REPORTAGEM | As Mulheres na Música em Portugal

REPORTAGEM | As Mulheres na Música em Portugal

Nuno Sarafa

Terão as mulheres que trabalham na música em Portugal os mesmos direitos dos homens? A mesma visibilidade? Ou serão olhadas com condescendência? Sofrerão todas de discriminação? Ou apenas algumas? Terão as mesmas oportunidades, ou terão de provar, a cada instante, as suas capacidades? Esta é uma viagem ao mundo da música portuguesa no feminino.

«A situação das mulheres é pior do que a dos homens pelo simples facto de serem mulheres (…) É hora de parar de tentar mudar as mulheres e começar a mudar os sistemas que as impedem de alcançar o seu potencial». Faz-nos sentido iniciar esta reportagem com uma frase genérica grafada no site das Nações Unidas, não para colar este artigo a uma espécie de bandeira do feminismo, mas antes como nota introdutória para um quadro demonstrativo de algumas das dificuldades que as mulheres possam sentir, por exemplo, num meio dominado pelos homens: a música em Portugal, ou o universo rock, para sermos mais específicos.

Antes de conhecermos algumas das mulheres do nosso meio musical actual e as suas histórias, opiniões, lutas e resistências, olhemos para alguns factos. É preciso recuar até Junho de 1928 para darmos de caras com a primeira obra fonográfica no feminino registada na Sociedade Portuguesa de Autores (SPA). A ‘proeza’ tem um nome: a violoncelista Adelaide Saguer e o tema “Valsa Lenta”. Um caso que se revelaria raro nas décadas seguintes.

Para termos noção da disparidade dos números, desde 1928 até 2018, a SPA tinha 1008 mulheres registadas como compositoras ou compositoras e autoras (com categoria de C ou CA) e 8241 homens registados como compositores ou compositores e autores (com a categoria de C ou CA). Uma diferença abissal. No que ao rock diz respeito, o aparecimento deste género musical no nosso país está quase sempre associado a Os Conchas e a Daniel Bacelar, em 1960, mas a verdade é que não será bem assim. No filme-documentário de 2019 “Ela é uma Música”, de Francisca Marvão, o arquivista Luís Futre explica que o rock chegou a Portugal um pouco antes pela mão de Zurita de Oliveira, meia-irmã do actor Camilo de Oliveira, com o tema “O Bonitão do Rock”.

Importa reter também que, até meados dos anos 1970, muitas autorias no feminino eram remetidas para o colectivo ou para homens que liderassem os respectivos grupos, uma situação que começaria a ser alterada apenas nos pós-25 de Abril de 1974. Amália Rodrigues, por exemplo, não registou, em 1959, “Estranha Forma de Vida”, poema da sua própria autoria, tendo a diva do Fado pedido ao então cunhado Varela Silva para fazer o registo na SPA. Porquê? Porque era mulher e tinha medo do que os outros pudessem dizer ou, simplesmente, pensar.

Outro exemplo demonstrativo do domínio histórico dos homens no meio musical é o da banda sinfónica da GNR, fundada por D. Maria II em 1838, mas que, até meados dos anos 1990, não tinha nas suas fileiras uma única mulher.

Um dos primeiros artistas masculinos a pôr o dedo nesta ferida aberta foi o então exilado em França José Mário Branco, em 1972, com o tema “Aqui Dentro de Casa”, do álbum “Margem de Maneira Certa”. «Sou tua criada boa e dedicada / Na praça, na casa e na cama / Tu só me vês quando vestes pijama / Mas não me ouves se digo que quero existir».

No entanto, ainda que longe da perfeição, as coisas mudaram muito nos últimos anos. Na última década, década e meia, registou-se em Portugal um boom de compositoras, músicas, agentes, assessoras de imprensa, técnicas de som ou de luz, sem medo, nem vergonha de se assumirem como protagonistas principais num mundo dominado pela figura masculina.

Neste ponto, são inúmeras as questões que se colocam: terão estas mulheres os mesmos direitos? Terão a mesma visibilidade? E as invisíveis, aquelas que trabalham diariamente para lá das cortinas dos palcos? Quantas são? Onde estão? Serão primus inter pares ou apenas peões olhados de lado e com condescendência? Sofrerão todas de discriminação? Ou apenas algumas? E porquê? Terão as mesmas oportunidades ou terão de provar, a cada instante, as suas capacidades só porque são mulheres?

Esta é, sem dúvida, uma história de luta, resistência, preconceito, desigualdade, igualdade. Não é machismo. Não é feminismo. É Humanismo. E até pode parecer fácil dizer que há, no ser humano, espaço para a mudança, para a evolução. Mas há também que admitir o longo caminho ainda por percorrer.

