George Harrison: “All Things Must Pass”

George Harrison: “All Things Must Pass”

Nero

Em 27 de Novembro de 1970, George Harrison editou “All Things Must Pass”. O triplo LP incluía várias canções que nas sessões de estúdio dos Beatles nunca passaram de leftovers. Compiladas aqui, tornaram o álbum no mais vendido de sempre e num dos mais aclamados trabalhos de um Beatle a solo.

título do álbum, “All Things Must Pass”, é bastante elucidativo. George Harrison já editara dois álbuns a solo, mas desta vez os Beatles tinham mesmo acabado e tudo seria diferente. Era altura de colocar para trás aquela que foi, provavelmente, a maior banda de sempre, a maior aventura de sempre, na história da música popular. Se “Wonderwall” e “Electronic Sound” foram álbuns instrumentais, nos quais Harrison procurara apenas escoar o seu grande talento musical, agora que as suas canções não iam, de todo, ser subjugadas aos condutores da Beatlemania e Harrison podia assumir um papel de produção, de decidir livremente, sem estar espartilhado pela imposição (vinda de cima) da fórmula Lennon-McCartney.

Foi um álbum muito importante para mim e, na altura, um veículo para todas as canções que escrevera durante o último período com os Beatles. Comecei a gravar poucos meses após a decisão de cada um de nós seguir o seu próprio caminho e estava ansioso por gravar um primeiro álbum de “canções” – Notas de Harrison

Foi numa altura em que a banda que havia sido maior que Jesus terminara e entrava numa tempestade de acusações internas e disputas legais, que Harrison começou a estruturar “All Things Must Pass”.

Além dos Dominoes, surgem neste álbum nomes como Phil Collins (no pico da sua forma como músico prog), Bobby Keys, Peter Frampton e, principalmente… Eric Clapton! Na altura, as editoras não permitiam a associação entre Harrison e o Slow Hand, portanto Clapton não surgiu nos créditos de “All Things Must Pass” durante mais de 30 anos. Bob Dylan escreveu com Harrison o tema que abre o álbum, “I’d Have You Anytime”, e ainda “If No For You”. Ringo não estava a tocar com ninguém e juntou-se às sessões, gravando cerca de metade dos temas, tal como Billy Preston fez nos pianos, ele que Harrison já tinha levado para as gravações de “Abbey Road” e “Let It Be”.

Tive a sorte de estar no momento certo para conseguir o remanescente dos The Delaney & Bonnie. Jim Gordon, Carl Radle e Bobby Whitlock, baterista, baixista e teclista, respectivamente, tinham vindo a Inglaterra para passar um tempo com o Eric Clapton (e estavam rapidamente a tornar-se em Derek And The Dominoes). Gravámos, inclusivé, duas das canções dos Dominoes, “Roll It Over” e “Tell The Truth, durante as sessões de “All Things Must Pass” e que eles regravaram mais tarde. Foi óptimo ter o seu apoio em estúdio, foi uma grande ajuda.

Harrison ficara convencido com Phil Spector e a sua Wall Of Sound e chamou-o para a produção e assumir o trabalho em estúdio. Trabalho esse que foi exaustivo, como o próprio Harrison lembra nas notas sobre o álbum: «Algumas sessões foram alvo de longa preparação sonora e os arranjos chegaram a contar com vários percussionistas, quatro ou cinco guitarras acústicas, dois bateristas, dois pianos e até dois baixos numa das canções. As canções foram tocadas repetidamente até os arranjos serem incorporados pelo engenheiro, de acordo com o som que o Phil Spector queria».

