Peter Frampton

Peter Frampton

2011-10-05, Pavilhão Atlântico, Lisboa
Nero

Que Frampton é um grande guitarrista é bem sabido, ainda assim não deixou de ser surpreendente ver tanto público no Pavilhão Atlântico – mesmo sabendo que toda a gente no mundo tem o duplo LP “Frampton Comes Alive!”. O próprio Peter Frampton parece ter sentido isso na primeira vez que falou ao público afirmando: “so many of you came…”.

A noite era dedicada precisamente ao 35º aniversário desse álbum angular na história do rock clássico. E a primeira parte do concerto fez soar os acordes dessa setlist registada num dos concertos lendários dessa mesma história. Quando surgiram os acordes de “Something’s Happening”, a verdade é que estava mesmo algo a acontecer e Lisboa acabou por testemunhar uma actuação de fogo nostálgico. Será possível reproduzir um momento? Não será, mas relembrá-lo com fulgor ou apenas por incapacidade de deixar o passado no seu lugar é uma escolha que pode sempre ser feita. Felizmente, aconteceu a primeira.

“Show Me The Way” fez surgir os primeiros coros no público, da mesma forma que fez surgir pela primeira vez na noite o detalhe de processamento que tornou Frampton lendário – o uso do Talkbox. “All I Want To Be (Is By Your Side)” fez surgir a sensação, depois imensas vezes repetida, de que este concerto devia ter sido filmado e mostrado em escolas de música, como um exemplo perfeito daquilo que é o sentido de dinâmica entre uma banda e numa canção.

O Atlântico estava em crescendo emocional e quando surgiu “Baby, I Love Your Way” era fácil de prever que seria o público a assumir a tarefa de cantar o refrão. Não deixa de ser curioso que esse single é um tema que nunca gostei, sempre o considerei o “Wish You Were Here” de Frampton, mas a verdade é que presencialmente tem uma magia estranha, funciona melhor que em disco. De qualquer forma não tem a classe do hard blues conduzido a piano, por Rob Arthur, de “I Wanna Go To The Sun” – com o melhor solo da noite (?) depois dum crescendo de intensidade perfeito, utilizando a expressão tão americana “really cookin’”.

Falando em cozer, colossal o riff de “I’ll Give You Money”, a fazer lembrar porque toda a gente, repito, tem “Frampton Comes Alive!”; brilhante o solo em diálogo e depois harmonizado com Adam Lester. No fundo, “Shine On” ilustrou o concerto no qual a banda brilhou, Stanley Sheldon é o único membro que gravou com Frampton o álbum em questão, mas Rob Arthur não fica atrás de Bob Mayo, nem Dan Wojciechowski de John Siomos na bateria. Adam Lester faz um papel que não existia no álbum original, outra guitarra além de Frampton, mas a sua inclusão dá muito mais corpo aos temas, que na gravação clássica.

“Jumping Jack Flash” faz as pedras rolarem para o final e um dos momentos mais esperados da noite. Durante 18 minutos, a banda fez soar “Do You Feel Like We Do”, a anteceder um dos solos de guitarra mais famosos da história da guitarra, surge nos ecrãs o episódio dos Simpsons no qual Frampton vê os Cypress Hill ficarem com a sua orquestra, os Sonic Youth roubarem-lhe a pedalboard e vê ainda, tal como a sua guitarra, os sapatos de Otto falarem também!

Estava encerrada a primeira parte, voltamos 20 minutos depois com a sensação de que o dever estava cumprido e vamos receber mais 40 minutos de extras. Como destaque ficam as impressionantes rendições de “Black Hole Sun” e “While My Guitar Gently Weeps”. Foi também com um lamento que nos despedimos de um dos melhores concertos do ano. Felizmente era possível adquirir uma cópia do bootleg oficial do concerto que ajudou a lembrar que:

Frampton Continues Alive!