Soraia Simões de Andrade, investigadora e escritora

MULHERES E HOMENS OCUPAM ESPAÇOS DIFERENTES

Soraia Simões de Andrade é investigadora da FCSH NOVA Lisboa e escritora. No âmbito académico, tem publicado sobre a dimensão histórica da linguagem literária na música e a relação entre cultura, sociedade e género. No âmbito literário, publica com o pseudónimo Laura do Céu, junção dos nomes das suas avós. É também curadora da plataforma Mural Sonoro, webmagazine de natureza cultural, informativa e científica que criou em 2010. Galardoada, em 2014, com o Prémio Megafone da Sociedade Portuguesa de Autores, fundou, nesse mesmo ano, com João Fontes da Costa, a Associação Mural Sonoro, uma Organização Cultural sem fins lucrativos. É ainda responsável pelo podcast Mural Sonoro – Mulheres na Música. E foi com base em toda esta experiência de investigação que une mulheres e música que a entrevistámos.

As abordagens que Soraia Simões de Andrade tem feito nos últimos sete anos, e especialmente a partir da sua dissertação de mestrado e que, agora, no essencial, se repetem no âmbito do seu actual projecto de tese de doutoramento, centram-se especialmente na «dimensão histórica da linguagem artística, em particular nas letras e nos poemas escritos no âmbito musical por mulheres a partir dos anos 1970», ou, se quisermos, «a relevância da canção literária dessas mulheres que, mesmo dissociada do seu suporte musical e do tempo em que é produzida, é capaz de traduzir um conjunto de questões sobre quem somos, como agimos e como pensamos, questões essas que não são estanques e que contribuem para a construção e a consolidação de ideários utópicos».

A investigadora explica-nos o porquê de investigar estas temáticas. «Muitos destes repertórios são fixados num determinado tempo histórico ou numa circunstância, pelo registo audiovisual ou discográfico. Percebi que neles existe uma abrangência histórica e cultural que era inexistente na história contemporânea, faltava uma reflexão aprofundada com ligação às artes da palavra sobre estes trabalhos».

No âmbito da sua dissertação de mestrado [publicada posteriormente, livro “Fixar o (in) visível”, edição de 2019, Editora Caleidoscópio], Soraia Simões de Andrade procurou «introduzir uma discussão sobre os primeiros textos de rap e as narrativas dos que foram gravados em Portugal, em pleno cavaquismo, por editoras discográficas na altura de grande notoriedade, como a Sony, a Vidisco, a BMG ou a Valentim de Carvalho».

O livro, resultado dessa investigação académica, expressa «como os primeiros grupos masculinos de rap a gravar em Portugal inscreveram na memória social, por via daquelas letras, assuntos como o capitalismo, as desigualdades sociais, a presença do corpo negro e do corpo imigrante, numa sociedade, a portuguesa, em transformação profunda ao nível dos discursos e das indústrias de publicação – o momento profícuo nas indústrias de gravação de discos vivido depois da entrada na CEE [actualmente União Europeia], o papel de alguns jornais até do centro direita, de programas de rádio e do início das televisões independentes com os seus discursos ambíguos sobre as margens do poder».

A investigadora lembra que «as primeiras mulheres nesse universo cultural, dos grupos Divine e Djamal, introduziram nos seus repertórios um conjunto de outras questões relacionadas com a sua condição de mulheres negras suburbanas, a violência sexual dentro e fora dos bairros, o VIH-SIDA, a violência sobre o corpo das mulheres, tudo temáticas que ficaram na penumbra dessas análises acerca do rap em Portugal». Revela ainda como o próprio meio cultural e científico foi complacente com a invisibilização dos assuntos descritos nas letras dessas mulheres.

No projecto de tese de doutoramento em curso [“A rota das letras e poesias de Amélia Muge pós-independência. Autoria, representações, identidades e utopias”], Soraia centra a pesquisa fundamentalmente na revalorização simbólica de identidades culturais e sonoras, depreciadas ou abolidas no período colonial, e a ligação à diáspora africana, aquilo que foram suportes essenciais no caminho da autora Amélia Muge como escritora de canções, tanto as que escreveu para interpretar, como para outros em diferentes contextos ou circunstâncias.

O meio não é progressista, as ideias transmitidas sobre esse mundo é que o são

A investigadora da Universidade Nova considera que todas estas propostas procuram abrir espaço a uma melhor compreensão sobre o facto de se escutarem mais as letras de umas canções do que outras. «A presença e o esquecimento destes repertórios poder-se-ão relacionar não apenas com a influência de periódicos de projecção social, ao poder e atenção dos críticos, mas com a inclusão dos repertórios em currículos escolares, o uso de determinados registos da linguagem, os estereótipos criados socialmente, as hegemonias do discurso histórico da cultura e das artes – predominantemente masculinas na literatura da canção de protesto –, e os imaginários sociais que determinadas práticas artísticas convocam».

Há, salvo as distâncias históricas e os textos de todas estas mulheres, algo que Soraia crê semelhante e que pode deixar outras pistas. «Existe uma invisibilização desses textos, desde logo porque os textos dessas mulheres não ocupam, na memória social, o mesmo lugar que textos de outros autores seus pares. No caso dos grupos femininos de rap, os textos, que afinal nos traziam questões pioneiras relevantes sobre duplas discriminações (classista, racial, sexista), não têm o mesmo espaço que os da mesma época, de nomes como Black Company, Boss AC ou General D».

