Shredding Extravaganza, Álbum Reúne 17 Ases Portugueses da Guitarra Eléctrica

Shredding Extravaganza, Álbum Reúne 17 Ases Portugueses da Guitarra Eléctrica

Nero

A Larvae Records editou recentemente o álbum “Shredding Extravaganza”, uma colectânea de guitarristas nacionais, algo que há bastante tempo não se fazia em território luso. O resultado final traduz-se em dezassete guitarristas agregados num só disco, que totaliza quase oitenta minutos de shred.

Já o dissemos antes, 2020 é o ano do Regresso do Shred. O pessoal da Larvae Records terá pensado no mesmo e criou este discaço. Há três nomes para lá de consagrados na comunidade da guitarra eléctrica nacional, casos de Paulo Barros, Tó Pica e Gonçalo “Tricot” Pereira, com um tema repescado ao seu quarto álbum a solo, e ainda duas-mãos cheias de talentos emergentes no nosso panorama. Na página oficial do disco, cada um deles é apresentado individualmente. Recapitulamos os músicos um a um.

Seria utópico equacionar uma compilação nacional dedicada à guitarra eléctrica, sem contar com a participação do ícone nortenho, Paulo Barros. Apesar da versatilidade da sua imensa discografia, o monarca das seis cordas consegue – sempre! – encontrar uma forma sub-reptícia de fazer cair queixos. Desta vez não será excepção, com um tema exclusivo para este lançamento, “Thunder Rainbow”.

O Tó Pica é daqueles gajos que podemos mesmo tratar por “Gajo”, que se conhece mesmo sem se conhecer, porque numa noite de Inverno tivemos o privilégio de o ver tocar Death Metal num bar que entretanto já desapareceu. O circuito de bares de há duas décadas já desapareceu, já o Tó Pica mantém-se incólume e ainda mais insubordinado do que nos tempos de outrora. Poderíamos aqui adjectivar sucessivamente a qualidade técnica do Pica, contudo, o tom bajulador poderia soar demasiado exagerado para a humildade e perseverança do Gajo, mas por falar em guitarristas, o Tó Pica é O Guitarrista. O tema que mostra aqui é “Home”, na ressaca do seu primeiro álbum a solo e que mereceu da AS os mais rasgados elogios.

A técnica irrepreensível e a maturidade das suas composições quase que ofuscam o facto de Zé Pedro ser um jovem prodígio. Costuma-se dizer que a jovialidade é um diamante em bruto, o que não é de todo o caso – a linguagem musical e o domínio do instrumento sugerem arestas definidas e reluzentes, desde logo pela capacidade de criar um estilo de fusão apenas ao alcance daqueles que concluíram pós-doutorados das seis cordas. A tendência jazzística e o estilo exótico de Zé Pedro configuram uma verdadeira sessão de hipnose que culmina numa agradável sensação de liberdade semelhante aquela que sente quando se pega numa guitarra que acabou de ser barrada com com uma película bem generosa de GHS – Fast Fret. “Lurk” é o tema aqui apresentado.

O nome Pedro Mendes encontra-se consagrado e inscrito em tantos lançamentos, que por vezes é difícil perceber se o “Pete” participa na qualidade de músico, produtor, compositor ou tudo ao mesmo tempo. A verdade é que o Pedro Mendes é um maestro, um “Band In a Box” humano que com uma nota e o seu vibrato inconfundível, consegue compor uma sinfonia. O tema do Pedro Mendes para a Shredding Extravaganza é um híbrido, que tanto nos injecta com entusiasmo como nos confina no nosso amago, que assume uma profundidade tão vertical que se apodera do espaço acústico e dilui qualquer sentimento terreno. No fundo aquilo que à partida seria uma música, “Zero Coma” transforma-se numa experiência, num momento brilhante de absoluto gozo musical.

O Alexandre Moreira é um bravo da música nacional conotada com o universo do Heavy Metal. Nas suas complexas composições, geralmente catalogadas com o Grind, só os mais distraídos não se aperceberão de influências Blues ou World Music. A música do Alexandre Moreira primeiro estranha-se, depois entranha-se. E de facto estranhas me ficam as entranhas, sempre que a oiço. Bravo, Alexandre Moreira, bravíssimo! Exclamo em solilóquio, perplexo, arrepiado, ao (a)perceber da poesia de mais um solo emanado da sua guitarra. Música com raízes no Norte, numa viagem de ida e volta entre Recarei e São Martinho de Anta. A mística Ponte do Cabouco serve de tela visual a este tema que se arrisca tornar hino dos endémicos das Margens do Sousa.

