NOS Primavera Sound: Os melhores do “Palco .”

NOS Primavera Sound: Os melhores do “Palco .”

Pedro Miranda

O antigo Palco ATP proporcionou aos festivaleiros do Porto algumas das mais espantosas performances de todo o evento.

Nos dias 9, 10 e 11 de Junho, teve lugar no Parque da Cidade do Porto a quinta edição do NOS Primavera Sound, um dos mais admirados, antecipados e respeitados festivais de verão organizados anualmente em Portugal. Entre os quatro palcos de música promovidos pelo festival, o Primavera Sound proporcionou experiências imperdíveis para quem ao Parque se deslocou, e a Arte Sonora enumera agora algumas que se destacaram pela positiva, a começar pelo antigo “All Tomorrow’s Parties”, nesta edição conhecido simplesmente por “Palco .”

6. Mueran Humanos (Berlim, Alemanha)
Encarregados de abrir o Palco . (que havia estado, durante o primeiro dia de festival, encerrado), a dupla da Argentina sediada em Berlim presenteou os curiosos que lá se dirigiram com uma sólida performance. Ao que alguns chamariam demasiado azedo ao paladar para aquelas horas da tarde, conjugaram uma electrónica fracturante, de timbres ácidos e sem contenção no volume, com motifs vocais enérgicos (em espanhol) condizentes com a escuridão que procuravam invocar. Naquele que seria o primeiro gosto do palco que com melhor som se manteve ao longo de todo o festival, Mueran Humanos souberam aproveitar-se das condições proporcionadas para encetar um espectáculo que, por mais falível que, por vezes, se mostrasse, sabia que cartas jogar no Parque da Cidade.

Melhor momento: Embora mais desafinados que o ideal, os gritos de “Porque ser estupido es gratis” em “Cosméticos para Cristo” foram a mais eficaz expressão do imaginário procurado pela dupla, tão sórdidos, abrasivos e temíveis quanto o seu próprio nome sugere.
[Clica na imagem para ver mais fotos. ©Hugo Lima]

5. Ty Segall and the Muggers (Califórnia, E.U.A)
Gostar ou desgostar da música que faz Ty Segall é indiferente para efeitos de apreciação do espectáculo que monta – algo particularmente relevante quando dito por alguém que se costuma identificar mais com o segundo que com o primeiro. Embora, em disco, o seu invocar de uns Black Sabbath em esteróides possa soar estéril, a forma como o traduz para o live set é incontornavelmente avassaladora. Adicionando à sua performance a valiosa participação da sua banda de apoio, os Muggers, desde a última vez que pisou o palco do Primavera Sound (foi em 2014, um ano, acrescente-se, particularmente fortuito para o cartaz do festival), interpretou os temas do seu último disco, em conjunto com outros retirados daqui e dali, com notável assertividade, compensando a falta de carisma que possui como frontman com algum humor (fazia parte da banda de Ty Segall, segundo o próprio, mais que um Bruce Springsteen) e a ocasional pose constrangedora que rendeu os fãs que tanto o idolatram.

Melhor momento: “Thank God For Sinners”, do álbum “Twins”, saltou à vista numa performance que, de resto, foi toda ela constante e coerentemente memorável.[Clica na imagem para ver mais fotos. ©Hugo Lima]

4. Tortoise (Chicago, Illinois, E.U.A)
Subindo ao palco cerca de 15 minutos antes de Beach House, aos gigantes do post-rock impunha-se um desafio se quisessem estancar a fuga de público que, mais que esporadicamente, se avistava do antigo Palco ATP para os seus vizinhos. Não só se mostraram à altura, como obtivemos de Tortoise uma das mais esdrúxulas performances de todo o festival. Fiéis à estrutura fixa de quatro elementos, que se revesavam entre duas baterias, baixo, guitarras e mais uma miríade de outros instrumentos, trouxeram ao Parque da Cidade um set tão invejável quanto vanguardista, abdicando das palavras em favor de sons que ultrapassavam barreiras de género ou estilo musical. Concentrando-se em “The Catastrophist” (2016), mas incorporando temas que iam tão longe quanto a “TNT” (1998), Tortoise fizeram valer o tempo a quem os concedeu, mesmo que a componente de total imprevisibilidade que permeia os seus discos não tivesse passado para a plateia da forma mais eficaz.

