Eyehategod, Decadência & Glória

Eyehategod, Decadência & Glória

2015-07-04, RCA Club
Nero
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Desde as primeiras notas, ainda no line check, passando pela moca descomunal de Mike Williams, os Eyehategod arrasaram Lisboa. Finalmente!

Ainda Mike Williams não tinha subido ao palco, a banda ia fazendo o line check, e Lisboa já estava a ouvir uma das mais genuínas actuações artísticas dos últimos anos. De facto, as escassas notas de Jimmy Bower [que acabou por vir de Ampeg] na Gibson Sonex 180, que veio também com ambos os pickups montados, e as brincadeiras com Brian Patton, que foi arriscando, inclusivamente, alguns dos riffs clássicos de “Master Or Reality”, soavam a promessas de um concerto memorável, de uma banda única.

Mike Williams surge em palco, a protestar com o suporte do microfone, nervoso… Ainda sem o “chuto” se ter instalado, isso sucederia por altura de “New Orleans Is The New Vietnam” e duraria bem até final do concerto. É ainda mais surpreendente se nos recordarmos que a setlist, a percorrer de forma inatacável a discografia da banda, durou aproximadamente uma hora e quarenta minutos!

Williams lembrava a postura de Layne Staley, nas suas últimas aparições. E temos aquela sensação de que cada concerto poderá ser o último. Não se pretende aqui fazer qualquer eulogia a narcóticos mas, simplesmente, há coisas que não se fingem. Quando Williams diz, laconicamente, «We are all gonna die. We’re all gonna die together», a esperança some-se dos ossos e a fatalidade imutável instala-se como vizinha.

Cheio de veneno, Williams mete aquela mariquice de apupar o artista que diz “gracias”, em vez de “obrigado”, clamando: «Enough bitches! Sorry I can’t speak every fucking language in the world».

A decadência amarga e imponente dos Eyehategod é crua, autêntica e possui a glória impetuosa do momento.

O novo álbum, o primeiro em quase 15 anos, esteve naturalmente presente. Aliás, “Agitation! Propaganda!” teve honras de abertura e “Parish Motel Sickness” e “Medicine Noose” ombrearam com “Jackass In The Will Of God” e “Take As Needed For Pain”, como pontos mais altos da noite. A banda pode ter estado de rastos e Jimmy Bower teve mesmo que, a meio do concerto, actuar meio sentado em cima da coluna, cheio de dores de costas, mas o som que aquelas quatro cordas produzem seria capaz de criar ondas sísmicas mesmo com o guitarrista morto!

A decadência amarga e imponente dos Eyehategod é crua, autêntica e possui a glória impetuosa do momento. Na verdade, houve apenas um aspecto algo negativo, dir-se-ia mesmo criminoso: o pouco volume do PA. É também justo dizer que, ainda que não estivesse tão alto quanto devia estar, a mistura estava próxima da perfeição.

Isso não impede o miraculoso som de Patton. Incrível, como aquele Ampeg SS-150, escavacado, com o logo de Soilent Green, soa sozinho. Será justo dizer que a dupla rítmica, constituída por Aaron Hill e Gary Mader, na bateria e baixo respectivamente, manteve durante todo o concerto uma dinâmica colossal. Algo essencial a malhões como “White Nigger” ou  “Peace Thru War (Thru Peace And War)”.

A anteceder os americanos, Besta soou com, provavelmente, o melhor som que já lhes ouvimos. Essa definição terá removido alguma da intensidade crua que a banda possui. Por outro lado, isso exaltou os tiques roqueiros do quarteto que, com o corpo de baixo delineado, em vez de graves enrolados, se mostrou menos pesado, mas mais dinâmico.

Fotos: John Batista