Harrison iniciou as gravações, nos Abbey Road, em 26 de Maio de 1970. Os engenheiros, Ken Scott e Phil McDonald, que auxiliaram o músico e Phil Spector, também tinham um passado com os Beatles. A abordagem escolhida foi a fórmula Wall Of Sound, com a gravação das bases instrumentais feitas em take directo e gravadas em 8 pistas. O ex-Beatle esperava passar um máximo de dois meses em estúdio, mas esteve “preso” entre Abbey Road, Trident Studios e o Apple Studio até Outubro. Diz-se que Phil Spector precisava de se “encharcar” em brande, antes de conseguir começar a trabalhar, e Harrison viu-se obrigado a assumir muita da produção. À dependência de Spector juntou-se a de Clapton. O guitarrista apaixonou-se pela mulher de Harrison e, consumido pela culpa, afundou-se no consumo de heroína. Estas situações atrasavam as sessões e aumentavam os custos com o álbum, então a EMI começou a pressionar Harrison, que ainda teve que lidar com a morte da sua mãe.

Com Spector em convalescença em Los Angeles, coube a Harrison supervisionar os overdubs. Em Agosto, Spector respondeu por carta e impeliu à mudança para os estúdios Trident e o seu sistema de 16 pistas. Spector regressou para controlar a conversão das faixas já gravadas em 8 pistas para o novo formato. Anos mais tarde, Harrison lamentaria o sobrecarregamento de reverb na mistura final do álbum, mas isto permitiu somar ainda mais instrumentos e overdubs aos temas. Foi assim que, em Setembro, foram gravados os arranjos orquestrais de John Barnham que transformaram o som de temas como “Isn’t It A Pity”, My Sweet Lord”, “Beware Of Darkness” ou “All Things Must Pass”. Também foi nesta altura que, até pela ausência de Clapton, Harrison gravou algo que se tornou numa linguagem sua por excelência, os elementos slide guitar. A expressão do guitarrista, numa fusão de blues e do universo da sitar e música indiana, tornou-se única! O Quiet Beatle fez um disco aclamado por meio mundo e adorado por outro meio, no fundo, um disco aclamado por quem não gostava de Beatles e adorado por quem gostava. Muito além do conservadorismo de McCartney ou do vanguardismo de Lennon, “All Things Must Pass” é um álbum explosivo de rock ‘n’ roll e elástico esteticamente. Um disco onde toda a capacidade criativa e técnica de Harrison surgiu livre e, talvez por ter estado tanto tempo na sombra, surpreendente.

Nesta altura iam longe os primeiros tempos dos Beatles e os dias das Rickenbacker e da sua guitarra mais famosa, a Gretsch Duo Jet. Harrison, quiçá influenciado por Clapton, era cada vez mais fã dos modelos clássicos da Gibson e da Fender. Aliás, em 1968, Clapton ofereceu uma Les Paul Standard de ’57 ao seu amigo. A guitarra, originalmente Goldtop, foi transformada num Cherry Red. Foi a guitarra que gravou “While My Guitar Gently Weeps” e que Clapton usou ainda em muitas sessões de “All Things Must Pass”. A guitarra foi alvo de versão Custom Shop da Gibson [na imagem].

lucy

Por minha vontade, a Strat teria sido a minha primeira guitarra. Tinha visto a do Buddy Holly na capa do álbum “Chirping Crickets” e procurei uma. Mas em Liverpool, naquele tempo, a única coisa que se encontrava parecida a uma Strat era a Futurama. Era muito difícil de tocar, as cordas ficam muito distantes da escala… De qualquer modo parecia realmente meio futurista.

Harrison estava mais fixo na Fender. E depois da descoberta e intensa utilização da peculiar Rosewood Telecaster, de ’68, nos dois últimos trabalhos dos Beatles, neste álbum o músico celebrizou duas Strats: a “Bangladesh Strat” e a Rocky Strat. A primeira recebeu a sua alcunha por ter estado sob foco permanente no “Concert For Bangladesh”, em 1971. É um modelo dos anos 50 da Fender, com escala em maple e o acabamento completamente “lixado”, com a madeira do corpo completamente nua. E a Rocky Stratocaster era a guitarra que Harrison usava para fazer slide. Originalmente era um modelo Sonic Blue e foi a primeira Fender que Harrison comprou, em 1964, quando ele e Lennon decidiram passar a usar Strats. A pintura terá sido feita na altura de “Sgt. Pepper’s”. A escala era rosewood, o braço é datado de Dezembro de 1961 e o serial number é 83840.

Artigo completo em publicado na AS#49.