ENTREVISTA | O Gajo: “A Viola Campaniça É Muito Mais Poderosa do que a Guitarra Eléctrica”

ENTREVISTA | O Gajo: “A Viola Campaniça É Muito Mais Poderosa do que a Guitarra Eléctrica”

Nuno Sarafa

Segunda parte da entrevista a João Morais, vulgo O Gajo, que acaba de editar o terceiro disco, “Subterrâneos”, mais uma ode à viola campaniça, desta vez acompanhada pelo contrabaixo de Carlos Barretto e as percussões de José Salgueiro.

A AS esteve no cinema São Jorge, em Lisboa, a acompanhar (em EXCLUSIVO) as filmagens do vídeo para o novíssimo single de O Gajo, “Electro Santa”, na antecâmara do lançamento de “Subterrâneos”. Mas, com tantos temas de conversa, aproveitámos e dividimos a entrevista em duas partes: uma primeira para falar de uma forma mais genérica sobre o novo disco e uma segunda para percebermos de onde vem a paixão de João Morais pela viola campaniça e como é trabalhar com este instrumento tradicional.

Fechado um ciclo de três décadas no underground nacional, em bandas como os Corrosão Caótica, Gazua ou Carbon H, O Gajo nasceu em Lisboa, em 2016, porque João Morais queria ‘portugalidade’ na sua música. O guitarrista precisava, para tal, de encontrar o instrumento ideal.

E, depois de experimentar a guitarra portuguesa e de perceber que esta «não permitia a liberdade criativa que procurava», foi numa bela noite passada em Beja, depois de um concerto, que conheceu a viola campaniça – instrumento de raiz tradicional, parte da história centenária e cultural portuguesa -, habitualmente usada para acompanhar os célebres cantares à desgarrada ou cantes a despique, nas festas e feiras do Alentejo. É a maior das violas portuguesas e possui cinco ordens de cordas tocadas tradicionalmente de dedilhado apenas com o polegar.

Apaixonado pela ‘nova’ viola, João Morais trá-la para a sua Lisboa, dá-lhe novas cores e abordagens e não perde tempo: em 2017, chega o primeiro disco,”Longe Do Chão”, e em 2019 o segundo tomo, as “4 Estações d’O GAJO“, um disco quadripartido em 4 EPs, dedicados a quatro estações de comboio da capital – Rossio, Santa Apolónia, Cais do Sodré e Alcântara-Terra.

A viagem da campaniça mais punk de Portugal poderá ter parado com a pandemia, mas João Morais não. Fechou-se em casa a compor e, uns meses depois, convidou dois nomes maiores da música nacional, Carlos Barretto (contrabaixo) e José Salgueiro (percussão), para gravarem o trabalho agora editado via Rastilho – “Subterrâneos”. Um disco em que, naturalmente, a viola campaniça continua a ser o centro de todas as atenções. E é precisamente por essa ligação entre a peculiar viola alentejana e João Morais, que entretanto já tem cinco exemplares na sua colecção, que começámos a nossa conversa.

A campaniça é muito mais poderosa do que uma eléctrica, tens de te empenhar muito mais para que o instrumento soe e para que as pessoas sintam o que está a sair dali

Em que momento é que este instrumento surge no teu percurso?
A viola campaniça aparece na minha vida para ir ao encontro da minha necessidade de transportar as pessoas, através da música, para este rectângulo que é o nosso país. Tinha de ser um instrumento de cariz tradicional. Comecei pela guitarra portuguesa, porque era a que tinha em casa, mas não achei que me desse a liberdade criativa que procurava. Até que um dia me cruzei em Beja com um tocador de viola campaniça, instrumento que não conhecia, mas fiquei muito curioso e comecei a investigar. Apesar de ser uma viola da região do Alentejo, faz o serviço de transportar quem a ouve para o nosso país. Foi esta viola, mas até podia ter sido outra, como uma braguesa, por exemplo, só que não fui a Braga… Agora que as conheço a todas, julgo ter encontrado a mais completa. Precisava de um instrumento que funcionasse sozinho, sem complementos, em que não se sentisse falta de graves ou corpo suficiente para encher um palco. A braguesa talvez não fizesse o serviço da mesma maneira, já que o som é mais pequeno. A campaniça tem mais caixa, mais corpo, o espectro de frequências é maior.

