Oye como va Santana

Oye como va Santana

2016-07-27, Meo Arena, Lisboa
Pedro Miranda
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Carinhoso, jovial e emotivo, Santana veio ao Meo Arena mostrar o quanto ainda tem para dar.

Depois de uma semana em que o Meo Arena recebeu novos e antigos talentos no Super Bock Super Rock, a altura era de puxar ainda mais pela memória, até um passado remoto que, distante de nós em quase 50 anos, remetia-nos aos tempos áureos dos anos 60 e 70. E se é verdade que a carreira de Santana não se resume a estas décadas, a verdade é que parece ser a elas que o grupo nos quer encaminhar, especialmente com a reunião deste ano de grande parte do alinhamento que actuou em Woodstock em 1969.

Foi nestes comprimentos de onda que se apresentaram Santana, a subir ao palco com a “Intro” de Woodstock e abrindo o concerto com a mística “Soul Sacrifice”. E era neste registo, sem surpresas, que a banda se mostraria mais competente, apelando às raízes em que se formaram: em estilo improvisacional, retiravam o melhor da sua impressionante secção rítmica (uma baterista, dois percussionistas), habilidoso teclista e, como não poderia deixar de ser, a distinta capacidade de Carlos Santana ao comando da guitarra solo. Assim tocaram muitos dos melhores momentos do espectáculo, incluindo “Samba Pa Ti” e o glorioso combo “Black Magic Woman/Gypsy Queen”, talvez as canções mais antecipadas pela audiência.

Mas com alguma sabedoria, fazendo valer-lhes a experiência com que já contam, foram capazes de equilibrar bem estes momentos mais introspectivos, libertinos, inspirados na fusão da cultura alucinogénia dos sessentas com os ritmos latinos, com algum trabalho posterior, mais aconchegado à pop norte-americana, de tal forma que nenhum dos dois pareceu cansativo em demasia. Neste registo, concretizado em faixas como “Maria Maria”, “Freedom In Your Mind” ou a celebrada “Smooth”, os refrões animados compensaram à plateia os alongados movimentos sem qualquer voz, ainda que não fizessem muito por salientar as virtudes de uma diversificada e coesa banda ao vivo.

Uma comunhão que, não por acaso, coincidiu com a mensagem de Carlos, que pedia “Uma só voz, um só espírito” em concordância com a música que tocava.

Será muito importante reconhecer que, para o homem que fez do seu apelido nome de banda, Carlos Santana não chamou para si as atenções tanto quanto seria de esperar. Em vez disso, colocou-se numa ribalta a meia luz, brilhando com os seus solos mas permitindo que o resto do grupo, meritório como devia, carregasse grande parte das canções. E assim, para além de sucessos de um carreira, interpretaram The Beatles (“Day Tripper”), John Lennon (“Imagine”), The Police (“Roxanne”), para além da habitual versão de Tito Puente que surge em “Abraxas”, e que gerou grandes aplausos pela plateia.

Plateia essa que não poderia ter saído do recinto mais satisfeita com o espectáculo. Durante a actuação, bastante embelezada por imagens de danças tribais ou de uns Santana de outrora, abanavam-se freneticamente e cantavam em uníssono com os dois vocalistas do grupo. E para um público naturalmente mais velho que a média de quem assiste concertos em Portugal hoje em dia, não deixou de ser comovente ver um Meo Arena cheio e inteiramente em pé a contemplar Santana, mesmo passadas as quase 3h de concerto. Uma comunhão que, não por acaso, coincidiu com a mensagem de Carlos, que pedia “Uma só voz, um só espírito” em concordância com a música que tocava – dificilmente encontraria melhor resposta que a que teve em Lisboa.