Para Soraia, no caso de Amélia Muge, que inicia a sua actividade ainda em Moçambique, onde nasceu, e a partir de 1975, com o compositor Jorge Constante Pereira e o poeta e artista plástico António Quadros, os seus textos não ocupam o mesmo lugar que os de alguns autores com os quais viria a trabalhar a partir da segunda metade dos anos 1980 e nos anos 1990, já em Portugal, como Fausto ou José Mário Branco.

«Por estarem nas margens do campo de poder, isto é, por serem inexistentes ou silenciadas nesses campos, as mulheres podem estar também num lugar privilegiado, com uma maior distância dos factos da narração da violência e dos traumas dentro do poder. Ou seja, o sujeito feminino tem um modo de reconstruir pedaços dessa narração e posicionar-se, uma espécie de confronto entre o pensar e o representar um determinado cenário social ou uma determinada conjuntura histórica. No caso de Amélia Muge, embora esta seja parte integrante do universo da canção literária de protesto, ela não representa essa canção na memória social, isto é, ela não representa o mesmo que José Mário Branco, Luís Cília ou Tino Flores, a título exemplificativo, que é o mesmo que afirmar que as suas obras não têm a mesma presença e legitimação que tiveram as canções de autores, desertores e refractários, nem o mesmo lugar que estes representam para a maioria das pessoas. Mas ela representa aquela que fala da experiência do outro. Uma voz feminina que ganha poder na margem do poder e da decisão, mas que levanta a sua voz para falar, poética e metaforicamente, de assuntos semelhantes, a partir do exíguo espaço que lhe cabe».

Posto isto, para esta investigadora, e ao contrário do que se possa pensar, «o meio artístico não é progressista», as ideias transmitidas sobre esse mundo é que o são. «No sentido mais elementar: a sociedade tem desigualdades estruturais. As relações entre homens e mulheres nesse meio, como noutros, exploram a ligação com a nossa organização social e com as hierarquias de poder, com as identidades culturais, com as dinâmicas de aceitação ou subordinação, e a forma como estas se constroem, reconstroem, se afirmam, e se reafirmam quer nas artes, como no discurso público, por conseguinte, no discurso histórico, no literário, no culturalista, no jornalístico, no mediático e mediatizado».

A discussão, conclui Soraia Simões de Andrade, «tem-se aberto para este e outros assuntos relacionados com secundarizações, muitas vezes, e isso é pena, de modo supérfluo e pouco profundo, indo-se na espuma dos dias. Como todas as mudanças, quando tocam ao íntimo e à estrutura de uma comunidade, demoram tempo. Algumas acompanhar-nos-ão ainda muitos anos».

Joana Espadinha, compositora. Foto de Joana Linda

Espera lá, mas vais ter filhos?

Ao avançar para este artigo, debati-me com uma dúvida deontológica. Falar com a Joana Bettencourt Espadinha, mais conhecida no mundo da música como Joana Espadinha, sempre foi uma escolha natural, quer pela proximidade, porque toco bateria com ela, quer porque respeito muito as suas posições no que a este tema em concreto diz respeito, assim como a sua ética laboral, que testemunho regularmente na primeira pessoa. Depois de pesar bem todos os factores relacionados com a ética profissional e perceber a inexistência de quaisquer conflitos de interesse, decidi seguir em frente.

Enquanto completava a Licenciatura em Direito na Universidade Nova, Joana decidiu dedicar-se ao amor que tinha pela música e começou a dar os primeiros concertos mais a sério, ao mesmo tempo que se inscrevia, aos 19 anos, no curso de canto da Escola de Jazz Luís Villas-Boas, do Hot Clube de Portugal. Uma vez terminados os estudos no nosso país, Joana foi para a Holanda fazer uma Licenciatura em canto jazz no Conservatório de Amesterdão, desenvolvendo ainda mais competências – que lhe permitem, de há 10 anos a esta parte, ser simultaneamente música e professora dos cursos de jazz no Hot Clube e na Universidade de Évora.

Joana Espadinha, que, além de três discos em nome próprio, já escreveu canções para artistas como Carminho ou Cláudia Pascoal, admite não ter consciência de ter perdido algum trabalho pelo simples facto de ser mulher, mas mostra-se algo incomodada quando as pessoas se revelam surpreendidas pelo facto de, além de cantora, ser compositora. «O que me acontece mais é sentir que as pessoas acham que quem compõe as minhas canções é o Benjamim [produtor de “O Material Tem Sempre Razão” (2018) e “Ninguém Nos Vai Tirar o Sol” (2021)] ou outra pessoa qualquer, ou então assumirem que apenas escrevo as letras e não as músicas. Aprendi a fazer maquetes no Logic e nestes dois últimos discos esse processo inicial é integralmente da minha autoria», afirma Joana que, além das letras, escreve igualmente os arranjos de vários instrumentos, desde teclados, baixos ou baterias.

