The Strokes)
    Human Sadness