7

Van Morrison

Latest Record Project: Volume 1

BMG, 2021-05-07

EM LOOP
  • Where Have All The Rebels Gone
  • Tried To Do The Right Thing
  • Thank God For The Blues
Nero

O 42º álbum de Van Morrison vale pelos seus melhores momentos blues e pela extraordinária elegância instrumental. A sua extravagante dimensão (quase 30 canções) acaba por torná-lo algo inconsistente.

Sem dúvida que “Latest Record Project: Volume 1” é um álbum dinâmico, como é apresentado pelas agências de comunicação do irlandês, mas é um pouco desequilibrado. Aliás, era difícil que não fosse. Afinal, em incursões entre blues, R&B, jazz e soul, reúne 28 temas. Quase naturalmente, oscila entre canções estéreis e grandes malhões. Certamente que estas irão variar consoante o ouvinte.

É admirável que Van Morrison, mesmo com uma carreira para lá de firmada, continue a procurar surpreender quem o ouve e, talvez mais importante, surpreender-se a si próprio. Como diz sobre este disco: «Estou sempre a fugir das mesmas músicas, dos mesmos álbuns. Criei mais de 500 músicas, talvez mais. Então porque continuam a promover as mesmas dez? Estou a tentar “sair da caixa”».

Para o fazer, Morrison, como tantos outros músicos, impedido de sair em digressão, isolou-se nos seus espaços criativos. Daqui a uns anos, quando for possível absorver melhor a quantidade de trabalhos desenvolvidos neste contexto, veremos se tudo isto foi positivo para a criação musical. Se nos remetermos a este “Latest Record Project: Volume 1” diríamos que sim.

A voz de Morrison continua cativante, a sofisticação instrumental é tremenda e o seu pulsar rítmico adapta-se fervorosamente à conceptualidade própria de cada uma das canções. De entre tantos é difícil e arriscado sugerir títulos, mas nas primeiras audições destacam-se imediatamente dois que acabam por ilustrar também os pilares estéticos de Morrison: o rock n’ roll clássico de “Where Have All The Rebels Gone”, que lamenta a ausência de um pensamento independente, muitas vezes substituído na idade moderna por uma simples postura; e a elegante, suave e romântica “Tried To Do The Right Thing”.

Entre a omnipresença do blues (principalmente nos temas mais descaradamente inseridos nesta estética) e as tradicionais repetições de Morrison vão surgindo outros destaques, como “The Long Con”; “Thank God For The Blues”, fenomenal tema, sem dúvida: Graças a Deus pelo blues!; “A Few Bars Early” com reminiscências country; os pianos e órgãos e saxofone de “Only A Song”; e “Dead Beat Saturday Night”, onde Morrison nos confessa a sua revolta com a gestão da pandemia, vociferando frases como «sem vida, sem concertos, sem escolha, sem esperança, sem voz».

As teorias conspiracionistas, o rancor contra as redes sociais e mesmo alguma paranóia, abundam nas letras de Morrison. Filtrando isso e descartando alguns fillers, temos um álbum extraordinário. Se o considerarmos na sua plenitude, a nota baixa um pouco. Mas talvez Morrison tenha pretendido dar essa liberdade ao ouvinte – que este escolhesse, deste “projecto de disco”, o seu alinhamento ideal…

“Latest Record Project: Volume 1” está disponível em CD duplo, CD-deluxe, triple-vinil e formatos digitais aqui. A Arte Sonora tem 3 CDs  duplos para oferecer. Vejam como podem ganhar um deles.

Enfrentamos tempos de incerteza e a imprensa não é excepção. Ainda mais a imprensa musical que, como tantos outros, vê o seu sector sofrer com a paralisação imposta pelas medidas de combate à pandemia. Uns são filhos e outros enteados. A AS não vai ter direito a um tostão dos infames 15 milhões de publicidade institucional. Também não nos sentimos confortáveis em pedir doações a quem nos lê. A forma de nos ajudarem é considerarem desbloquear os inibidores de publicidade no nosso website e, se gostam dos nossos conteúdos, comprarem um dos nossos exemplares impressos, através da nossa LOJA.