«Sinto uma certa condescendência e alguma surpresa quando algumas pessoas sabem que sou eu quem escreve as minhas próprias músicas. Irritar-me é uma palavra forte, até porque pouca coisa me irrita, mas entristece-me sentir que ainda há muitas mulheres que não são levadas a sério como compositoras, instrumentistas ou líderes de banda. É sempre assumido que elas têm uma equipa por trás que faz tudo por elas e que elas são apenas uma cara ou uma voz bonitas. Isso é condescendente e não corresponde à verdade», acrescenta a compositora que, na sequência da criação do grupo Mulheres no Jazz – que aborda as questões de género no meio jazzístico -, tem reflectido muito sobre este tema.

«Na questão da educação para a música, a tendência é incentivar as mulheres a serem cantoras, porque é o instrumento supostamente mais fácil, e isto não é uma coisa muito consciente, acontece, mas importa analisarmos porquê. A verdade é que existem muito mais mulheres cantoras do que instrumentistas. Não sei se tem que ver com os preconceitos em relação à questão da força física necessária para tocar determinados instrumentos. Muitas pessoas dizem que se houvesse mais mulheres a tocar bem bateria, teriam mais trabalho, só que não há, por isso não as contratam. E isto é aquele tipo de argumento que faz com que a coisa nunca se resolva, porque as pessoas muitas vezes nem têm consciência de que isso é um preconceito».

Para desmistificar a discriminação e o preconceito, Joana recorda uma experiência feita na música clássica, entre os anos 1970 e 1980, nos EUA, e que revolucionou, em certa medida, aquele meio em particular. «Quando as audições para as orquestras passaram a ser feitas às cegas, em que nem sequer permitiam às mulheres usarem saltos altos para que não se percebesse que eram mulheres assim que entrassem nas salas de audição, o número de músicas nas orquestras aumentou entre 30% e 50%. Só essa pequena mudança fez com que as coisas se equilibrassem…». Note-se que antes destas audições cegas, grupos como a Filarmónica de Nova Iorque e a Orquestra Sinfónica de Boston tinham menos de 5% de integrantes mulheres. E a polémica sempre rondou o tema, como foi o caso do russo Vasily Petrenko, que, em 2013, afirmou que mulheres regentes seriam uma «distração erótica» para os músicos da orquestra e que «quando as mulheres têm famílias, torna-se difícil que elas se dediquem como é demandado na indústria».

Pegando nesse tópico, Joana Espadinha, que também é mãe, tem a perfeita noção de que a maternidade, além da imagem e da idade, podem, de facto, ser usadas contra as mulheres artistas. «O peso que a imagem da mulher tem é um factor determinante, pois é muito mais relevante do que no caso dos homens. Por exemplo, no caso das mulheres, se se apresentam a uma editora, a boa ou má imagem tem muito mais impacto. Isso não acontece tanto com os homens. Há ainda a questão da maternidade. Foi algo que ouvi várias vezes, de vários profissionais que trabalharam comigo na indústria musical. É do tipo: “Espera lá, mas vais ter filhos?” Isso coloca-nos em desvantagem, porque a maternidade obriga-nos, numa certa fase, a estar ausentes e a não nos podermos dedicar ao trabalho da mesma forma. Há também o peso da idade. Se já passaste dos 30 já não és tão apetecível para uma editora. Digo isto, mas tenho editora, a Valentim de Carvalho, que apoia os meus discos. Estou a dizer isto porque sei que acontece».

O facto de a educação musical ter explodido em Portugal tem, segundo Joana, feito com que estas coisas se comecem a equilibrar ou esbater. «É a história de dar a cana e não dar o peixe. Não é para dar esmolas às mulheres, é capacitá-las para poderem estar em condições de igualdade. No meu percurso foi muito importante ter trabalhado com pessoas que sempre me trataram de igual para igual e que me quiserem capacitar. Quando comecei a escrever música, eu, insegura, mostrei as minhas canções aos músicos que trabalhavam comigo e até acho que na altura não eram grandes canções, mas todos eles foram sempre muito entusiastas e isso foi fundamental para continuar a escrever».

Na escola do Hot Clube, recorda a compositora, foi incentivada a «improvisar, a cantar acordes, para além de interpretar as canções». Incentivaram-na a fazer «todas as funções tradicionalmente desempenhadas por homens». Quando chegou a Amesterdão, «era uma das poucas cantoras que improvisava e escrevia música». Mas isso também foi mudando. E ainda bem. Se bem que nem tudo é perfeito. No mundo do jazz, um dos mundos de Joana, tudo «é muito masculinizado». Por exemplo, «tendencialmente, as mulheres tocam menos instrumentos de sopro, havendo até quem diga que a razão se prende com o facto de os instrumentos terem formas fálicas». E quando falamos de jam sessions, a coisa piora. «É um meio ‘testoterónico’. As mulheres cantoras, que são um bicho à parte no meio jazzístico, têm mais dificuldades e são menos incentivadas a improvisar, e numa jam session têm uma desvantagem, que é a questão dos tons dos standards. Muitas vezes, os tons originais dos standards são desconfortáveis, porque muitos deles foram escritos por homens. Isso faz com que as jam sessions sejam muitas vezes hostis para cantoras».

