Protomartyr, Gritar Bem Alto no Meio da Escuridão

Protomartyr, Gritar Bem Alto no Meio da Escuridão

Nuno Sarafa

Quem conhece os Protomartyr, sabe que as suas canções são um tudo ou nada apocalípticas, vertiginosas e urgentes, mas a verdade é que nunca soaram tão feridas ou contundentes como nos soam no quinto álbum de estúdio, “Ultimate Success Today”, já disponível. Em entrevista à AS, o vocalista Joe Casey explica que o futuro é neste momento tão imprevisível que a única coisa que resta celebrar é mesmo… o agora.

Neste regresso três anos depois de “Relatives in Descent”, os Protomartyr surgem ainda mais pungentes com o seu pós-punk entre a fúria e o desalento; tão ásperos quanto progressistas, tão ácidos quanto melancólicos. E provam por que são uma das bandas de rock de culto mais respeitadas dos EUA. O novo álbum, gravado nos Dreamland Recording Studios, uma igreja do séc. XIX situada em Nova Iorque, é uma espécie de visão do fim.

Em “Ultimate Success Today”, Joe Casey, entre o cavernoso e o subtil, canta o fim do mundo. E para além de previsões devastadoras e visões do dia do juízo final, o vocalista da banda de Detroit admite que as dores que sentiu por alturas da composição do disco alteraram toda a sua forma de ver as coisas. E de as escrever. Casey sublinha à AS que o novo álbum serve essencialmente o propósito de ser «um encerramento de um capítulo».

«This is the time to say good bye» é uma das frases-chave do último tema deste álbum, que está carregado de referências apocalípticas. É uma despedida ou apenas o fim de um ciclo e o início de um novo?
Este disco foi escrito num certo sítio de medo e de incerteza em relação ao futuro. Realmente não sei o que nos espera no futuro. Normalmente, costumo saber para onde vou, mas neste momento não sei nada. Este disco é seguramente o fim de alguma coisa que não sei bem o que é. E é, em paralelo paradoxal, o início de algo novo. Espero que seja algo bom.

É verdade que estavas doente quando gravaram este disco? De que forma isso influenciou o ambiente do álbum?
Sim, é verdade. E tentei escrever letras poéticas sobre estar doente, mas só me saiam coisas que me pareciam falsas, que não captavam a essência do que estava realmente a sentir. E quando uma pessoa está ou se sente doente tem a sensação de estar a perder a cabeça. Quando se está com dores inexplicáveis não se consegue pensar em mais nada a não ser na doença. E isso é parte do problema. É tudo acerca da dor, só pensas na dor. Captar esse sentimento foi o desafio que coloquei a mim próprio, um desafio extra. Quando se está a sofrer não se consegue ver o futuro; coisas que julgo toda a gente estar a sentir neste momento que vivemos. E escrevo sempre sobre o que estou a sentir e a passar no momento da criação. Se tiver de escrever outro álbum, porque neste momento não podemos fazer nada, já que não podemos ir para a estrada tocar, provavelmente será sobre tentar perder peso, porque engordei durante a quarentena [risos].

O título “Ultimate Success Today” é uma espécie de antítese ao que acabaste de descrever.
Temos tido títulos desse género, tipo “No Passion All Technique” ou “Under Color of Official Right”, outro título bonitinho… Mas “Ultimate Success Today” apareceu-me porque, tal como disse, quando se está doente, o futuro não parece muito promissor. O passado pode influenciar-te, mas não te pode controlar, nem tu ao teu passado. E o hoje é aquilo que tu tens na mão. A única coisa que podes realmente controlar. É o único sítio onde podes fazer alguma coisa. É o viver o momento. É isso o que este título representa.

Este é, provavelmente, o vosso trabalho mais completo em termos de camadas de som e produção, com mais arranjos e instrumentos de sopro [participam a lenda do jazz Jemeel Moondoc no saxofone alto, Izaak Mills no clarinete, saxofone e flauta e Fred Lonberg-Holm no violoncelo]. Nunca tinham tido tantas colaborações externas nos vossos álbuns. Estão em busca de novos caminhos?
Sim. O guitarrista, o Greg [Ahee] tem um papel fundamental nisto tudo, ele é que traz as ideias em rascunho. Depois cria os arranjos, normalmente é ele que faz esse trabalho. E neste disco tentámos refrescar o nosso som, tentar manter as coisas interessantes. Mas foi praticamente tudo feito no estúdio. Se tivéssemos praticado muito na fase de composição, com os saxofones ao barulho, julgo que não nos iria soar tão bem. Para nós, o processo de criação tem que ser mais ou menos um acto de estupidez, ir ao encontro do desconhecido. E o Greg é muito bom nestas coisas. E estou até impressionado com as ideias e arranjos que ele trouxe para este disco. Porque, na verdade, quando estamos no estúdio, nem quero estar na sala de captação porque, para mim, consegue ser muito entediante. Normalmente, vou para outra área do estúdio, noutro piso, dormir ou fazer outra coisa qualquer. E agora que posso ouvir tudo já feito, quando o faço nos meus headphones fico do tipo: «O que é que se passa aqui? Uau». E o Greg é o principal responsável por muitas dessas coisas boas que vou ouvindo. E é este tipo de coisas que nos mantém entusiasmados por estar nesta banda, porque eu não faço ideia de para onde poderemos ir a seguir.