A senhora no meio dos patifes, Rute Fevereiro ultrapassa a condição de artista, é um verdadeiro símbolo de perseverança e emancipação, alguém que disse presente numa época em que tudo era muito mais monocromático e complicado. A carreira da Rute é uma referência, não apenas pela qualidade e firmeza que incute aos projectos nos quais se envolve, como também pela variedade, criatividade e paixão que sempre potenciou à sua música. O seu cunho inconfundível e a maturidade musical resumem com justiça as décadas de empenho e dedicação à música.

Oriundo do centro nevrálgico musical de Bracara Augusta, Diogo Agapito pertence a uma uma geração que nasceu de guitarra em punho e que revolucionou a cena musical em Braga. Diogo é daqueles guitarristas dotados para tudo, que passeia os dedos de forma elegante pelo braço da guitarra e no momento seguinte saca uma malha capaz de rasgar a mais calejada epiderme do indicador esquerdo. Como se não bastasse ser um guitarrista fascinante, Agapito é produtor e multi instrumentista, basicamente toca tudo aquilo que lhe for pedido no contexto musical mais aleatório e estranho. O seu estúdio, I Scream Studios – Music & Audiovisuals, tem-lhe estendido inúmeras colaborações com projectos de um vasto leque de estilos, daí a versatilidade musical e a riqueza de vocabulário presente nas suas produções. O tema é “Limerence”.

O título Shredding Extravaganza sugere aquela estética musical super sónica, que nos perfura os ouvidos com estilhaços de notas em sequências fulminantes. O José Sousa recorre a essa linguagem cáustica e abusiva que corrompe até o mais puritano apreciador de música. Outra coisa não seria de esperar de um discípulo do legado Paulo Barros – os dedos do José Sousa ora soltam fogo e labaredas, ora dançam valsas travestidas de arpejos diminutos. O tema de Sousa intitula-se “Red Horse” e desenvolve-se volteado de uma atmosfera melódica, desviante e misteriosa, que nos envolve de forma sub-reptícia e desfere garfadas nos olhos. Orgulhosamente ancorado no passado dos grandes fazedores de canções refutando o cariz descartável e efémero das novas correntes, José Sousa é, sem eufemismos, um globetrotter de emoções rebiteso.

Quando ouvimos o tema do Azevedo, é como se o imaginássemos munido da sua guitarra, a planar sob um manto de destroços urbanos, numa qualquer cidade distópica parcialmente engolida num cenário pós-apocalíptico. A sua função é garantir que não há sobreviventes não detetados, ou não teriam outra hipótese senão aparecerem perante ele e serem chibatados pelas impiedosas ondas sonoras que emanam dos seus murais de amplificadores, enfileirados nas fachadas dos mais vigorosos arranha céus. Leviatãs sónicos tragam com fereza todo o espaço visível e o aumento exponencial gravítico é assoberbante. Alguns anos antes, vislumbrar o Azevedo num qualquer palco do país tinha um significado bastante mais direto, era de que independentemente da sonoridade que naquela noite fosse debitar, estaríamos prestes a assistir a um concerto avassalador!

Há muito que se impunha a materialização de um tema instrumental dedicado exclusivamente ao seu virtuosismo, eis que finalmente foi possível empurrar o Flávio Kebras para um palco em que co-habita com alguns dos melhores a nível nacional. Durante a música, integralmente composta, executada, misturada e masterizada por si, o Kebras deambula pelo braço do instrumento de forma utopicamente leve e distinta, criando uma ramada de notas de uma transparência e nitidez tão assinaláveis que possibilitam o contemplar da base musical inflamada, que se projecta intempestivamente e se aloja nas membranas das colunas – que apesar da envergadura robusta e potente mantém a integridade sem nunca se esmigalhar em múltiplos artefactos de “clipping’.

Se a guitarra é uma religião, o Artur Capela já deu entrada no Vaticano. A forma irrepreensível como desfere arpejos a esbordar dinâmicas ou a fertilidade e imprevisibilidade das suas progressões não deixam quaisquer dúvidas, estamos perante um músico de talento gigantesco. O seu sorriso bonacheirão oculta o músico furioso, cujos movimentos fazem estalar as cordas e guinchar em duetos clangorosos, progressões que emulam pistões lubrificados matematicamente coordenados entre si, transformam a inércia em velocidade. Tudo neste tema soa uma verdadeira homenagem ao mundo da guitarra, excepção feita aos breves momentos em que a guitarra cede o protagonismo aos sintetizadores, que convidam a uma bela viagem aos “10 000 Anos Entre Vénus e Marte”.

