Virgil Donati, A Fusão do Tradicional e Inovação

Virgil Donati, A Fusão do Tradicional e Inovação

Nero

Entrevista com baterista australiano, um demónio de velocidade e um exemplo de dedicação e metodismo.

Os pais de Virgil Donati eram músicos. O baterista australiano cresceu com muita música em casa, ensaios de bandas e músicos sempre a entrar e a sair: «Com três anos queria ser músico! Queria estar sempre junto do meu pai, quando ele estava a praticar, estava sempre a ver os ensaios – acho que repararam no meu interesse e compraram-me uma bateria, um mês antes do meu terceiro aniversário». A partir daí nunca mais parou. O pai queria que Virgil tocasse piano – não pensava que bateria fosse algo para ser levado a sério – e o músico concedeu aprender ambos. No entanto, o baterista interior levou a melhor.

Foi quando Derek Sherinian saiu dos Dream Theater e decidiu criar o projecto Planet X, cujo nome do primeiro álbum daria origem à banda, que Virgil Donati, quiçá, se tornou conhecido de um público mais vasto. Mas se a década de 90 foi marcada pelos algo obscuros Southern Sons, hoje, em Planet X e ao lado do tremendo Allan Holdsworth, Donati tornou-se uma referência na bateria, seja no prog rock, na fusão ou no jazz.

Em entrevista com a Arte Sonora, o baterista fala-nos da sua técnica e do seu som.

Que tipo de conselho darias a um miúdo que se inicie na bateria?
Acho que hoje em dia há uma grande vantagem, há muita informação, não há desculpa para não aprender algo. (risos) Tens apenas que fazer escolhas, confiar no teu feeling, no teu ouvido, naquilo que gostas.É importante tentar sempre prosseguir, porque tudo muda e não vamos ficar neste ponto para sempre. Não vai ser Led Zeppelin e AC/DC para sempre. Pensem à frente, não tenham receio de inovar, ser diferente e encontrarem a vossa voz. Claro que é preciso seguir o que é feito, o que se toca, para se ter trabalho e tudo, mas ao mesmo tempo olhem em frente.

O som dos Planet X, se quisermos simplificar, será prog, mas há muitos elementos de jazz, de heavy metal, de fusão…
Eu gosto da minha flexibilidade, de poder saltar dum género para outro, de pop para rock, para heavy rock, para fusão jazz, jazz acústico, etc. Aprecio isso e trabalho muito para desenvolver a minha habilidade, portanto sei que posso sentar-me confortavelmente em qualquer situação.

Acho que hoje em dia há uma grande vantagem, há muita informação, não há desculpa para não aprender algo.

E essa procura de flexibilidade tem implicações no teu kit de bateria?
Não, nem por isso. É claro que numa gravação fazes os ajustes necessários, e quando estás a tocar ao vivo normalmente estás apenas a fazer uma coisa só em determinado momento. E, assim, a bateria é afinada e preparada para o necessário nessa altura.

E ao longo dos anos, o que tens mudado no kit?
Já houve muitas mudanças, gradualmente; mas ainda agora tenho dois com as suas diferenças que uso de acordo com a situação – tenho um set com timbalões elevados no ar, esse extra permite-me criar formas porreiras ao vivo, e às vezes uso esse; e outras uso um kit normal.

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Alguma vez surgiu algo que te surpreendesse e te fizesse pensar em ter exactamente aquilo no teu conjunto?
A última vez que decidi realmente que tinha de ter uma peça particular foi com a tarola sopranino, a pequena tarola de 10×4″ que uso à minha esquerda como segunda tarola e que se tornou uma parte integral daquilo que faço. Tenho que a ter, sinto-me um pouco despido sem isso, permite-me criar camadas ritmícas com as duas tarolas.

E em relação às madeiras?
Gosto bastante de maple ou birch. Penso que consegues uma tonalidade bem encorpada com maple, mas também muito ataque, o que eu gosto, nos timbalões e no bombo. Portanto, consegues muita definição, atinges mesmo aquele estalo, aquela ponta limiar da batida. Penso que a madeira birch é um pouco mais quente. Creio que são as melhores madeiras, embora por vezes use umas mais exóticas e até misturas, como a minha tarola de assinatura da Pearl, que é uma combinação de birch e maple, e pode oferecer umas nuances subtis no som.

E como surgiu o modelo de assinatura? Estiveste próximo do processo de construção do modelo, da escolha das madeiras?
Sim. Bom, com as madeiras tínhamos algumas limitações com as quais podíamos trabalhar, mantendo-as económicas. Como disse gosto de maple e birch e acabámos por fazer três aplicações de cada, depois discutimos o design, que especificações teria. Depois experimentou-se o protótipo e soava bem.

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E quanto aos pratos?
Também com os pratos tenho modelos de assinatura que passei um ano a desenvolver [os Sabian]. A maior parte dos crash que tenho são os Saturation, que são o meu modelo de assinatura. Quando estava a trabalhar com a equipa, disse-lhes que queria mesmo um conjunto alargado de frequências: as altas e as baixas. Muitas vezes com os pratos consegues ter frequências ou altas ou mais escuras, mas queria juntar mesmo tudo, por isso se chamam Saturation. Saturado nas frequências. Gosto muito. Também mantivemos o bell “pouco apertado” e isso dá uma boa tonalidade até nos crash mais pequenos. Mas isso foi aquilo que procurei. Queria algo que fosse flexível com os meus estilos de música, tendo que saltar duma coisa para outra. Têm a força que precisas para algumas das coisas mais progressivas, mas também subtileza suficiente para coisas mais suaves.