Vens do underground e da electricidade. Quais foram as principais diferenças que encontraste entre tocar guitarra eléctrica e viola campaniça?
Tecnicamente, a exigência da campaniça é muito maior, porque o som é mais limpinho, tens de ser mais preciso a tocar. E emocionalmente ou até em termos de intensidade, a campaniça é muito mais poderosa do que uma eléctrica, pois tens de te empenhar muito mais para que o instrumento soe e para que as pessoas sintam o que está a sair dali. É por isso que acabo um concerto de uma hora completamente de rastos, o que não acontecia quando tocava eléctrica. Com a distorção e os efeitos, basta um gajo dar um toque e a guitarra fica a soar. Aqui, não, aqui tens mesmo de tocar. Falho um dedo que seja e nota-se logo tudo, está tudo no detalhe. Há uma intensidade que se ganha bastante ao tocar este instrumento.

Sentes que te tornaste melhor guitarrista?
Sim, não me considero um guitarrista fenomenal, tenho as minhas limitações, mas acho que se conseguires transpor alguma emoção (e para isso não é preciso técnica), a técnica pode ser apenas uma boa moldura para a emoção. Se tocares com alma, consegues tocar as pessoas. E é nisso que concentro a minha atenção, em ter um bom balanço; a capacidade de dar aquela nota com aquela intensidade específica, o que não acontecia com a eléctrica, pois o som é tão processado que não tens muito com que te preocupar. Com este som tão limpo, tens de te focar em cada nota, em cada palhetada. A exigência é muito maior. Não desvalorizo as guitarras eléctricas, mas sem dúvida que isto é ir mais ao âmago da questão.

Então, já não és gajo para voltar à eléctrica…
As minhas grandes referências continuam na barulheira. Mas vida são ciclos e é para lá que irei voltar um dia, mas nunca largando isto. É uma gestão que vou fazendo consoante a vontade.

Já experimentaste distorção e efeitos na campaniça?
Este disco tem o seu momento ‘jimi hendrixiano’, há um tema em que uso um wah-wah com distorção. É um pequeno apontamento, como quem diz: «Isto também funciona assim, malta. Também dá para meter uns efeitos».

Gosto que não se perca a presença da carne, senão, é a frieza dos computadores, da tecnologia. Não é para mim

E no processo deste disco, deu para improvisar ou foi tudo a régua e esquadro?
Sou muito matemático a compor, não tenho formação musical e não sou bom a improvisar, por isso organizo tudo o mais possível. Levei praticamente tudo já feito para os ensaios do disco. Houve alguns ajustes, eles [Carlos Barretto e José Salgueiro] alteraram algumas coisas, mas, de uma forma geral, já estava tudo mais ou menos finalizado. Não houve abertura para o improviso da minha parte, apenas para eles, naturalmente. Também não houve grande direcção musical de mim para eles. Deixei que estas duas almas trouxessem para o álbum o que faria sentido na cabeça deles. A secção rítmica gravou por cima das minhas guias. A cena é que não sou um ‘cromo’ e tive receio de estragar a fluidez de criação deles no momento da gravação. Para evitar isso, fiz vários takes na minha sala e levei-os para o estúdio. E foi a melhor ideia que poderia ter tido. Assim, fiquei na régie mais descansado a ouvir bem o que estavam a fazer e a assumir um pouco o papel de produtor. Se estivesse a tocar, ter-me-ia metido num grande baralho. E este disco, ao nível da secção rítmica, não estava 100% definido, por isso precisava de estar atento e não na minha bolha maluca, preocupado…

