Salas de Concertos Unidas (Para Evitar Colapso)

Salas de Concertos Unidas (Para Evitar Colapso)

Nuno Sarafa

As salas de pequena dimensão não têm condições físicas para funcionar ao abrigo das medidas de segurança actualmente em vigor. Continuam fechadas e muito perto do abismo. E nem os apoios públicos parecem ser suficientes. Resta reinventarem-se com novos modelos de parcerias e programação. É o que algumas estão a fazer, unidas numa nova associação que pretende evitar o fim do circuito musical independente. Se não acabar… vai mesmo ter de mudar.

E se, de hoje para amanhã, o circuito independente da música em Portugal perdesse boa parte das pequenas salas? Estará o nosso já tão débil mercado preparado para deixar de ter os clubes onde tantas bandas dão os primeiros passos ou onde artistas já consagrados aproveitam, por exemplo, para regressar às origens ou simplesmente testar novos formatos junto do seu público?

O cenário parece apocalíptico, mas não andará muito longe da realidade. Parado desde Março e sem condições para seguir à risca as regras de distanciamento social, por questões físicas dos espaços, este sector está muito perto da ruína. E desengane-se quem pensa que este é um mercado com números residuais e que apenas chega a uma ínfima franja de público. Nada disso! Senão vejamos.

Segundo dados a que a AS teve acesso, e que resultam de um levantamento realizado recentemente com o intuito de se criar a Associação Portuguesa de Salas de Programação Musical (APSPM), em apenas 23 salas do país (incluindo uma no Funchal e outra em Ponta Delgada), foram realizados, em 2019, 2.290 concertos e 4.143 dj sets/live acts, num total de 6.433 actuações, que significaram, em termos de público, um total de 1.065.382 ingressos. E estas salas, que ainda assim não representam a realidade global do país, dão emprego directo a 607 trabalhadores, dos quais 228 têm contrato e os restantes 379 são prestadores de serviços.

Em tempo de pandemia, a AS mediu a temperatura a algumas salas independentes, recolheu dados e ouviu testemunhos. E pode mesmo dizer-se que o circuito independente como o conhecemos parece estar à beira do fim. A menos que se reinvente, o que parece estar a acontecer um pouco por todo o lado.

CARMO 81 VIRA ESTÚDIO

Em Viseu, o espaço Carmo 81 – sede da cooperativa cultural Acrítica – já se está a adaptar ao novo normal. O espaço «não é próprio e existem despesas fixas como rendas, segurança e higiene no trabalho, salários, extintores, etc…». Lá está: o mundo parece suspenso, mas as despesas não. E, apesar dos largos milhares de euros de prejuízo causado pela paragem abrupta, os gestores daquela sala – que em 2019 foi responsável por 57 actuações ao vivo vistas por 6 mil pessoas – lutam para encontrar novos modelos de negócio, novas formas de levar cultura «a um público já sedento».

O programador cultural Nuno Leocádio diz à AS que, na verdade, «o maior prejuízo acaba por ser cultural, já que ninguém trabalha, o público deixa de ter a oferta a que está habituado e os artistas deixam de ter palco».

Ainda assim, Nuno Leocádio recusa-se a votar no partido do fatalismo: «Com covid ou sem covid, vamos continuar a apresentar propostas culturais e não vamos ficar nem agarrados à desgraça que está a acontecer, nem ao modelo de funcionamento que tínhamos antes». Mas então, o que está a ser feito em Viseu? «Neste momento, estamos a programar alguns artistas locais para um evento que se chama Cubo Mágico, mas é residual, fora da sala e representa muito pouco para aquilo que é a nossa actividade normal. Em breve vamos poder anunciar uma outra actividade que vamos fazer em nome próprio na cidade de Viseu. Continuo a acreditar que o meio musical, público incluído, tem a força para dar a volta a isto».

Enquanto não se dá a volta a isto, o programador cultural lembra que «não existem grandes soluções neste momento para estas salas operarem como faziam anteriormente, no entanto, há alternativas, os artistas não desapareceram, o meio não desapareceu e a necessidade de produzir também não».

E que alternativas serão essas? «Neste momento, por exemplo, o Carmo 81 está a servir como estúdio para um projecto emergente de Viseu [Burning Casablanca’z], que vai lançar o seu primeiro EP em breve. Vamos continuar, sempre que possível, a fazer do espaço um estúdio de gravação. Outro bom exemplo a seguir é o do Musicbox, que tem um projecto muito interessante de residências artísticas [Coletivo]. Isto significa que, se houver condições financeiras para, em vez de criar espectáculos ao vivo durante este momento, podermos ser espaços de produção e criação, as coisas poderão melhorar. Infelizmente, alguns artistas e algumas salas terão de sucumbir, mas a cultura não desaparece. Não vivemos numa democracia assim tão suspensa e uma das soluções passa por estes espaços passarem a ser espaços de colaboração com os artistas, locais de criação e produção cultural. Claro que são situações que acarretam despesas e sem público o incoming não é tão directo. Por isso, isto tem de passar por entidades como o Ministério da Cultura, os municípios e por artistas que estejam a ser financiados que queiram colaborar com as salas, transformando-as em espaços de criação e produção artística».