Sobre o (menor) espaço que as mulheres ocupam na indústria musical, Espadinha sublinha que, «se olharmos para os cartazes dos festivais, ainda há um grande desequilíbrio entre homens e mulheres». Mas a cantora recorda que não é aí que começa a discriminação, mas antes ao nível da cultura e educação. «É uma questão puramente matemática: se houver menos mulheres instrumentistas, naturalmente vão ter menos trabalho do que os homens. Elas são quase sempre encaminhadas para serem cantoras. No máximo, para tocar piano. Mesmo assim, assume-se sempre que há poucas mulheres instrumentistas e, dessa forma, pensa-se pouco em contratar mulheres».

Embora defendendo que «não podemos assumir que as mulheres são todas iguais, pois há boas e más profissionais, assim como os homens, em qualquer parte do mundo», Joana considera que o que a mulher pode trazer de melhor para este meio profissional é a sua experiência e visão enquanto mulher. No entanto, reforça que ainda fazem falta modelos femininos a que aspirar. «Quase todos os heróis são homens. Se não tens modelos em que te inspirar, é normal que não procures aqueles caminhos… Mas cada vez mais vão aparecendo e crescendo figuras inspiradoras e isso é muito importante para que apareçam mais mulheres a desempenhar funções que antes não desempenhavam».

Porventura serão os modelos de quotas uma solução? «Essa questão não é nada fácil, porque as quotas também podem ter um efeito perverso. Como a meritocracia não funciona em pleno, pois continua a haver discriminação e desigualdade, as quotas são um mecanismo de equilíbrio que queremos que no futuro não seja necessário. Não consigo dizer que devia haver quotas, por exemplo, em festivais, não sei se o efeito não seria mais nefasto, até pela própria desvalorização da artista contratada. Também é perigoso para a liberdade artística do programador esse tipo de condicionante».

Suse Fernandes, técnica de som

AS MESMAS FUNÇÕES, SALÁRIOS DESIGUAIS

Quem já foi a um festival de Verão e gosta de ver todos os preparativos de cada concerto, provavelmente, já a viu em cima do palco, vestindo preto integral, a passar cabos, conferir ligações, microfonar baterias e testar o som para que nada falhe. Suse Fernandes tem 33 anos de idade e 11 de profissão. Passou os primeiros 20 em Alcobaça e actualmente vive em Oeiras. A sua ligação à música começou logo aos cinco anos, quando foi estudar teclado, instrumento que trocou pelo piano acústico algum tempo depois, uma experiência que terminaria quando entrou na Universidade.

Suse fez uma Licenciatura em Som e Imagem na Escola Superior de Artes e Design – ESAD, nas Caldas da Rainha e, quando terminou o curso, fez um estágio na Fundação Calouste Gulbenkian. Não é mulher de perder tempo e cedo soube o que queria fazer na vida. Tanto que no dia seguinte a ter terminado o estágio na Gulbenkian começou a trabalhar numa pequena empresa de som da Amadora, a CEPA – Audiovisuais. «Fazia pequenos espectáculos de fado e de jazz em locais como o Goethe-Institut». Nesse verão, recorda, conheceu o director técnico do Festival de Teatro de Almada, que a convidou para uma temporada no Teatro Nacional D. Maria II, após a qual deu início à sua carreira como freelancer, trabalhando em festivais como Paredes de Coura, Sudoeste ou Primavera Sound. Até que, em 2014, assinou um contrato com a Culturgest, em Lisboa.

«Se calhar, tive sempre sorte. Já vi mulheres com mais problemas no trabalho do que eu. Houve uma boca ou outra, mas nada de especial, nada que me tenha marcado muito», conta Suse Fernandes à AS, admitindo no entanto que a sua actividade, a nível físico, nem sempre é fácil, o que pode introduzir algumas comparações à narrativa quotidiana. «Não tenho o arcaboiço de um homem de 1,80m e 100kg, mas nunca me senti ostracizada ou excluída por ser mulher. Também nunca dei grandes hipóteses. Com o meu feitio é impossível [risos]. Aliás, fiz amigos para a vida».

Em momento algum esta técnica de som se escondeu do trabalho. Nem atrás do tradicional esparguete de cabos. E muito menos atrás das flight cases. Suse diz que, na estrada, nunca sentiu necessidade de ter de provar as suas capacidades. Mas admite que a sua vida no actual local de trabalho nem sempre foi fácil. «Senti mais essa questão de ter de provar que sei o que faço aqui na Culturgest. Mais do que na estrada. A questão é que fui a primeira mulher em 20 anos a trabalhar aqui. Na estrada é mais fácil encontrar mulheres a trabalhar na área técnica. No início, na Culturgest, estavam meio reticentes, tinham dúvidas se eu conseguia fazer o trabalho ou não, mas nunca me senti posta de parte. Fui mostrando serviço e sinto-me perfeitamente integrada na equipa».

