A viagem de “Fast” Eddie Clarke com os Motörhead

A viagem de “Fast” Eddie Clarke com os Motörhead

António Maurício

A autobiografia de Lemmy inclui várias referências a Eddie Clarke.

Em seguimento ao falecimento de Fast Eddie Clarke, ex-guitarrista dos Motörhead, relembramos o seu contributo na icónica banda inglesa de heavy metal. As histórias/acontecimentos foram retiradas do livro “White Line Fever”, a autobiografia oficial de Lemmy produzida com o auxilio de Janiss Garza e publicado em Portugal através da Publicações A Ferro e Aço. Primeiramente, é necessário contextualizar a entrada de Eddie na banda – pouco tempo antes da gravação do que se tornaria reconhecido como o primeiro álbum de estúdio, “Motörhead”, em 1977:

«Originalmente, tencionava que os Motörhead fossem uma banda de quatro elementos, e experimentámos uns quantos guitarristas. Um foi o  Ariel Bender. […] Fizemos uns quantos ensaios com ele, mas não resultou. […] Então começamos com apenas três elementos até que encontramos o Eddie Clarke… e acabou por continuar um grupo de três, de qualquer maneira. O Phill conheceu o Eddie, quando andavam os dois a restaurar uma casa flutuante em Chelsea. Mas não foi o Phil que o trouxe até nós, foi a Aeroplane Gertie, que era a recepcionista nos estúdios onde ensaiávamos em Chelsea. Ela estava a viver com o Eddie, e foi ela que o trouxe para o estúdio. […] Eu costumava tocar todo o tipo de coisas esquisitas para o Eddie, e resultava. Do nada, eu estava a tentar arranjar alcunhas para todos. As alcunhas são fixes, as pessoas gostam delas. Então o Eddie tornou-se o “Fast Eddie” Clarke, tinha lógica. Quero dizer, ele era muito rápido a tocar guitarra.»

A intimidade com os membros da banda foi crescendo e Eddie desenvolveu uma amizade fraterna, alimentada por combates físicos, com Phil Taylor, o baterista:

«O Phill e o Eddie eram grandes amigos – houve uma fase em que o Phil estava a viver na casa do Eddie. Eram tão chegados como irmãos, o que por vezes era problemático porque eles também lutavam como irmãos. Um vira as costas, o outro diz qualquer coisa, e quando te apercebes, bang! Estavam sempre a criticar as merdas um do outro. Os dois andavam sempre à luta o tempo todo. No caminho para um concerto que tínhamos em Brighton, o Phil e o Eddie foram o tempo todo a dar murros um no outro. Quando lá chegamos, o Phil tinha um olho negro e o Eddie estava mal de um braço. Mas quando chegou a hora, eu disse “Ok, chega! Palco”. E os dois endireitaram-se e foram, “Ok!” e fizemos o espectáculo. Depois quando estávamos a sair do palco, o Phil deu um murro por trás no pescoço do Eddie deixando-o estatelado, e recomeçou tudo outra vez. Como lutadores, eles eram muito equiparados.»

As alcunhas são fixes, as pessoas gostam delas. Então o Eddie tornou-se o “Fast Eddie” Clarke, tinha lógica. Quero dizer, ele era muito rápido a tocar guitarra.»

Antes dos dois primeiros álbuns, lembrando até os avanços e recuos com o trabalho homónimo, a vida não corria bem ao trio, chegando mesmo ao ponto dos músicos pensarem em acabar com a banda, em meados de 1977. «Lembro-me de um concerto numa discoteca em Shrewsbury […], o Eddie e eu caímos os dois, redondos, com as costas no palco. […] Mas a equipa de apoio apenas me levantou a mim – o Eddie costumava tratá-los como empregados, portanto eles deixaram-no ali. Ali estava ele, deitado de costas, à espera de ser levantado, mais isso nunca aconteceu. A caminho de outro concerto, o Phil estava  zangado com qualquer coisa, então deu um pontapé na carrinha, partindo um dedo do pé. Nesta altura, a moral da banda andava muito em baixo […]. Andávamos cheios de fome, a viver como “ocupas” e não acontecia nada. Eu estava bem preparado para continuar, mas o Phil e o Eddie queriam desistir. […] Finalmente, em Abril, após muitos debates, decidimos fazer um concerto de despedida no Marquee em Londres, e foi isso.»

Contudo, os Motörhead não acabaram nessa noite, continuando a fazer concertos ao vivo e a compor novas malhas para aquele que seria o grande breakthrough, o álbum “Overkill”. «[…] A “Capricorn” foi escrita numa noite. O solo do Eddie para essa, lembro-me, surgiu quando ele estava  a afinar a guitarra. A fita foi rolando enquanto ele ia brincando com a guitarra, e o Jimmy juntou-lhe um pouco de eco. Quando o Eddie acabou de afinar, veio e disse, “Vou fazer agora”, e o Jimmy disse-lhe, “Oh, já está feito”.»

Alguns anos depois, após a edição de “Iron Fist”, em 1982, Eddie não se relacionava com as faixas produzidas nesse mesmo álbum, nem com o caminho que a banda estava a tomar. A soma dessa perspectiva artística com uma sessão de estúdio problemática, resultou na desistência:

«A sessão foi problemática, no mínimo. A Wendy levou imenso tempo a aprender a música, e isso chateou o Eddie. (…) Pensávamos que ela nunca ia conseguir, mas eu sabia que iria, se trabalhasse com ela. Para somar a isso, o Eddie não estava a tocar guitarra – estava apenas a trabalhar como produtor. Estávamos a usar o guitarrista dos Plasmatics, comigo e o Phil no baixo e bateria. O Eddie estava completamente agitado com todo o panorama e finalmente acabou por dizer que ia sair para comer, mas encontrámo-lo noutra divisão, amuado, com o Evil Red. Foi uma merda. Nós podíamos ter resolvido os nossos problemas se o Will Reid Dick não estivesse lá, porque o Eddie não teria ninguém que o distanciasse da banda. Ele teria que ter ficado lá e reagido, depois estaria resolvido e ultrapassado. Mais o Phil e eu voltámos para o hotel. O Phil entrou à minha frente, depois voltou-se e disse-me, “O Eddie saiu da banda”. Na verdade, o Eddie costumava deixar a banda de dois em dois meses, mas desta vez, apenas aconteceu, e nós não lhe pedimos para voltar. Nem tentamos presuadi-lo, foi por isso que ele se manteve afastado – isso surpreendeu-o um pouco, acho eu. Mas nós estávamos um bocado fartos dele, porque ele estava-se sempre a passar e andava a beber. Ficou muito melhor desde que deixou de beber.»

Após a saída, Eddie juntou-se ao baixista Pete Way e juntos formaram os Fastway, onde editaram no total sete álbuns de estúdio. O último, “Dog Eat Dog”, foi editado em 2011.

Para mais curiosidades e detalhes sobre a carreira dos Motörhead e/ou da vida de Eddie Clarke, podes adquirir o “White Line Fever” na loja da Publicações A Ferro e Aço.