Devendra Banhart, O Novo Esquisito

Devendra Banhart, O Novo Esquisito

2020-02-16, Capitólio, Lisboa
Carlos Garcia
Inês Barrau
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Devendra Banhart, marcado pelo destino de não ser Jorge ou António e ter nome de deus hindu obsoleto, parece ser bem-sucedido em praticar a qualidade de não levar esta “estranha-anormal-fora-do-vulgar-misteriosa” experiência de vida demasiado a sério. E em Portugal pode sempre praticar um pouco mais o seu mau português.

Devendra é, na tradição Hindu, um epíteto de Indra, senhor dos deuses reverenciado na Índia védica. Apesar de ser a divindade mais referenciada na antiga literatura, com o passar dos séculos foi ultrapassado por nomes mais sonantes como Shiva, Kali ou Vishnu. É sempre perigoso quando pais e mães bem-intencionados atribuem epítetos, mais ou menos, divinos, proféticos ou heróicos à sua prole. Um nome tem poder e carrega uma determinada herança, mas se o dito for apenas o autor favorito da mãe ou do pai, a bagagem ainda é comportável.

Devendra Banhart chegou ao Capitólio do Parque Mayer, no seu Portugal (porque este reino antigo também já é um bocado dele), carregando na sua peculiar bagagem um novo álbum, “Ma” (a sua palavra universal para mãe e para a mãe Venezuelana que lhe terá impossibilitado de ser simplesmente um Jorge ou um António), e um nome de divindade semi retro.

Devendra emergiu na cena musical contemporânea cavalgando o movimento do New Weird America e Freak Folk, repescagem no início do século XXI das experiências psicadélicas que o folk tinha empreendido nos anos sessenta. E é a palavra weird que assoma ao seu lábio a meio da sua primeira noite no Capitólio, quando alguém lhe grita «I Love you». A declaração amorosa provoca-lhe um pequeno fluxo de consciência que o leva a partilhar connosco a estranheza da vida, da existência, de termos corpos e fazermos coisas. Da vida enquanto sonho…

A bagagem “kármica” dos nomes tem, sem dúvida, um grande peso em quem somos e no que fazemos. Weird é um derivado de Wyrd, conceito anglo-saxónico que engloba destino pessoal e providência. O termo perdeu o seu significado original e o seu uso inglês, até que Shakespeare o repesca para baptizar as suas Weird Sisters em Macbeth, as Nornes do Destino. É partir desta readaptação da palavra como pronome que ganhamos a interpretação actual: estranho, anormal, fora do vulgar, misterioso. É Devendra um pouco destas coisas?

Apresentando-se em palco num fato a um grau de separação de ser aceite como adulto, às vezes simulando na perfeição o crooner contemporâneo de um Scott Walker, Devendra tem dentro de si algo de demasiado irrequieto, nonsense, insólito, que rompe por entre a fatiota que nunca pretendeu ser demasiado séria de qualquer forma, pois parece estar sempre um número abaixo do homem que a ocupa.

“Is this Nice?” abre a função, a pergunta de Devendra a um eventual hipotético filho que poderá nunca vir a ter. A aproximação dos quarenta, a noção de que quando já se cá anda há algum tempo se acumula um tipo de experiência na pele que podendo, ou não, ser sabedoria, deve ser passada, transmitida, partilhada. Este último álbum é, talvez por isso, por haver uma noção mais concreta daquilo que se quer dizer, mais coerente e mais sóbrio nas entoações e nos arranjos. “Kantori Ongaku”, “Love Song”, “Taking a Page”, todas elas existem naquela dimensão de interioridade, quase como se estivessem a ser compostas na hora. Ao vivo ganham mais corpo com a presença da banda, mas ainda assim parece que ficam sempre retidas no quarto, garagem ou comboio onde foram eventualmente compostas.

“Carolina” será o exemplo mais fulcral deste tipo de abordagem ao som: uma neo bossa, declaração de amor em mau português, na qual o próprio leitmotiv é a noção de que se está a querer dar uma cantada em mau português. Não é ingénuo, mas resulta particularmente frente a um público que fala a língua.

No revisitar de sons mais antigos é dado maior espaço à improvisação e em levar as canções para outras paragens.

A outra língua das canções Devendrianas é o castelhano da sua Venezuela. Em “Mi Negrita”, o bolero dos “desamores” nas antigas noites quentes de Caracas intervala e contrasta com o ritmo mais contido das música de “Ma”. O próprio Devendra parece encontrar um sítio mais confortável dentro de si, mimetizando a letra e escapando aqui e ali ao original. É, aliás, no revisitar de sons mais antigos que é dado maior espaço à improvisação e em levar as canções para outras paragens. E é apropriado uma toada mais dançante para “Golden Girls” ou um maior dramatismo nos coros e nas guitarras bluesy de “Daniel”.

No intermezzo do concerto a banda abandona o palco, deixando Devendra em modo solo e a aceitar discos pedidos:” Bad Girl” e “So Long Old Bean”, ambos de “Smokey Rolls Down Thunder Canyon”. Algures no futuro seria bom um concerto inteiro neste modelo de apenas um homem com nome de deus descontinuado e esquecido, um instrumento, sem alinhamentos pré definidos: duas horas de pequenas canções e conversas em mau português, numa sala bem mais pequena do que esta. Mas esta noite é de concerto mais musculado, por isso já com os restantes membros de regresso, o ritmo torna-se mais disco com “Fig In Leather”, transita para a new wave cool de “Fur Hildegard von Bingen” e para o groove gentil de “Never Seen Such Good Things”.

“Seahorse” dá todo o espaço para o delírio e divagação psicadélica, vai até à outra margem e volta. Numa noite de canções que são pequenos nadas, esta é enorme e espaçosa, sendo ao mesmo tempo tão simples e minimal. “Celebration” dá o embalo e o empurrão final para “Carmensita”, que com o seu vídeo de Rainha Amidala cobiçada pelos deuses védicos (os esquecidos e os ainda recordados), a sua letra de tequila contaminada com mescalina e o seu groove latino, será para sempre a imagem de marca deste trovador improvável.