Melhor momento: Num concerto uno mas disforme, coeso e ainda assim agradavelmente frankensteiniano, qualquer instância se poderia destacar em relação a qualquer outra – palmas, então, para todas elas.
[Clica na imagem para ver mais fotos. ©Hugo Sousa]

3. Drive Like Jehu (San Diego, Califórnia, E.U.A)
A falta de espectadores presentes no Palco ATP para testemunhar os Drive Like Jehu roçou o constrangedor. Havia, é claro, uma explicação para tal anormalidade num festival como o Primavera Sound: tinham sido colocados, em cima do joelho, entre os enormes Battles e os ainda maiores Air, a começar no fim do primeiro e a acabar já para o meio do segundo. O que não impediu a banda californiana de tirar partido do melhor equipado e mais acolhedor dos palcos para inaugurar, naquele pequeno pedaço do recinto, um mini-oásis de barulho, suor, empurrões a bar aberto e muito abanar de cabeças. Num concerto de fazer mossa, que terá servido de porto de abrigo a quem pedia do Primavera algo mais pesado (como foram Sleep ou Electric Wizard no passado, ou como poderia ter sido Bardo Pond nesta edição), Drive Like Jehu ensopavam de distorção as suas malhas – já com sua boa dose de dissonância e variações métricas – incrementadas ainda pelo implacável rosnar de Rick Froberg. Exibindo virtuosas misturas de técnica e garra, os Drive Like Jehu fizeram jus ao título de ícones do post-hardcore.

Melhor momento: Há que tirar o chapéu ao sublime e simultaneamente horrendo encerramento do concerto, com “Luau”. A celebradíssima faixa de “Yank Crime” deixou soar as suas inclinações mais post-rock, embalando-se num crescendo que culminou no perfeito equilíbrio entre caos e clímax, tirando a barriga da miséria aos salivantes fãs que se faziam ouvir a exigi-la.

2. Dinosaur Jr. (Amherst, Massachusetts, E.U.A)
Quase tão ingrato na sua colocação quanto recompensador  na sua escolha, Dinosaur Jr. colidiu praticamente na íntegra com a apresentação exclusiva e, muitos afirmarão, imperdível de “Pet Sounds” por Brian Wilson. O modesto intervalo de vinte minutos entre o início das duas performances, quando conjugado com uma colocação estratégica e alguma corrida, permitiam que se assistisse a metade de cada um, e foi o que muitos festivaleiros fizeram, embora muitos outros preferissem acampar à beira do Palco . antes mesmo que os titãs de Massachusetts se revelassem. Ambos os grupos foram recompensados pelos seus esforços: barulhentos, joviais e tecnicamente proficientes como sempre, Dinosaur Jr. deixaram muitas bandas do lado de cá da viragem do século no tapete, mostrando mais uma vez não ter sido em vão o seu retorno às digressões. A base de Lou Barlow (baixo) e Murph (bateria), muitas vezes enraizada nas estruturas rígidas do punk rock, viam a  inimputável guitarra de J Mascis florir em deambulações pelo noise, metal e indie, mesmo que, no background, o pop se impusesse como força motriz das composições dos veteranos. Cada riff que brotava dos dedos de Mascis, que quase sempre desembocava em solos frenéticos e impecavelmente executados, era como erupção que fazia abalar o público, que delirava com as primeiras notas de cada canção iniciada pelo trio. Demonstração de energia que não se faz só pela violência, Dinosaur Jr. desceram do palco triunfantes, mas não antes de deixarem a sua homenagem aos The Cure em registo.

Melhor momento: A performance inesperada de “Little Fury Things”, faixa de abertura de “You’re Living All Over Me”, fez estremecer as estruturas do palco, coisa pouca, dado o poder da malha executada pela banda. Ainda que a segunda guitarra tenha feito falta face à versão de estúdio, ficou o testemunho de um dos melhores álbuns do género para compensar a ausência de “Sludgefeast”.
[Clica na imagem para ver mais fotos. ©Inês Barrau]

1. Floating Points (Manchester, Reino Unido)
Um dos concertos menos assistidos de todo o festival, à performance dos Floating Points de Sam Shepherd deveria ter sido dada toda a atenção possível. Como sempre, a situação não era fácil: actuava em conflito com o que se presume terem sido as brilhantes Savages, de um lado, e a inconfundível PJ Harvey, do outro, pelo que, por comparação, o seu nome empalidecia. Não se arrependeu quem até ao Palco . se deslocou, no entanto, pois deparou-se com aquela que foi muito provavelmente a mais surpreendente apresentação do NOS Primavera Sound. O colectivo, que ainda assim actuou no seu formato mais reduzido (como Floating Points Ensemble costuma incluir sopros e cordas), combinava timbres electrónicos produzidos pelas indecifráveis maquinações de Sam Shepherd (neurocientista de formação!) com todo o dinamismo de uma excepcionalmente dotada banda ao vivo, qual particularmente inebriantes Sensible Soccers imiscuidos em post-rock e com claras influências de ritmos de jazz e krautrock à mistura. A sua combinação era tão eficiente, as suas incursões tão perfeitamente executadas, apelo tão refrescante e resultado tão imaculado, que quem estava pelo ex-ATP lá ficou, e quem chegou recusou-se a sair. Uma mais que imperdível estreia em Portugal por um músico que ainda terá muito para dar e que, com o tempo, verá chegar o reconhecimento que tanto merece.

Melhor momento: A abertura do concerto, com uma versão de 16 minutos da angelical “Silhouettes (I, II & III)”, estabeleceu bem o tom de um espectáculo que seria, todo ele, igualmente majestoso.[Clica na imagem para ver mais fotos. ©Hugo Sousa]