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Danilo Pérez Trio no CCB, Arte e Genialidade

Danilo Pérez Trio no CCB, Arte e Genialidade

2024-03-26, Centro Cultural de Belém
Rodrigo Baptista
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Técnico, espontâneo e intimo, assim foi o concerto de Danilo Pérez Trio, com John Patitucci e Adam Cruz, no CCB. Num misto de tertúlia com performance, os três músicos assinaram uma prestação magistral, extremamente articulada e dinâmica onde não faltou a homenagem ao grande mentor de Pérez e Patitucci, Wayne Shorter.

Porta-estandarte do jazz latino, juntamente com nomes como Omar Sosa e Michel Camilo, Danilo Pérez apresenta-se como um dos mais respeitados músicos do jazz de fusão. Enquanto estudante, na Berklee College of Music, Pérez sempre se rodeou dos melhores músicos. Jon Hendricks, Paquito D’Rivera e Slide Hampton são apenas alguns deles, mas foram Dizzy Gillespie e Wayne Shorter que deixaram a maior marca na identidade e linguagem musical de Pérez. Numa entrevista ao The Indepedent, em 1998, Danilo expressou que: «Uma das coisas que o Dizzy ensinou-me foi a aprender sobre a minha própria herança ainda mais do que eu já sabia. Ele disse que era mais importante para o jazz tu descobrires quais são as tuas próprias raízes, do que aprender sobre outras coisas.» E assim foi, ao longo destes quase 40 anos de carreira, Pérez tem vindo a aprofundar a sua linguagem sonora assente numa fusão de música panamenha, folclórica latino-americana, ritmos da África Ocidental e impressionismo europeu. Ao CCB Pérez trouxe o seu colega no Wayne Shorter Quartet e colaborador de longa data John Patitucci no baixo, e o baterista Adam Cruz, sideman nos álbuns de Danilo “…Till Then” (2003), “Live at the Jazz Showcase” (2005), “Providencia” (2010) e “Panama 500” (2014)

“Whistle Through Adversity” foi o ponto de partida. Com um tema suave ao piano de Pérez, o timbre abafado do contrabaixo de Patitucci e variações rítmicas assentes predominantemente no hi-hat e na tarola de Cruz, os três músicos abriram o livro e deram-nos um cheirinho de como se processa a sua interação e articulação. A meio do tema Pérez retirou a sua mão direita do piano de cauda que preenchia o lado esquerdo do palco para recorrer a um keyboard que, ao longo da noite, lhe permitiu explorar a sonoridade de um Fender Rhodes, de um orgão, de um Moog e de um sintetizador com sons espaciais. Seguiu-se “Rediscovering the Pacific Ocean”, um tema cuja inspiração vem da exploração marítima espanhola dos séculos XV e XVI. Com ritmos latinos e indígenas mais vincados este foi o primeiro momento onde o trio revelou toda a sua sintonia através de um diálogo que se desenrolou em solos vertiginosos e cativantes. John Patitucci, já com o seu Yamaha TRB-JP2 de seis cordas conectado a um Aguilar Tone Hammer 500 e a uma coluna Aguilar GS 410, mostrou-se particularmente efusivo com um solo melódico e ágil.

“Ultimate Realities” e ““Beloved”, dedicadas a Angela Davis e Toni Morrison repectivamente, iniciaram o segmento das homenagens. A primeira assentou numa dissonância harmoniosa com uma moldura rítmica mais abstrata, já a segunda apresentou apontamentos de uma peça de música clássica com Patitucci a utilizar um arco para friccionar as cordas dos seu contrabaixo. A exploração sónica de Patitucci continuou em “Wayne”, o primeiro de dois temas de homenagem a Wayne Shorter, com uma linha de baixo atmosférica assente num efeito de delay. Seguiram-se solos de Pérez com a articulação da mão esquerda no piano a fazer o ritmo e a mão direita a solar no sintetizador, Patittuci a percorrer a escala do seu baixo com grande mestria e, por último, Cruz que, apesar de se apresentar algo na retaguarda dos outros dois ilustres, soube manter a sua postura ao mostrar-se profundamente criativo nas suas intervenções.

A fechar o set, o trio apresentou “Point of No Return”, tema que Pérez compôs no ano passado pouco tempo depois da morte de Wayne Shorter. Com um solo de Moog de Danilo, e Patitucci e Cruz em profunda simbiose, o concerto terminou com o público de pé a ovacionar esta que é, para muitos, a nata do jazz.