As colossais ruínas de Saint Vitus

As colossais ruínas de Saint Vitus

2014-10-13, RCA Club, Lisboa
Nero
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A ocasião solene, celebração dos 35 anos de Saint Vitus, provocou uma enchente no RCA.

Os Orange Goblin subiram a palco de armas em punho, abrindo o concerto com a imensa “Scorpionica”. Dissipado o fumo da pólvora, as baixas eram poucas e, a partir daí, a munição escassa. Com poucas balas para gastar e sem capacidade de perfuração, o som da banda foi deprimente… A opção por “triggar” a bateria eliminou toda a dinâmica ao instrumento e criou uma barreira de compressão intransponível em toda a actuação, ainda por cima, essa opção não contribuiu minimamente para a definição do som. Joe Hoare e Martyn Millard tinham, respectivamente, um bom som de guitarra e baixo quando soavam sozinhos, mas a mistura de todos os elementos descaracterizou quaisquer traços sonoros da banda e das canções.

“Acid Trial”, “Saruman’s Wish”, “Sabbath Hex”, “Heavy Lies the Crown”, “Some You Win, Some You Lose”, “Into the Arms of Morpheus”, “The Devil’s Whip”, “They Come Back (Harvest of Skulls)”, “The Fog”, “Quincy the Pigboy” e “Red Tide Rising” foram a composição de uma setlist esforçada, mas a milhas do poder que já vimos à banda. O, literalmente, gigante Ben Ward impõe respeito e reverência, mas foi traído, principalmente, por uma actuação desastrada do baterista Chris Turner. Só se pode especular sobre o som que a banda teria em palco e se estaria, realmente, a auxiliar ou a complicar a tarefa do músico. Se estava, minimamente, semelhante ao som de frente não terá sido tarefa fácil. Por outro lado, em abono do técnico de sala, um kit Natal não é, de todo, coisa que se apresente… Pouca projecção, pouca riqueza harmónica, pouco tudo.

A sala esvaziou consideravelmente após a saída de cena dos Orange Goblin.

Algum do público presente terá pensado que já “nasceu demasiado tarde” para Saint Vitus. A sala esvaziou consideravelmente após a saída de cena dos Orange Goblin. “Living Backwards” são as primeiras notas de Dave Chandler, mas o guitarrista não é o personagem fictício Benjamin Button… O concerto de Saint Vitus deixou claro que a imortalidade é, naturalmente, vedada aos homens e apenas intuída no poder das ideias. A partir do momento em que a banda abandonou os álbuns “V” e o recente “Lillie: F-65”, emergiram os riffs que foram base para outras ideias (Celtic Frost, Cathedral, etc). “The Troll” e “White Stallions” ilustram essa noção.

Como na Acrópole, as ruínas permanecem como agentes de imortalidade do poder das ideias.

Riffs genericamente axiomáticos e poderosos são entregues ao caos da performance da banda. Dave Chandler nunca foi capaz de agarrar um solo e a actuação do baterista Henry Vasquez foi um caos: perdeu tempos, perdeu baquetas, perdeu fôlego… Até que se decidiu por preencher os buracos ritmícos com um excesso de fills nos pratos e passou a cortar toda a dinâmica que restava aos temas, criando uma saturação de frequências altas, que se juntaram ao som de guitarra (carregado de fuzz e wah) que Chandler usa como camuflagem para as suas, actuais, insuficiências. Mark Addams, nos momentos mais “lentos”, foi sendo capaz de elevar a dimensão da banda e do seu som, resgatando os temas da actuação de Vasquez. E Wino precisou apenas de estar em palco para fazer perceber porque acabou por ganhar uma dimensão tão acima da banda.

Chegariam os riffs colossais de um álbum do cânone do heavy metal (e da sua derivação de bpms reduzidos, o doom). “Born Too Late” faz parte das lendas, mas teremos nascido tarde demais para o ver e ouvir tocado em todo o seu esplendor. Como na Acrópole, as ruínas permanecem como agentes de imortalidade do poder das ideias. Visitá-la é, para uns, o acontecimento de uma vida, para outros, a mágoa de saber o que nunca irão ver.

SETLIST

  • Living Backwards
    I Bleed Black
    Blessed Night
    Let Them Fall
    The Troll
    White Stallions
    The War Starter
    The Lost Feeling
    H.A.A.G.
    Dying Inside
    Clear Windowpane
    Born Too Late
    Saint Vitus