Eu sabia apenas que me estava a inspirar pela dor e pela insatisfação e queria apenas gritar bem alto no meio da escuridão

“Tranquilizer” é um bom exemplo de como as vossas canções dão reviravoltas em termos de intensidade. É propositado para captar atenção a todo o tempo ou é algo inconsciente?
Tento sempre responder ao que a música pede. É o que gosto de fazer. Mesmo que a tenha praticado muito antes de entrarmos em estúdio… É sempre uma coisa do momento, daquele preciso momento em que estás a gravar. Por exemplo, nesse tema, tudo o que tínhamos era uma linha de baixo e não imaginávamos para onde iríamos levar a canção. Sabia apenas que me estava a inspirar pela dor e pela insatisfação e queria apenas gritar bem alto no meio da escuridão, tal como quando metemos os saxofones malucos, a ideia era gritar no meio da escuridão. E depois ficámos a pensar: «Será que isto vai resultar?» Não sabíamos. Nunca se sabe. Essa canção foi realmente criada no estúdio, como a partir de uma folha em branco. Normalmente, chego ao estúdio, gravo em dois minutos e vou embora. Mas agora prefiro o contrário, torna tudo mais interessante se tiveres tempo de estúdio para fazeres experiências, é mais estimulante. Foi muito divertido fazer esse tema no estúdio.

Na canção “June 21” há a participação delicodoce de Nandi Rose, a.k.a. Half Waif. Como surgiu essa colaboração?
Foi ideia do produtor [David Tolomei – Dirty Projectors, Beach House]. Ele queria uma voz mais bonita, uma voz feminina junto da minha, para que a minha voz soasse… Não diria melhor, mas diferente. O David já tinha trabalhado com ela e sabia que ela estava interessada em fazer mais colaborações com outras bandas. Ela tem condições para fazer tudo desde casa. Todas as vozes que nos enviou eram incríveis. Foi muito fácil trabalhar com ela. E acho que resultou muito bem.

Detroit é conhecida pela sua cena punk. Ainda se sentem parte da comunidade?
Recentemente, fui convidado a escrever um artigo sobre as minhas bandas preferidas de Detroit, mas a verdade é que já nem sei que bandas continuam juntas, quais se separaram… E um dos problemas de envelhecer é que já não se sai tanto de casa, já não vou a concertos de punk rock. A cidade ainda está lá, mas costumo estar sempre em casa. Mas sei de algumas bandas fixes, claro, como os Toeheads, por exemplo… O problema é que a cena já não é a mesma, quer dizer, são todos teenagers, todos muito novos e eu já não sou… [risos]

Prometo que, quando voltarmos a Portugal, pelo menos, estarei tão bonito quanto o gajo mais feio dos Interpol

Cinco álbuns e mais de uma década de actividade depois, qual é a relevância de uma banda como os Protomartyr hoje em dia? Ainda sentem aquela urgência juvenil?
[Pausa longa do outro lado…] Definitivamente, agora é que sinto urgência! Antes, a urgência era «vamos fazer isto agora, porque podemos não voltar a ter a oportunidade de o fazer». Agora, a urgência é «vamos mesmo tentar continuar a fazer isto, porque podemos não voltar a ter a oportunidade de o fazer». Parece igual, mas não é. A cena é mais emocional, temos de nos continuar a mexer porque a cena pode facilmente desmoronar-se. É a cena maravilhosa, e ao mesmo tempo assustadora, de se estar numa banda… Nunca sabes o que vai acontecer. É como o agricultor que tem um terreno maravilhoso e que produz alimentos maravilhosos e, a partir de um certo momento, o terreno pode deixar de lhe dar essas coisas. O álbum já está cá fora e para mim é um enorme alívio e vamos já olhar para o próximo capítulo. O problema agora é descobrir qual vai ser próximo capítulo. Os clubes estão fechados ou vão fechar em todo o lado, seja em Inglaterra, aqui ou noutro sítio qualquer. Não há dinheiro e estou preocupado com o futuro, com o futuro da banda… Vamos fazer o melhor que conseguirmos.

Li um comentário que referia o seguinte: «Os Protomartyr são uma espécie de Interpol feios, gordos e pobres». As comparações, sejam elas de que forma forem, ainda vos incomodam?
[Gargalhada bem alta!] Quando terminarmos esta entrevista, vou desligar o telefone, vou olhar-me ao espelho e ficar do tipo… «Ohhhhh, estou feio e gordo, o que me aconteceu?» Não, a sério, há muitas bandas com rapazes bonitos e que por vezes cantam as mesmas coisas que canto e fico a pensar: «Hey, rapaz bonito, não tens nada com que te preocupar, não mintas». Por isso, acho que há uma autenticidade na nossa falta de beleza e gosto disso [risos].

Será que vos veremos em Portugal em breve?
Queria tanto dizer que sim… Mas estamos a viver momentos muito estranhos. Já tocámos em Portugal, num clube bem fixe [Musicbox, em 2018 e também no Primavera Sound, no Porto, dois anos antes]. Adorámos e gostaríamos muito de voltar. Se me disserem que amanhã há uma vacina e a puder tomar… Diria que apanhava o próximo avião para Portugal. Mas estou preocupado, não sei como será o próximo ano. Todas as bandas vão querer tocar em 2021, mas não sei se haverá salas para isso… Provavelmente, o mercado vai tornar-se um pouco claustrofóbico. Mas havemos de regressar. E prometo que, quando voltarmos a Portugal, pelo menos, estarei tão bonito quanto o gajo mais feio dos Interpol [risos].

Enfrentamos tempos de incerteza e a imprensa não é excepção. Ainda mais a imprensa musical que, como tantos outros, vê o seu sector sofrer com a paralisação imposta pelas medidas de combate à pandemia. Uns são filhos e outros enteados. A AS não vai ter direito a um tostão dos infames 15 milhões de publicidade institucional. Também não nos sentimos confortáveis em pedir doações a quem nos lê. A forma de nos ajudarem é considerarem desbloquear os inibidores de publicidade no nosso website e, se gostam dos nossos conteúdos, comprarem um dos nossos exemplares impressos, através da nossa LOJA.