Suse realça, inclusivamente, que «a presença de uma mulher numa equipa técnica relativiza muito as coisas no dia-a-dia» e contribui «para que deixe de haver aquela tradicional luta de galos». Há, defende, «um efeito muito positivo quando existe uma mulher numa equipa técnica».

No entanto, quando tocamos no assunto diferenças salariais, esta técnica de som lamenta a falta de… equalização. «Recebo menos do que o meu colega que faz exactamente as mesmas coisas que eu faço. Tudo bem que ele já cá estava há muito tempo, mas acho que não se justifica tanta diferença salarial. Sei que tem que ver com a estrutura da casa e o budget existente, mas a diferença devia ter sido esbatida logo quando entrei. A verdade é que fazemos o mesmo trabalho. Aliás, quando o meu colega foi de licença de paternidade, assumi o trabalho todo e nem por isso as coisas mudaram. Mas de resto é tudo igual, não sinto qualquer discriminação».

Rafaela Ribas, agente e manager. Foto de Edgar Keats

Nunca senti que tinha de trabalhar mais por ser mulher

Rafaela Ribas tem 44 anos e é agente e manager de A Firma, empresa dedicada à gestão de carreira e ao agenciamento de espectáculos de vários artistas nacionais, é presidente da Associação Espetáculo – Agentes e Produtores Portugueses e formadora na ETIC – Escola de Tecnologias Inovação e Criação.

Trabalha em música desde 1998, quando abriu uma editora discográfica e uma agência e management em Londres enquanto tirava o curso de Engenharia Electrotécnica. Com um percurso solidificado no sector musical nacional, esta agente, que um dia trocou definitivamente a Electrotecnia pela música, já lá vão 12 anos, representa, hoje em dia, nomes como Sean Riley & The Slowriders, Keep Razors Sharp, Mazgani, Mirror People, Neon Soho ou As Canções da Maria. Um terço dos artistas representados por Rafaela Ribas são mulheres.

«Sei que existe no sector musical em Portugal, mas tive a sorte de nunca ter sentido discriminação no trabalho», começa por referir Rafaela à AS, admitindo mesmo que a única discriminação que sentiu «até foi positiva». Mas adverte: «O que não significa que seja assim com todas as mulheres que trabalham neste meio».

O meio musical em Portugal é, já se sabe, «muito masculinizado», mas Rafaela defende que mulheres e homens podem e devem fazer o mesmo trabalho. «Nunca perdi um trabalho por ser mulher. E nunca senti que tinha de trabalhar mais ou provar o que quer que fosse por ser mulher», sublinha esta agente que, no entanto, diz «trabalhar muito, sempre». Um facto não dissociável de um elemento determinante: a igualdade lá em casa. «Dedico-me muito ao trabalho, mas é importante referir que para essa conciliação entre a vida de casa, o trabalho e os filhos, tenho a sorte de ter um marido [o músico Miguel Ângelo] que faz tudo, portanto, até a esse nível tenho tido sempre tudo muito bem equilibrado».

Inês Matos, guitarrista. Foto de Vera Marmelo

Será que a ‘chavaleca’ se safa?

Inês Matos tem 23 anos e pegou pela primeira vez numa guitarra aos nove. A paixão pelas seis cordas foi tão imediata que um ano depois começou a ter aulas com Rafael Chiotti e, para satisfazer o crescente interesse pela guitarra eléctrica e pelo rock, teve posteriormente aulas com João Luzio. Estudou na Escola de Jazz Luiz Villas-Boas Hot Clube de Portugal entre 2016 e 2020 com os guitarristas Sérgio Pelágio e André Santos e desde 2014 que é professora na Academia de Guitarra, em Lisboa. Toca com bandas desde a adolescência e faz parte da editora independente Xita Records desde a sua fundação, em 2015. Estreou o seu projecto a solo, Inóspita, na Noite Xita 2018, estando neste momento a gravar o primeiro álbum, com data de lançamento apontada para Setembro. Quem a quiser ver desbundar a guitarra eléctrica, é ir a um concerto de Primeira Dama, Chinaskee ou João Borsch.

Inês pertence a uma geração em que as questões de género estão já algo esbatidas, se compararmos com gerações anteriores. Ainda assim, a guitarrista lembra que há estereótipos que ainda não desapareceram. «É muito bom criar diversidade e normalizar as mulheres enquanto instrumentistas. É uma coisa que está a surgir naturalmente e espero que a discrepância se esbata cada vez mais».

Esta guitarrista nascida e criada em Lisboa admite que a sua experiência profissional «tem sido, globalmente, positiva», mas sublinha que «ainda há mais miúdos do que miúdas no meio musical em Portugal». Pontos positivos? «Ao menos a malta da minha geração é porreira e sabe trabalhar com toda a gente». Assim manda a igualdade. «Não comecei assim há tanto tempo, mas o rácio foi sempre de 80% homens para 20% mulheres. Felizmente, tem sido sempre fixe trabalhar com a malta com que me cruzei».