Longe vão os tempos em que o Death Metal era segregado, considerado pela elite musical como uma amálgama de som ruidoso e aleatório. Foi graças à capacidade de execução de guitarristas como o João Jacinto, que o género evoluiu para patamares técnicos que só ficam ao alcance dos mais virtuosos, para depois angariar o merecido reconhecimento e credibilidade junto da comunidade musical. Neste contexto o João Jacinto pode ser considerado um porta estandarte, não só pelo facto de ser dotado de um talento incrível, mas também por ter tido a coragem de assumir as suas raízes, sem tentar camuflar ou ajustar as suas influências. O resultado é um tema demolidor, com um nível técnico soberbo, com detalhes que não se esgotam nem ao fim de mil audições. A experiência auditiva da Shredding Extravaganza tem sido uma experiência fascinante, também devido a estas identidades individuais vincadas e à ausência dos estereótipos típicos, que resulta numa versatilidade musical tão ampla e rica de contornos inéditos. Aqui fica o excerto de “Horror In Clay”.

Este deveria ser um espaço isento, imparcial, impessoal – sem sujeito. No entanto, não seria honesto escrever esta missiva antes de assumir, na primeira pessoa, o meu mais profundo respeito e admiração pelo mestre Pedro Silva, que um dia me convidou para um ensaio no Centro Comercial Sirius. Sem me ter apercebido, estava perante um dos melhores guitarristas que alguma vez tinha visto. Essa noite ficou-me para sempre gravada na memória pela forma rapinante como os dedos do Pedro capturavam cada nota, enquanto esgravatava palhetadas que rangiam harmónicos pontiagudos, de tão afiados rasgavam o som para se aguçarem no último e derradeiro intervalo hertziano – audível ao ouvido humano – disponível dentro daquela sala.

O Filipe Ferreira é guitarrista dos míticos Web, para quem já viu um concerto da banda é flagrante o nível de virtuosismo a esperar de um tema instrumental. A forma leve e subtil do Filipe tocar sugere múltiplas injecções de hélio que amortecem cada nota que os dedos exibem às dezenas por segundo. Ouvir este tema é como se viajassemos a uma velocidade alucinante por entre os loops da Emerald Hill Zone, mas aqui quem rebola não é o Sonic, mas sim a técnica do nosso Filipe.

O “Illusion’s Paradise” é o tema de Helder Oliveira, até aqui, desconhecido de muitos no vasto panorama musical nacional. O anonimato do Helder está na iminência do colapso, a solidez da sua malha coloca-o definitivamente na rota de colisão com a órbita dos grandes astros nacionais e internacionais. A sua música tem tanto de futurista como de revivalista, que tanto invoca os grande génios da guitarra como assina com uma caligrafia musical vincada, poemas de craveira trovadoresca. Em termos práticos o tema do Helder Oliveira é daqueles que nos faz descolar do sofá para posicionar o volume a níveis nocivos para os tímpanos e para as colunas, e de seguida colocar a questão: “Mas quem é este gajo?”

Um dos pontos altos desta Shredding Extravaganza, será com toda a certeza a escuta de “Conquistador” de António Soares, este que foi um dos pioneiros do Rock nacional, que deu vida aos Xeque-Mate que revolucionaram a música em Portugal. O António deixa-nos uma narrativa acrónica inédita, durante a qual podemos literalmente navegar no seu espírito e vislumbrar a janela de intimidade que se abre diante dos nossos olhos. É assim, através da sua música, que percebemos a sua natureza apaixonante e o músico transversal que foi e que continuará a ser. O António Soares deixou-nos terrenamente a 22 de Novembro de 2013, mas o seu legado perdurará.

Todos temos os nossos episódios menos produtivos durante os quais a inspiração andou arredada. Claramente existem excepções que pertencem a um naipe muito exclusivo e restrito de artistas internacionais, no qual se inclui o muito nosso Gonçalo Pereira. Quando se configura a necessidade de fazer um texto ilustrativo, até o mais rico e floreado vocabulário é escasso para descrever alguém que se transformou numa lenda, que influenciou, ensinou, inspirou milhares de guitarristas pelo mundo. A revolução que causou quando lançou o tema “1265c” para logo de seguida sacudir a crosta terrestre com o disco “Tricot no País das Maravilhas”, são dos momentos mais históricos e marcantes da música em Portugal. Escreveu dos melhores álbuns de guitarra de todos os tempos, invariavelmente nunca conseguiu desiludir um segundo que seja ao longo dos seus 4 discos instrumentais. O tema aqui recuperado é “Gambuzini Chasin’”, do seu álbum e 2012, “Serviços Secretos”.