Usaste muitos truques para gravar a viola?
Não. Tentei ter o menos possível entre mim e a viola. Usei o mínimo de processamento. Há um reverb, só mesmo para dar algum ar à viola, mas é o mínimo possível. Nem sequer mudo de som em 90% do disco. Perguntaram-me em estúdio se não queria explorar mais em termos de som e efeitos, mas o que gosto é de chegar ao palco e conseguir reproduzir o que gravei e não ter de me preocupar com uma série de pedais. O ideal, na minha opinião, é chegar a um sítio e ligar a viola directamente à mesa e tocar. Claro que, neste disco, precisava de um pouco de reverb e do som amplificado, mas procurei um som muito real, o mais puro possível.

A tecnologia tem, portanto, um papel reduzido neste projecto…
Apenas bons micros para captar bem o contrabaixo do Carlos [Barretto], que também não tem processamento, não há pedais, é apenas o contrabaixo com dedos e arco, e para captar bem os ‘pandecos’ do José Salgueiro, que também não se põe a inventar. Fomos para Vale de Lobos porque tem bons micros e uma boa sala de captação. E sim, o papel da tecnologia é mesmo ultra reduzido. Estamos numa era em que a malta está muito nas electrónicas. Quando vejo malta atrás do computador, fico sempre naquela dúvida… O que é está a acontecer realmente e o que é que vem gravado de casa? Gosto que não se perca a presença da carne, senão, é uma frieza, caraças, a frieza dos computadores, da tecnologia. Não é para mim.

Não uso microfones em palco porque me mexo muito. Tenho um pickup LR Baggs, uma DI e um amplificador Schertler JAM 200W

Quantas violas campaniças tens?
Cinco.

De que madeiras são feitas?
Não te sei dizer ao certo, ainda por cima porque cada viola tem diferentes tipos de madeira, dependendo das peças que as compõem. Não é a minha área, por isso não vou ao fundo da questão.

Alguma é personalizada?
Sim, tenho uma, a que usei no vídeo para “Electro Santa”. Mas ainda não gravei com ela. Foi um processo muito difícil. Desde o momento em que a encomendei até a ter nas mãos foi um período muito longo, uns dois anos. Foi tramado. Fiz num luthier de Coimbra, o Fernando Meireles. A viola é excelente, mas como não toco da forma tradicional, há certas características, como por exemplo a afinação, que desejava ter de uma determinada maneira, mas que acabou por não se poder adaptar. Pedi-lhe uma determinada medida, que ele fez, mas depois não conseguia meter as cordas que queria… Enfim, tenho cinco violas e cada uma pede coisas diferentes e tem afinações diferentes, o que é uma chatice. É uma dor de cabeça. Só aí é que percebi porque é que não há tanta gente a tocar estes instrumentos.

Usas algum amplificador ao vivo?
Sim. Não uso microfones em palco porque me mexo muito. Tenho um pickup LR Baggs, que mais não é do que um micro amplificado dentro da viola, e depois utilizo um divisor de sinal, pois uso uma DI e um amplificador Schertler JAM 200W, que é óptimo para instrumentos acústicos. Tem um som do caraças, é brutal! Revolucionou os meus concertos. Faço som à viola em 10 minutos. Depois, o bombo, que também utilizo nos concertos, leva-me meia hora a fazer som [risos]. Mas para a viola consegui uma boa solução para os concertos, simples e eficaz. Experimentei vários amps, como o Roland Jazz Chorus, por exemplo, mas não funciona, é radicalmente diferente. Sai sempre muito processado. Este som que agora tenho foi revolucionário para a afirmação do meu projecto.

O álbum “Subterrâneos” foi editado em formato físico (vinil e CD) e também está disponível nas plataformas digitais. Aperta o play (em baixo) para ouvires a viola campaniça mais punk e psicadélica do país.

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