CLUB DE VILA REAL FECHA AS PORTAS

Mas, num país e num mercado tão heterogéneos, nem todos têm as mesmas possibilidades. Como se já não bastasse a crise pandémica, o Club de Vila Real (CVR) viu-se agora a braços com uma ordem de despejo e teve mesmo de fechar a porta do espaço que tinha alugado, «há mais de 100 anos», a um privado «que tem feito desde sempre grande pressão para o clube sair das instalações».

Refira-se que esta entidade é uma associação cultural, desportiva e recreativa com 125 anos de história, que promovia concertos, residências artísticas, exposições e workshops. Na última década, o CVR realizou mais de mil eventos, 500 dos quais concertos. Em 2019, entraram nas instalações do clube 13 mil pessoas para assistirem a 143 actuações de música ao vivo. Pode parecer pouco, mas não é, se pensarmos que se trata de uma região com menos oferta cultural do que as grandes urbes.

Em declarações à AS, o presidente do CVR, Luís Cardoso, lamenta a situação: «Temos de deixar o espaço até dia 31 de Julho. Estamos neste momento a arrumar tudo e nem sequer sabemos para onde levar as coisas. É muito triste. Este clube tem 125 anos, merecia mais respeito e algum apoio. É uma instituição com interesse histórico e cultural. O senhorio não deu qualquer hipótese e agora nem sabemos muito bem o que fazer…».

O distanciamento não é possível, mas não diabolizem estes espaços

«Vivemos um problema muito grave». As palavras são do director do Musicbox, Gonçalo Riscado, que, em entrevista à AS, sublinha que é determinante que «não se diabolizem estes espaços, que não se diabolize a dança, nem a diversão, nem os espectáculos em salas pequenas». Mas Riscado, um dos elementos da Direcção da APSPM, vai ainda mais longe: «O vírus não fica mais forte só porque há música e pessoas a dançar. Ninguém aqui quer ir contra as regras. Mas é importante que em termos políticos se olhe para este sector de forma diferente e responsável».

O Governo anunciou 3 milhões de euros para apoiar salas independentes, de forma a poderem retomar a actividade, além de 750 mil euros para apoiar a adaptação das salas ao contexto da Covid-19. Este incentivo viabiliza o regresso à actividade?
O apoio ainda não está regulamentado e tenho sérias dúvidas se o nosso circuito vai poder aceder a esse apoio. E quanto à adaptação para poder voltar a funcionar, isso levanta várias questões. E os que não podem funcionar? Ficam de fora? A maior parte das salas não poderão funcionar, não têm condições para tal. São espaços em que o público está em pé, espaços formatados para 3 pessoas por metro quadrado… como se resolve isto? Sítios que levam 100 pessoas vão passar a levar 10? Já para não falar na questão dos horários… não podemos fechar às 23h! Mas atenção, não sou dos que defendem que os bares e discotecas têm de reabrir e que o distanciamento é possível, não, não é possível, mas, por favor, não diabolizem estes espaços. Ninguém aqui quer ir contra as regras. Mas é importante que em termos políticos se olhe para este sector de forma diferente e responsável.

E o que estão os responsáveis das salas a fazer nesse sentido?
Obviamente que não queremos mudar as regras pondo em risco as pessoas e a saúde pública. Não é isso o que está em cima da mesa. O que há é um problema gigantesco, porque fomos os primeiros a fechar e seremos os últimos a reabrir, sem qualquer perspectiva de reabrirmos nos moldes anteriores. É um circuito muito importante e felizmente as salas estão a juntar-se para fundar uma associação, de modo a que tenham uma voz mais forte. É um circuito que, noutros países, é aceite e muito querido mesmo em termos políticos, porque, de facto, é onde os artistas começam, onde podem ter palco e visibilidade em termos de comunicação. Mesmo para artistas já consagrados, é um circuito importante. Este circuito é, em qualquer parte do mundo, fundamental para a indústria da música e é aquele que se relaciona com mais profissionais. São poucos os que conseguem encher as grandes salas. Nada contra as grandes salas, nada contra os festivais, tudo faz parte, mas estamos aqui a esquecer de alguma maneira este circuito que é tão importante para o ecossistema da música. E chegamos a essa conclusão se olharmos para os números. São necessárias medidas para proteger o ecossistema da música. Alguém com capacidade para poder intervir em termos de apoios públicos. Veja-se o exemplo do Reino Unido, onde o sector privado alimenta toda a indústria por si. Mesmo assim, foram dos primeiros a receber apoios brutais para poderem manter esta rede de salas. Para não falar dos EUA, França e até Espanha.