Inês admite, porém, que tem de estar «sempre a provar capacidades, mas não necessariamente por ser mulher». Nunca perdeu nenhum trabalho por não ter nascido homem, mas já sentiu que por vezes a «contactam com más intenções», se bem que acaba sempre por «perceber qual é o propósito desses contactos». E vira costas.

Apesar de todas as coisas boas que tem vivido na música nos últimos anos, a discriminação de género latente num meio predominantemente masculino não lhe é totalmente desconhecida. «Já senti várias vezes, principalmente quando nos apresentamos em público. Há pessoas que duvidam das minhas capacidades enquanto guitarrista. Normalmente, isso acontece com pessoas do público ou das organizações dos concertos. Ficam a olhar para mim a pensar: “Olha esta chavaleca pequenina… Não sei se se vai safar!” Mas depois começo a tocar e as pessoas percebem que estavam erradas».

Outra coisa que aborrece Inês é que, por ser mulher, toda a gente assume que também canta, «o que é uma cena extremamente irritante». Às vezes, dizem-lhe: “Tocas guitarra e não cantas? Isso é pouco comum”. Inês lamenta que essa boca seja «muito frequente» e admite que não gosta nada de a ouvir. «Mas isso nunca me aconteceu com músicos, acontece mais com malta de fora do meio».

Não é preciso estar-se muito atento para se perceber que no panorama musical português «a maioria das miúdas são cantoras ou compositoras e ainda é um pouco raro ver mulheres instrumentistas». Inês admite que «as mulheres ainda estão em segundo plano» nesse particular e «isso não ajuda nada à igualdade das mulheres» no meio musical. «Mas sinto que pouco a pouco vamos fazendo uns baby steps para abolirmos essa desigualdade», afirma à AS.

Inês Matos conclui no entanto que «ainda há muita gente mal intencionada» quando fala com mulheres músicas. «Estamos a trabalhar. Não percebo porque é que ainda há gente que fala com as mulheres com segundas intenções. Isso é extremamente chato. É o nosso trabalho. Na minha geração, pelo menos com a malta com quem toco, isso está totalmente diluído, não há diferenças de tratamento. Sou tratada como mais um elemento da banda».

Suse Ribeiro, produtora e engenheira de som

Já senti discriminação por parte de mulheres e já perdi trabalhos por ser mulher

Suse Ribeiro, 38 anos, é uma das ainda poucas profissionais a tempo inteiro da área técnica da música portuguesa altamente qualificadas e especializadas. Desdobra-se entre a produção de sonoplastia para cinema e teatro e o trabalho como técnica de som com bandas de rock, pop ou jazz e numa interminável lista de salas, destacando-se a Casa da Música, o Coliseu do Porto, o Coliseu dos Recreios ou o Centro Cultural de Belém. Estudou percussão – que tocou em orquestras durante 17 anos, até 2016 -, mas não se ficou por aí. Estudou orquestração e direcção de orquestra e ainda produção e tecnologias da música na ESMAE – Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo, no Porto. É mestre pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto em multimédia na vertente música interactiva e design de som.

Suse é fascinada pelo trabalho que desenvolve há já 18 anos na régie, seja na estrada ou no estúdio, e já não passa sem ele. Diferenças entre homens e mulheres? Não há. Discriminação? Existe, pois claro. Mas não se pense que é apenas dos homens em relação às mulheres. «Apesar do saldo ser positivo, já senti discriminação. Não de toda a gente. Trabalho essencialmente com homens, mas a verdade é que sinto, às vezes, discriminação por parte de muitas mulheres. Isso não se tem falado muito e é importante que se fale, mas a realidade é que as mulheres discriminam as outras mulheres. Não são apenas os homens que discriminam. Sejam técnicos, produtores, agentes, etc. As mulheres também o fazem. Claro que não são as minhas colegas técnicas, porque há uma ou duas… Sofri mais com isso nos meus primeiros anos de trabalho, porque era novinha, mulher, e ainda parecia mais nova, pois tinha cara de miúda. Tive de provar muito enquanto não me conheciam. Agora já é mais difícil de acontecer, porque o país é muito pequenino, o mercado é minúsculo e as pessoas conhecem-me, mesmo que não tenham trabalhado directamente comigo».

Ainda assim, esta produtora e engenheira de som natural de Leiria que vive entre o Porto e Lisboa recorda dois episódios, um com uma empresa portuguesa e outro com uma companhia estrangeira, em que perdeu os trabalhos pelo facto de ser mulher. «Em 2005, tinham-me passado um trabalho no Palácio de Cristal, no Porto, que implicava descarregar o camião, montar e desmontar. Já tinha tudo combinado e, umas duas horas depois, o colega que me havia passado o trabalho ligou-me a pedir muita desculpa e a informar que o dono da empresa não aceitava que fosse uma mulher a fazer aquele trabalho».

