As Muitas Caras de Lucille

As Muitas Caras de Lucille

Nero

Houve um só B.B. King, mas houve muitas “Lucille”. Lembramos as 10 mais significativas. A Rainha de todas elas e as cortesãs.

Na verdade, B.B. King era um mulherengo. Afinal, a mulher é figura central no blues. O feminino divinizado, idealizado como toda a fonte de sofrimento amoroso ou de esperança. Poderá ser injusto para as mulheres, este papel que os bluesmen lhes atribuiram e que faz tantos amar tantas quanto possível, admirar todas, desejar todas. Todas são uma. O feminino platonizado.

No documentário “B.B. King: The Life of Riley”, o guitarrista fala, com alguma malandrice também, da sua admiração pelas mulheres. Esta é uma analogia para as guitarras e para “Lucille”. Afinal, foram muitas as guitarras, todas “Lucille”. No início, King esteve apaixonado por outras curvas, daquelas dos primeiros modelos de Leo Fender: a Esquire, que viria a tornar-se na Telecaster. Na “era RPM”, os álbuns de B.B. foram gravados com esse modelo. Mas amava já a sua primeira “Lucille”, uma Gibson L-30 que iniciou a lenda…

«Uma noite, dois tipos desataram à pancadaria e um deles pregou com uns contentores no chão (barris de querosene, para aquecimento do bar) cujo conteúdo estava a arder e, quando foi entornado pelo chão, tornou-se como que num rio de fogo e toda a gente correu para a saída. Quando me vi cá fora, lembrei-me que havia deixado a minha guitarra no interior. Fui buscá-la. O edifício era de madeira e ardeu rapidamente. Começou a desabar à minha volta e quase perdi a minha vida a tentar salvar a minha guitarra», confessou uma vez o guitarrista ao Jazzweekly.com, concluindo que, na manhã seguinte, descobriu que os indivíduos começaram a luta por causa de uma mulher chamada Lucille!

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GIBSON L-30 | Este modelo era bastante económico, de corpo bem compacto, sem cutaway. A tailpiece era em sistema trapézio, com a ponte ajustável. Os primeiros modelos possuíam o acabamento preto, mas posteriormente, o corpo mogno escuro passou a receber um tampo em Sunburst. O modelo foi descontinuado em 1943.

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GIBSON ES-5 | Por volta de 1949, a ES-5 era a Gibson mais pintas que se podia ter. A versatilidade era assegurada por três (!) P-90. A guitarra ficaria mais “complicada”, com um circuito de switch mais desenvolvido, no final dos anos 50, mas a de B.B. King era um dos primeiros modelos. A ES-5 foi descontinuada em 1960.

esquire

FENDER ESQUIRE | A primeira versão da Telecaster foi uma das paixões de King na viragem da década de 40 para a de 50. Muito do material gravado para a RPM foi tocado com esse modelo. Muito desse material surge com um som menos “carregado”. A juventude do Rei ou o som clássico Tele?

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GIBSON ES-125 | Quando King teve um dos seus primeiros grandes sucessos, “Three O’Clock Blues” (original de Lowell Fulson), já usava uma ES-125. Estávamos em ’51 e um único P-90 e corpo sem cutaway tornavam esta guitarra bem rude, o que em conjunto com a mão pesada de King (que, na realidade, era canhoto, mas aprendeu a tocar como destro) começou a criar a lenda que todos conhecemos.

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GIBSON BYRDLAND | Em 1955 a Gibson fez evoluir a ES-250 para a ES-350T e Byrdland, modelos com o corpo mais fino e uma escala mais curta. O mundo do jazz delirou com a Byrdland e B.B. King também, embora tenha usado esta guitarra durante um período de tempo bem curto, na viragem dos anos 50/60.

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GIBSON ES-175 | Outro modelo usado durante um curto espaço de tempo. King surge com uma ES-175 na cada do álbum de 1959, “BB King Wails”. Este modelo possuía um tampo em maple laminado que, além de tornar a guitarra mais económica, era muito bom para combater feedback.

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GIBSON ES-355 | O guitarrista usou também modelos ES-335 e ES-345, mas este é o modelo que imediatamente se associa a “Lucille”. Uma variação da ES-335, com o imponente comutador Varitone, que aumentava imenso o espectro sonoro da guitarra. É com este modelo que B.B. King grava o monumental “The Thrill Is Gone”, em 1969. No final de 2018, foi anunciada uma nova versão desta guitarra, num acabamento branco e em número limitado.

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GIBSON LUCILLE | Em 1980, a Gibson e King juntaram-se para criar a assinatura. A “Lucille” por excelência. O guitarrista pediu à companhia para eliminar os f-holes, que tantas vezes cobrira com panos na sua ES-355, para combater o feedback. Na escala pode ler-se o nome do guitarrista, nos inlays perlados. Em 2005, como presente de aniversário para o músico, a Gibson construiu 80 modelos Lucille, o protótipo foi oferecido a King. Esse modelo foi roubado em Setembro de 2009 e comprado numa loja de penhores em Las Vegas. A Gibson perseguia a guitarra e o seu comprador, quando foi informado da guitarra que comprara realmente, devolveu-a a B.B. King, em Novembro do mesmo ano.

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EPIPHONE LUCILLE | A versão económica do modelo de assinatura. O braço, em maple, é colado. O corpo, tal como a ES-175 que King usou, era em maple laminado. A electrónica, com outputs em mono ou stereo e o comutador de 6 posições Varitone, garante o som clássico do guitarrista.

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GIBSON LITTLE LUCILLE | Em 1999, a Gibson criou este modelo a partir de uma Blueshawk. A Little Lucille tinha, como diferenças, uma ponte Tune-o-matic e uma stop tailpiece TP-6. Limitadíssimo, este modelo já não existe no catálogo Gibson e a própria Blueshawk foi descontinuada.