Mas a realidade portuguesa é diferente. É subjectivo comparar.
É subjectivo compararmos com Portugal, sim, mas temos de parar e fazer alguma coisa. Em relação às medidas excepcionais, que não têm que ver com as medidas regulares, temos de proteger o ecossistema para, quando for possível regressar, haver uma base que ficou, porque senão vamos destruir tudo. Tudo cresce de novo e na cultura ainda mais… mas quantos anos vamos perder? O que iremos perder? Quais e quantos artistas iremos perder? É nisso que temos de pensar agora. Pensar porque é que a cultura é tão necessária para o público, porque é que é tão estruturante para qualquer sociedade. Quando se pensa em protecção do ecossistema da música, não se pode passar ao lado deste circuito. Ao olharmos para estes números, percebemos melhor do que é estamos aqui a falar: mais de 1 milhão de espectadores por ano, quase 6500 acts programados… Se calhar, no dia-a-dia, não temos esta noção de quantidade. Atenção: este circuito não é daqueles casos em que se podem fazer adaptações… Não sei o que vai acontecer. Por exemplo, há espaços, como o Maus Hábitos, no Porto, que se remodelou, com música ao vivo durante os jantares, mas estas iniciativas não recuperaram de maneira nenhuma a actividade normal dos espaços. São residuais. Precisamos de outro tipo de medidas.

É aí que entra a criação da APSPM, para usar esses números e a importância do circuito como forma de pressão juntos dos governantes…
Claro. Uma associação como esta já devia existir há mais tempo, mas surge agora, agora é o momento, a necessidade e a emergência faz com que tenha de ser. Estamos perante um enorme problema e um assunto que nunca se falou muito. Temos o trabalho de confrontar os governantes com este problema e com a importância deste circuito e depois ganhar espaço em termos de decisão, para sairmos do subterrâneo e virmos à superfície. Ainda estamos expectantes para perceber se vamos ser ouvidos, se vamos ser tidos em conta. Estamos a fazer o barulho e a chamada de atenção que é necessário e espero que surjam resultados. Em conjunto, são espaços muito importantes na economia, e não só nocturna, muitas vezes são estes espaços que alavancam bairros inteiros e têm uma característica importante: são geridos por pessoas da cultura, mas que depois têm de vender bebidas e comidas para serem sustentáveis.

Quero ir com esta equipa até ao fim e, se tivermos de cair, caímos todos

Entretanto, as salas vão adaptando a programação, criando eventos em espaços exteriores ou fazendo parcerias com outras entidades, como foi o caso do #Takeover, no Teatro São Luiz. É a alternativa possível…
Sim, claro, não podemos parar. Mas esse evento, por exemplo, foram apenas 9 datas no mês de Julho. É uma areia no deserto, não só em termos de quantidade de programação, mas também em termos de sustentabilidade dos projectos, da sala e da rede das salas de programação independente, que está a ser posta em causa neste momento. Aquilo que fizemos com o São Luiz foi mais na perspectiva de os artistas poderem tocar e os técnicos trabalhar. As condições para se poder fazer qualquer coisa ao vivo exigem grande distanciamento e praticamente só as grandes salas com lugares sentados é que permitem que qualquer coisa aconteça. Lançámos este desafio à EGEAC e ao São Luiz também numa perspectiva de dar o exemplo para modelos de parceria entre privados e públicos, que nem sempre se cruzam, para poderem surgir no futuro e dar um bocadinho de esperança às pessoas. Obviamente que foi muito pouca gente envolvida tendo em conta a quantidade de artistas e profissionais que precisam de trabalhar. Mas foi mais para dar esperança e alguma confiança ao público. No entanto, em relação à sala Musicbox, vivemos um problema muito grave.

Calculo que o prejuízo seja enorme…
É muita gente com contratos de trabalho… são rendas e fornecedores a quem se tem de pagar. O Musicbox não está isolado, tem o MIL e o restaurante Povo, por exemplo. Mas só o Musicbox ultrapassa os 100 mil euros de prejuízo nestes meses de pandemia. Mas isto é uma equipa que está habituada a trabalhar muito e não conseguimos estar quietos. E por isso estamos já a planear uma acção pop-up, uma esplanada com programação, como se o Musicbox tivesse ido para o exterior… mas são tudo coisas que não substituem a actividade normal. Duas coisas são certas: primeiro, quero ir com esta equipa até fim e, se tivermos de cair, caímos todos; segundo, vamos lutar para que surjam apoios claros a este circuito – e que nesta fase seriam apenas para garantir postos de trabalho e custos fixos, se bem que este circuito depois merecia um investimento para a sua retoma.

Lista de salas que integram a APSPM, respectivo número de actuações ao vivo / número de ingressos (dados de 2019):

Nota: O Hot Club e o RCA, ambos em Lisboa, também já manifestaram interesse em integrar a lista de salas da APSPM, mas ainda não forneceram os dados estatísticos aos responsáveis associativos.

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