A outra situação, no mínimo, desagradável, conta, aconteceu em 2010. «Era um trabalho de broadcast em Marraquexe, Marrocos, com uma empresa holandesa, que me contratou para ser chefe de equipa. A empresa recebeu o meu CV, que não tinha fotografia, e já estava praticamente a ir para lá quando quiseram fazer uma entrevista por videoconferência. Quando me viram no ecrã, a entrevista acabou. A pessoa que tinha feito a ponte explicou-me que eu não ia ficar com o trabalho porque se aperceberam que eu era mulher. Disseram-me na cara que era por ser mulher e principalmente porque ia ser chefe de uma equipa de homens!».

Fazendo contas a tudo o que já viveu neste meio, Suse vê mais desigualdade, condescendência e discriminação «na estrada do que no estúdio», até porque o meio é diferente, «há mais tempo de contacto do que há nos concertos» e as ligações interpessoais tendem a tornar-se mais fortes.

E, quando pensa mais a fundo na sua experiência, vê mais desigualdade em território nacional do que internacional. «No meu início era tudo muito mais desconfiado. Trabalho fora de Portugal há já alguns anos e é diferente, nunca senti tanto isso nas tours internacionais. E também há muito mais mulheres técnicas. A nossa sociedade portuguesa ainda é muito patriarcal e um bocado machista, mas tenho de voltar a frisar que a discriminação, em Portugal, não é apenas feita pelos homens. As mulheres que trabalham nesta área também discriminam as mulheres e isso é mau. Pelo menos entre nós devíamos ser mais unidas», frisa Suse Ribeiro, para quem o facto de ser mulher não é, de todo, uma desvantagem. «Hoje em dia, já é muito raro acontecerem situações desse tipo. É muito raro. Haver diversidade é óptimo em qualquer área e para lá caminhamos, ainda que lentamente. Os meus colegas homens sentem-se bem em terem mulheres nas equipas técnicas, as coisas equilibram-se. Eles próprios dizem-me isso».

Apesar de ter a perfeita noção de que ainda há muito menos mulheres do que homens na parte técnica, Suse sublinha que já estivemos muito mais longe. «O crescimento tem sido exponencial nos últimos anos. Tem que ver com cultura e educação. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas já vi isto pior, julgo que as coisas vão avançar muito mais rápido agora do que nas últimas centenas de anos».

O CRESCENTE EQUILÍBRIO DOS NÚMEROS

Os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que, há 10 anos, em 2011, havia 111,5 mil trabalhadores no sector cultural, dos quais 63,7 mil eram homens e 47,8 mil mulheres. Números que viriam a sofrer uma ligeira alteração em 2016: dos 112,9 mil trabalhadores registados, 63,3 mil eram homens e 49,6 mil eram mulheres. A mais recente contagem do INE data de 2020 e indica que, em apenas quatro anos, os números voltaram a alterar-se, mas agora para patamares menos díspares: dos 141,1 mil trabalhadores, 70,8 mil eram homens e 70,5 mil eram mulheres.

São apenas números, mas mostram bem o contributo das mulheres para o equilíbrio de forças neste sector de actividade normalmente dominado pelos homens. Rui Galveias, coordenador do CENA-STE, Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos, sublinha à AS que o universo de pessoas sindicalizadas tem registado, igualmente, alterações nesse sentido. «Com a reforma de muitos trabalhadores da Cultura, que eram maioritariamente homens, e as novas inscrições, maioritariamente de gerações mais novas, o universo dos sócios do CENA-STE, que é de mais de mil trabalhadores, está agora fixado em 50% de homens e 50% de mulheres», constata Rui Galveias.

Ao contrário do que (ainda) acontece em Portugal, fora de portas existem redes que juntam mulheres da indústria musical, como a pioneira shesaid.so, criada em Londres em 2014 para promover, um pouco por todo o mundo, a igualdade das mulheres e minorias de género no sector. Curiosamente, o primeiro encontro internacional desta entidade aconteceu em Portimão, em 2019, por alturas do quinto aniversário daquela comunidade que reúne mulheres compositoras, artistas ou colaboradoras de editoras, agências de booking e management ou outras entidades relacionadas com o meio musical.

Para concluir, e vale o que vale, segundo um relatório de 2019 do Índice de Género e das Instituições Sociais (SIGI, na sigla em inglês), Portugal tem um dos mais baixos níveis de discriminação de mulheres, já que aparece em quinto lugar num total de 183 países avaliados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O estudo realça que o nosso país tem muito baixos níveis de discriminação e sustenta que as mulheres são sobretudo discriminadas no seio da família.

Este lugar representa um «muito baixo risco de discriminação», com um valor de 11% no global dos países, atrás da Suíça com 8%, da Dinamarca, com 10%, e da Suécia e França, ambos com 11%. No entanto, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) sublinha que a discriminação das mulheres continua a ser uma realidade no sector laboral em Portugal.

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